Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.
A vida me foi madrasta.
Sou filho da ditadura.
Sou folha que o vento arrasta.
Minha doença não se configura.
Nenhum exame a devassa.
Mas dói como garrote de tortura.
Senhor, preciso de cura.
Sou gay. Nada há que me faça
partir pra outra rota mais segura.
Tentei me expor na praça.
Tentei me extravasar em desmesura,
mas tudo redundou em arruaça.
Meu signo é o da desgraça.
O que fazer na noite escura?
Quero levar vida casta,
desistir de toda frescura.
Mas minha doença é tão vasta!
Ser gay é mal que perdura.
Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.
Este é o work in progress de um livro de poesia a ser publicado em breve. Os textos apresentados aqui podem não ser os mesmos da edição definitiva. Sobretudo a ordem não será a mesma. Quero reunir cerca de 400 poemas divididos em seções. Mas aqui os apresento como foram surgindo, um a um. Agradeço por qualquer comentário que quiserem postar, assim como indicações de blogs de poesia, literatura em geral, música popular, repente e rap.
terça-feira, 25 de junho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
VINAGRE 2
Azedou.
Começou como comércio de vizinhos.
Pela negociação diária
de nosso lote de compartimentos,
nossos felizes momentos,
uma cidade que avança
barriga à frente. Barriga,
não cabeça. Pão
amanheceu. Leite
talhou. Descemos as escadas
rumo ao porão: bolsa
onde nossos desejos fermentam
atiçados pelas bactérias
de aspirações mais sérias,
que beleza! O mar amanheceu
com espuma mais grossa.
O ar ficou quase irrespirável
e nós descartamos o amanhã.
E agora somos assim:
homens tentando chegar ao rés-do-chão.
Azedou.
Vizinhos se avistaram
na rede impalpável dos atos
e outros que tantos artefatos,
que beleza! Pão de Açúcar
na mesa, a eterna hipocrisia
agora na ordem do dia.
Verás que um filho teu...
Filhos, o que fiz?
Me omiti, a integridade
vendi como móvel usado
e outros fatos neguei no tapetão.
Tudo o mais ocorreu de supetão.
Já não sei onde me encontro,
mas não estou sozinho.
Os suores do atrito me banharam,
outras noções me devastaram
e agora só acredito no vasto.
Tudo o que eu vinha escondendo
escalou.
Azedou.
Começou como comércio de vizinhos.
Pela negociação diária
de nosso lote de compartimentos,
nossos felizes momentos,
uma cidade que avança
barriga à frente. Barriga,
não cabeça. Pão
amanheceu. Leite
talhou. Descemos as escadas
rumo ao porão: bolsa
onde nossos desejos fermentam
atiçados pelas bactérias
de aspirações mais sérias,
que beleza! O mar amanheceu
com espuma mais grossa.
O ar ficou quase irrespirável
e nós descartamos o amanhã.
E agora somos assim:
homens tentando chegar ao rés-do-chão.
Azedou.
Vizinhos se avistaram
na rede impalpável dos atos
e outros que tantos artefatos,
que beleza! Pão de Açúcar
na mesa, a eterna hipocrisia
agora na ordem do dia.
Verás que um filho teu...
Filhos, o que fiz?
Me omiti, a integridade
vendi como móvel usado
e outros fatos neguei no tapetão.
Tudo o mais ocorreu de supetão.
Já não sei onde me encontro,
mas não estou sozinho.
Os suores do atrito me banharam,
outras noções me devastaram
e agora só acredito no vasto.
Tudo o que eu vinha escondendo
escalou.
Azedou.
terça-feira, 18 de junho de 2013
VINAGRE 1
Vendeta veio
e levou aos vaivéns
os homens do vinagre.
O acre em sua instância máxima.
Acre, lá no Acre ou na Candelária,
numa instância libertária
que não aguenta mais o azedo.
Tudo o mais é arremedo.
Gás, respirei gás que parecia
lençol de gente arrebatando
momento a definir o onde e quando,
sem nunca se submeter.
