Na UTI dos pobres inalei
gases incandescentes, e a lei
me impôs sua face mascarada.
Meu destino é levar porrada.
Na UTI dos pobres embebi
meu nariz em vinagre, e nunca vi
tantos gays como eu na manada,
em angustiosa debandada.
Na UTI dos pobres percebi
que gays, pretos e índios há ali,
mas são gente que não vale nada.
Meu destino é levar porrada.
Na UTI dos pobres indaguei
que culpa carrego por ser gay,
mas a rua estava interditada.
Só se fala à boca fechada.
Na UTI dos pobres me envolvi
em tumultos que nunca antes vi,
deixando a praça esfumaçada.
Meu destino é levar porrada.
Na UTI dos pobres padeci
a diferença entre mim e ti,
nossa tez, nossa vida passada.
A vida vista como escalada.
Na UTI dos pobres faleci
sem deixar sequer um álibi,
uma extrema-unção de fachada.
Meu destino é levar porrada.
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