terça-feira, 30 de julho de 2013

ELEFANTINHOS

(para Jean de Brunhoff, criador do elefante Babar)
 

Dos elefantinhos que me lembro,
um segurava a cauda
do outro, que atento
ao próximo, sua cauda
segurava, por mania
de contribuição,
de integrar sua tromba
no grande unison.

Do que me lembro, o elefantinho
tinha boné rajado
e ar de turista
trafegando pelos
bulevares com seus cafés
e crianças andando em bicicletas
(aquelas de rodas grandes)
no silêncio das aleias.

Elefantinho branco
no teatro de fantoches
e tudo sem afetação:
elefantes saúdam
sua humanização
sobre os paralelepípedos
de uma cidade cheia
de balões azuis.

O elefantinho desfila
com sua cria,
o chapéu com tira ao vento,
ele sempre atento
ao pináculo da Tour Eiffel
e de outras torres
das quais nossa infância
se alimentou.

Elefantinho se une
às sombras na parede
até nossa sombra
ser só invenção,
ele que já esteve nu,
já desfilou na manada,
seu barrido agora
pop-ressoando.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

TODO POETA 2

Todo poeta tenta
falar como criança, os lábios
ainda roxos do parto,
a síndrome de ter de respirar,
se acostumar com a ingestão de ar,
o ar que nos anima
e rimas nos ensina.

Falar como criança, os lábios
ainda presos em secura
porque em princípio éramos
destinados à mudez,
mas o sol nos deu vida
que parecia impossível,
tíquete só de ida.

Falar como criança, orgânica
a ligação entre os lábios
e o sentido, oclusivas
as relações entre mim e o mundo,
entre o que sou e desejo,
até o fato de o desejo
ser só circunstância verbal.

Falar como criança, grudando
nossa fala à realidade,
o desejo primal
de que a realidade se case
com nossa boca em brado
bem articulado
do ponto de vista muscular.

sábado, 13 de julho de 2013

BARROCO

Barroco é meu fervor. Lope de Vega,
Gregório, Sor Juana, Garcilaso,
Góngora, Quevedo, de Molina,
Cervantes, Calderón e outros salmistas
sempre garantiram que é possível
Jesus ressuscitar entre os gentios.
Sem adornos nem apliques,
simplesmente Jesus agora e aqui,
no alpendre ou na rota dos perdidos,
na fruta ou na filha do vizinho,
na nuvem ou no vento que se atiça,
no mar que se alevanta, na montanha
que parece desafiar o abismo,
porque Deus é senhor da antinomia
e nós somos apenas meio-fio.
Somos homens do meio (dizia
T. S. Eliot), tiros
disparados pra onde ninguém diz,
certamente porque a verdade
só pode estar longe, lá no fim.

Barroco é meu fervor. Bardo de Stratford,
bardo de tantas rixas e galhofas,
de estapafúrdios trocadilhos,
balbuciar de virgens, lamuriar
de velhos sem siso e sem coroa,
e trilhas de castelos arrepiados
em eterno nórdico frio.
De Veneza trouxemos as máscaras,
truques de palco, explosões
enchendo o proscênio de fumaça,
a sociedade encenada
como barroca corte de espetáculo
em concerto grosso.
Barroca de fato é a ascensão
da rota vertical de nossas vidas.
Só o que importa é a quintessência.
O que sobrou depois
de os rumores e fúrias terem ido.
Jesus agora e aqui, eis a pepita.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CURA GAY 2

Na UTI dos pobres inalei
gases incandescentes, e a lei
me impôs sua face mascarada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres embebi
meu nariz em vinagre, e nunca vi
tantos gays como eu na manada,
em angustiosa debandada.

Na UTI dos pobres percebi
que gays, pretos e índios há ali,
mas são gente que não vale nada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres indaguei
que culpa carrego por ser gay,
mas a rua estava interditada.
Só se fala à boca fechada.

Na UTI dos pobres me envolvi
em tumultos que nunca antes vi,
deixando a praça esfumaçada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres padeci
a diferença entre mim e ti,
nossa tez, nossa vida passada.
A vida vista como escalada.

Na UTI dos pobres faleci
sem deixar sequer um álibi,
uma extrema-unção de fachada.
Meu destino é levar porrada.

OBESO

Sou o obeso
capaz de discursar sobre obesidade.

Sou o indefeso
eterno refém de sua própria vaidade.

Sou o oleoso
que em tudo busca vã neutralidade.

Sou o teimoso
conhecedor dos vãos da teimosia.

Sou o asqueroso
que no pescoço da mãe pisa.

Sou o surpreso
perguntando: até onde vai minha barriga?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ORIGEM

Como de macacos surgiram
esses entes tão grandes e astutos
capazes de inquirir a Lua
e obrar morticínios
e varar descampados
e instituir leis, 
capazes de erigir um deus
num altar inútil
porque deuses eram eles
em sua sede de vingança
contra o deus-macaco que nunca existiu?

Como, me digam, como
dos grandes macacos vieram
macacos astrofísicos, equipados
com tecnologia e tolice,
o afã dos afazeres
secundado pelas vacinas
contra tudo o que eles não são,
dissecados em suas fibras
musculares? Mas o cérebro
é o músculo que comanda,
mesmo sendo o mais tenro.

Macacos de cérebro fremente
latejando em ambição e dor,
macacos de beleza. São donos
da Terra por merecimento.
Mas curiosamente suicidas:
como se a beleza em vinte dedos
fosse insuportável, e de vinte
milênios não aprendessem nada,
condenados a repetir,
interrogar o céu em seu fingir,
atônitos diante do porvir.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A POESIA É TERRA DE CULTIVO

A poesia é terra de cultivo.
Só por um triz me sinto vivo.


Jorge, Cecília, Murilo, Drummond,
terra-roxa onde tudo brota,


qualquer expressão previsível
e outras fora de rota.


Murilo, Drummond, Jorge, Cecília,
me deem um pouco de água fresca,


me deem um apanágio
no amanhã surpreendente.


Jorge, Drummond, Cecília, Murilo,
cheguem aqui, me ensinem


o cultivo de espécies nativas:
saudade, inquietação,


suingue, suor, assombro,
o verso que se parte em dois.


Drummond, Cecília, Murilo, Jorge,
não me deixem tão desamparado!

Sou lavrador de terra intangível
que pelo visto nunca acaba.

ANDES

Escrever é escalar montes
por onde ninguém andou.
Se andas, é por onde Andes,
onde a águia equacionou seu voo.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Escrevam, minhas queridas, onde estou:
no Andes de dizer: "eu sou".


Pode haver um Equador da dor,
mas escrever é sempre escalar.
Andina deveria ser toda gramática.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Mas só pela poesia sei que sou.