Soberania foi a que vim:
vim de vigília, vim de visão,
de eu e tu pra sermos sujeitos
no seio da conturbação.
Vinagre, meu Deus,
como pudemos descer tão baixo
pra que o ácido fosse a única coisa
que pudesse nos justificar?
e levou aos vaivéns
os homens do vinagre.
O acre em sua instância máxima.
Acre, lá no Acre ou na Candelária,
numa instância libertária
que não aguenta mais o azedo.
Tudo o mais é arremedo.
Gás, respirei gás que parecia
lençol de gente arrebatando
momento a definir o onde e quando,
sem nunca se submeter.
Soberania foi a que vim:
vim de vigília, vim de visão,
de eu e tu pra sermos sujeitos
no seio da conturbação.
Vinagre, meu Deus,
como pudemos descer tão baixo
pra que o ácido fosse a única coisa
que pudesse nos justificar?
domingo, 16 de junho de 2013
PARTIDA
O melhor que sei
é partir. Sei o que é melhor:
partir. Quando os motores acendem
e as bases trepidam,
lembretes no banco de trás,
o uníssono de nós:
que esta mensagem não seja
a próxima. E assim
sucessivamente, que amanhã seja
assim: na poltrona
ou no heliporto ou no subsolo,
apertar o cinto, o que sinto,
o que minto, o que finjo.
Partir que ninguém me avise,
eu dono de minhas alegorias,
minhas roupas, meu desgosto, mas
haverá companheiro? Não conheço
partida em conjunto. E o mundo
pode revolver enquanto resmungo.
Outras palmas irão brotar
pra enterrar as carcaças
de tudo o que poderia ter havido
mas não houve. O silêncio
não nos ouve. Partir
é medida de higiene essencial.
Partir, partilhar, palmilhar, por exemplo
quando trepidou eu sei
que outras confabulações
me fizeram mais tênue. Na verdade,
já praticamente não existo.
Sou um ser em transição.
Alguém se imiscui
e traz alarde, e em outros lugares
se faz tarde, e tudo
o que eu inocentemente quis
era uma opção de liberdade.
Comungar. Onde ontem
cunhou seu selo, meu apelo
era de um mundo mais límpido,
com melhor divisão do tempo,
nossa ambição ascensional.
Então, que seja. Rasgo
meus papéis, livro
meus nove mil livros
pra atravessar a ponte
onde cada um de nós poderia ter dito
o tão duro, mas tão doce enigma:
se partires, rasga teu peito.
Não tenhas medo. Ao partir,
que cada um diga sua parte.
é partir. Sei o que é melhor:
partir. Quando os motores acendem
e as bases trepidam,
lembretes no banco de trás,
o uníssono de nós:
que esta mensagem não seja
a próxima. E assim
sucessivamente, que amanhã seja
assim: na poltrona
ou no heliporto ou no subsolo,
apertar o cinto, o que sinto,
o que minto, o que finjo.
Partir que ninguém me avise,
eu dono de minhas alegorias,
minhas roupas, meu desgosto, mas
haverá companheiro? Não conheço
partida em conjunto. E o mundo
pode revolver enquanto resmungo.
Outras palmas irão brotar
pra enterrar as carcaças
de tudo o que poderia ter havido
mas não houve. O silêncio
não nos ouve. Partir
é medida de higiene essencial.
Partir, partilhar, palmilhar, por exemplo
quando trepidou eu sei
que outras confabulações
me fizeram mais tênue. Na verdade,
já praticamente não existo.
Sou um ser em transição.
Alguém se imiscui
e traz alarde, e em outros lugares
se faz tarde, e tudo
o que eu inocentemente quis
era uma opção de liberdade.
Comungar. Onde ontem
cunhou seu selo, meu apelo
era de um mundo mais límpido,
com melhor divisão do tempo,
nossa ambição ascensional.
Então, que seja. Rasgo
meus papéis, livro
meus nove mil livros
pra atravessar a ponte
onde cada um de nós poderia ter dito
o tão duro, mas tão doce enigma:
se partires, rasga teu peito.
Não tenhas medo. Ao partir,
que cada um diga sua parte.
terça-feira, 11 de junho de 2013
ADORAÇÃO
Senhor, por que publicar estas palavras
e gastar o papel de Tuas árvores?
Minhas preces nada valem lá no céu
e ninguém as ouve aqui, neste escarcéu.
Minha voz não compete com o órgão
das passacaglias de um tal João.
E meu sofrimento empalidece
diante do martírio de São Sebastião.
Sou frade franciscano, sou mendigo
numa roda que não para de girar.
E se algum dia eu disser — sou livre,
é porque decidi Te adorar.
e gastar o papel de Tuas árvores?
Minhas preces nada valem lá no céu
e ninguém as ouve aqui, neste escarcéu.
Minha voz não compete com o órgão
das passacaglias de um tal João.
E meu sofrimento empalidece
diante do martírio de São Sebastião.
Sou frade franciscano, sou mendigo
numa roda que não para de girar.
E se algum dia eu disser — sou livre,
é porque decidi Te adorar.
RESSURREIÇÃO DA CARNE
Acredito na ressurreição da carne,
não só da alma. Basta seguir a trilha
sem desviar a vista,
orando em gratidão por nós,
nossos pais, nossos filhos.
Todos temos de passar por esse vão.
A porta estreita, como no Sermão.
Caso contrário, despencamos no talude,
como os cegos no quadro de Brueghel.
Jesus sanguinolento nos espera
ao final de cada sacrifício.
E depois de três dias Ele ressuscita,
se ansiarmos por isso.
Não existe mais nada a ser dito.
Tudo o mais aponta para o infinito.
não só da alma. Basta seguir a trilha
sem desviar a vista,
orando em gratidão por nós,
nossos pais, nossos filhos.
Todos temos de passar por esse vão.
A porta estreita, como no Sermão.
Caso contrário, despencamos no talude,
como os cegos no quadro de Brueghel.
Jesus sanguinolento nos espera
ao final de cada sacrifício.
E depois de três dias Ele ressuscita,
se ansiarmos por isso.
Não existe mais nada a ser dito.
Tudo o mais aponta para o infinito.
domingo, 9 de junho de 2013
CRIME
(para Walter Salles Jr.)
Um crime se paga com outro crime.
A vingança é uma roda de moinho.
Quando a pá despenca num rangido,
morre o pai, morre a mãe e morre a filha.
Nunca se lava o sangue derramado.
O perdão neste mundo não existe.
És um imbecil quando suplicas,
pois ninguém por aqui te dá ouvidos.
Perdeste tua filha pra sempre,
perdeste teus dois braços, tua vista,
perdeste tua honra e teu caminho.
Mas quando um cego olha pra cima,
vê o vulto de Deus na ventania
como reminiscência de outra vida.
Um crime se paga com outro crime.
A vingança é uma roda de moinho.
Quando a pá despenca num rangido,
morre o pai, morre a mãe e morre a filha.
Nunca se lava o sangue derramado.
O perdão neste mundo não existe.
És um imbecil quando suplicas,
pois ninguém por aqui te dá ouvidos.
Perdeste tua filha pra sempre,
perdeste teus dois braços, tua vista,
perdeste tua honra e teu caminho.
Mas quando um cego olha pra cima,
vê o vulto de Deus na ventania
como reminiscência de outra vida.
O NOME DO SENHOR
O nome do Senhor pra mim é pepita.
É fonte de água fresca em local não sabido.
O nome do Senhor é três vezes bendito,
aqui, acolá e por todo o infinito.
O nome do Senhor é raio fulminante.
É força bruta que irrompe como aríete.
Sua glória não tem paralelo na Terra,
nem nas galáxias que ao longe piscam.
Do nascer do sol até seu declínio,
louvarei o Senhor que habita nos cimos.
Não sei se Ele escuta este Seu escriba,
mas eu O louvarei todo santo dia.
O Senhor preside às nações unidas
com Sua mão que dá agasalho e abrigo.
Quem há como o Senhor, que no alto vive,
mas atende às criaturas desvalidas?
Ele levanta do pó aquele mendigo
que passou por mim, sujo e fedido.
Arrastava o pé enfaixado, dizendo
frases tatibitates que não ouvi.
Ele tira da sarjeta a prostituída
e lhe dá no céu um lugar cativo.
Os pobres recebem passaporte VIP
pra se esbaldarem no festim dos ricos.
E ao poeta míope que escreve estas linhas
o Senhor acolhe, acalma e batiza.
Em minha casa viverei pacífico,
rodeado de livros, árvores e filhos.
É fonte de água fresca em local não sabido.
O nome do Senhor é três vezes bendito,
aqui, acolá e por todo o infinito.
O nome do Senhor é raio fulminante.
É força bruta que irrompe como aríete.
Sua glória não tem paralelo na Terra,
nem nas galáxias que ao longe piscam.
Do nascer do sol até seu declínio,
louvarei o Senhor que habita nos cimos.
Não sei se Ele escuta este Seu escriba,
mas eu O louvarei todo santo dia.
O Senhor preside às nações unidas
com Sua mão que dá agasalho e abrigo.
Quem há como o Senhor, que no alto vive,
mas atende às criaturas desvalidas?
Ele levanta do pó aquele mendigo
que passou por mim, sujo e fedido.
Arrastava o pé enfaixado, dizendo
frases tatibitates que não ouvi.
Ele tira da sarjeta a prostituída
e lhe dá no céu um lugar cativo.
Os pobres recebem passaporte VIP
pra se esbaldarem no festim dos ricos.
E ao poeta míope que escreve estas linhas
o Senhor acolhe, acalma e batiza.
Em minha casa viverei pacífico,
rodeado de livros, árvores e filhos.
ESTOU DOENTE
Estou doente, Senhor. Meus ossos se desfazem.
Não consigo respirar. Minha boca arde.
Acho que foi há dois dias. Aquele último trago.
Quando voltei pra casa, estava tudo acabado.
Não se sente de cara. É mal disfarçado.
Mas depois começa a doer como praga.
Volta-te, Senhor, estou aqui pra louvar-Te.
No Inferno, quem mais Te louvará?
Se me salvares, toda noite lavarei minha cama
e regarei com lágrimas meu estrado.
À vista do furor, meus olhos se turvaram.
Junto a meus inimigos fui ficando grisalho.
Aparta de mim este último cálice
e livra-me dos que obram iniquidade.
O Senhor ouviu a voz de meu lamento
e meu rogo humilde no barulhão da noite
e recebeu esta oração feita em surdina.
Ele sabe e eu sei que meus inimigos
serão confundidos, pra sempre conturbados
e num instante cobertos de ignomínia.
Não consigo respirar. Minha boca arde.
Acho que foi há dois dias. Aquele último trago.
Quando voltei pra casa, estava tudo acabado.
Não se sente de cara. É mal disfarçado.
Mas depois começa a doer como praga.
Volta-te, Senhor, estou aqui pra louvar-Te.
No Inferno, quem mais Te louvará?
Se me salvares, toda noite lavarei minha cama
e regarei com lágrimas meu estrado.
À vista do furor, meus olhos se turvaram.
Junto a meus inimigos fui ficando grisalho.
Aparta de mim este último cálice
e livra-me dos que obram iniquidade.
O Senhor ouviu a voz de meu lamento
e meu rogo humilde no barulhão da noite
e recebeu esta oração feita em surdina.
Ele sabe e eu sei que meus inimigos
serão confundidos, pra sempre conturbados
e num instante cobertos de ignomínia.
FALÊNCIAS FRAUDULENTAS
Senhor, derrama um pouco de água fresca em minha testa quente.
De manhã bem cedo me porei diante de Ti e contemplarei.
Eles andaram tramando transações em Tua ausência
e traçaram no papel o roteiro da próxima falência.
Mas eu confio em Tua misericórdia depois de feitas as contas
e, quando os ardis vierem à tona, calado Te adorarei.
Por mais que falem, não se escuta um pingo de verdade.
Lidar com eles é como esmurrar uma porta trancada.
A alma deles é um sepulcro profanado.
Mas na saída me disseram que são os donos do pedaço.
Que eles despenquem de seus pensamentos e sejam lançados
ao léu segundo a multidão de suas impiedades.
Senhor meu Pai, Tu os farás pagar até o último centavo.
Mas os que esperam em Ti, a estes abençoarás.
Os Justos podem ter sido enxovalhados hoje,
mas em Teu domínio comerão o pão do regozijo.
E os de boa vontade não temerão a chuva de meteoritos,
pois o escudo de Deus os protegerá com amor infinito.
De manhã bem cedo me porei diante de Ti e contemplarei.
Eles andaram tramando transações em Tua ausência
e traçaram no papel o roteiro da próxima falência.
Mas eu confio em Tua misericórdia depois de feitas as contas
e, quando os ardis vierem à tona, calado Te adorarei.
Por mais que falem, não se escuta um pingo de verdade.
Lidar com eles é como esmurrar uma porta trancada.
A alma deles é um sepulcro profanado.
Mas na saída me disseram que são os donos do pedaço.
Que eles despenquem de seus pensamentos e sejam lançados
ao léu segundo a multidão de suas impiedades.
Senhor meu Pai, Tu os farás pagar até o último centavo.
Mas os que esperam em Ti, a estes abençoarás.
Os Justos podem ter sido enxovalhados hoje,
mas em Teu domínio comerão o pão do regozijo.
E os de boa vontade não temerão a chuva de meteoritos,
pois o escudo de Deus os protegerá com amor infinito.
VAIDADE DOS RICOS
O Senhor me atendeu quando eu O chamei em voz baixa.
Tem piedade de mim, Senhor Pai, e ouve meu desabafo.
Filhos deste país, até quando de coração empedernido?
Até quando desfilando por aí de braços com a mentira?
Deus escolheu seu santo, que anda pelas ruas incógnito
estudando o coração de cada mulher e cada homem.
Quem puder que lute pela justiça. Deus dá e tira.
O mal praticado de dia voltará ao pecador no leito frio.
Outros perguntam: onde foram parar as benesses?
Nos prometeram mundos e fundos ao final da festa.
Contemplar a luz do rosto do Senhor é minha promessa.
E agora estarão bem abastecidos e alegres
com a abundância da sua herança em espécie.
Enquanto eu, Senhor, não farei nada e dormirei
sentindo crescer em mim uma esperança sem nexo.
Tem piedade de mim, Senhor Pai, e ouve meu desabafo.
Filhos deste país, até quando de coração empedernido?
Até quando desfilando por aí de braços com a mentira?
Deus escolheu seu santo, que anda pelas ruas incógnito
estudando o coração de cada mulher e cada homem.
Quem puder que lute pela justiça. Deus dá e tira.
O mal praticado de dia voltará ao pecador no leito frio.
Outros perguntam: onde foram parar as benesses?
Nos prometeram mundos e fundos ao final da festa.
Contemplar a luz do rosto do Senhor é minha promessa.
E agora estarão bem abastecidos e alegres
com a abundância da sua herança em espécie.
Enquanto eu, Senhor, não farei nada e dormirei
sentindo crescer em mim uma esperança sem nexo.
PERSEGUIDORES E PERSEGUIDOS
Senhor, eu sujei no pedaço. São muitos os meus inimigos.
Em toda parte se levanta contra mim um vulto hirto.
Socorro onde haverá? É mais de meia-noite no subúrbio
e no último ônibus balearam cobrador e motorista.
Muitos dizem: esquece teu Deus. Ele não existe.
Mas com um fio de voz clamei ao Senhor, e Ele me ouviu.
Do alto de um edifício Ele me mandou Seu raio infalível.
Fiquei cego e dormi como não dormia há muito tempo
e quando acordei era jovem de novo,
cheio de esperança para o dia que rebenta outra vez.
Não, não temerei o pelotão diante de mim em semicírculo.
Salva-me, Senhor Deus de Israel. Salva Teu filho aflito.
Tu tens ferido a todos os que me perseguem sem motivo
e quebraste os dentes dos pecadores com a boca na botija.
SÓ A VERDADE SALVA.
E FODA-SE A MENTIRA.
Em toda parte se levanta contra mim um vulto hirto.
Socorro onde haverá? É mais de meia-noite no subúrbio
e no último ônibus balearam cobrador e motorista.
Muitos dizem: esquece teu Deus. Ele não existe.
Mas com um fio de voz clamei ao Senhor, e Ele me ouviu.
Do alto de um edifício Ele me mandou Seu raio infalível.
Fiquei cego e dormi como não dormia há muito tempo
e quando acordei era jovem de novo,
cheio de esperança para o dia que rebenta outra vez.
Não, não temerei o pelotão diante de mim em semicírculo.
Salva-me, Senhor Deus de Israel. Salva Teu filho aflito.
Tu tens ferido a todos os que me perseguem sem motivo
e quebraste os dentes dos pecadores com a boca na botija.
SÓ A VERDADE SALVA.
E FODA-SE A MENTIRA.
GOVERNOS DESTE PAÍS
Por que razão os governos deste país se armaram em conluios?
E por que razão o povo se deu por feliz com uma lasquinha?
No comboio da alegria os reis da Terra computaram seus lucros
enquanto o povo cabisbaixo fazia de conta que não via.
Eles conspiraram contra o Senhor. E nós os seguimos.
Mas da noite para o dia estes laços podem ser rompidos
e tudo vai parecer uma piada de mau gosto
aos olhos do Senhor, que perscruta cada vão de nossas vidas.
Então, o Senhor nos falará. Sua ira
turvará para sempre o Congresso de acordos tão bem divididos.
E por que razão o Senhor fez de mim Seu escriba?
Eu mal governo as páginas deste livro.
Sou imperfeito como minha gente, e hoje tomei umas biritas.
Mas o Senhor me disse: Eu te gerei. Tu és meu filho.
Pede-me (disse o Senhor) e te darei os Estados e municípios
e a vastidão deste país onde plantarás tua justiça.
Quem com ferro fere com ferro será ferido,
e a trama mais cerrada na hora do vamos ver se espatifa.
Por isso, Excelências, entendam o que está dito.
Não resta nada a dizer. Tudo está por ser feito.
E, quando houver de ser feito, Deus estará à espreita
vigiando nosso medo e nosso amor insuficiente.
E por que razão o povo se deu por feliz com uma lasquinha?
No comboio da alegria os reis da Terra computaram seus lucros
enquanto o povo cabisbaixo fazia de conta que não via.
Eles conspiraram contra o Senhor. E nós os seguimos.
Mas da noite para o dia estes laços podem ser rompidos
e tudo vai parecer uma piada de mau gosto
aos olhos do Senhor, que perscruta cada vão de nossas vidas.
Então, o Senhor nos falará. Sua ira
turvará para sempre o Congresso de acordos tão bem divididos.
E por que razão o Senhor fez de mim Seu escriba?
Eu mal governo as páginas deste livro.
Sou imperfeito como minha gente, e hoje tomei umas biritas.
Mas o Senhor me disse: Eu te gerei. Tu és meu filho.
Pede-me (disse o Senhor) e te darei os Estados e municípios
e a vastidão deste país onde plantarás tua justiça.
Quem com ferro fere com ferro será ferido,
e a trama mais cerrada na hora do vamos ver se espatifa.
Por isso, Excelências, entendam o que está dito.
Não resta nada a dizer. Tudo está por ser feito.
E, quando houver de ser feito, Deus estará à espreita
vigiando nosso medo e nosso amor insuficiente.
VEREDICTO DE DEUS
Pobre de ti se deste ouvidos às lorotas dos Astutos
e te vendeste em troca de um punhado de lambujas
e teu passo, que era tão leve no caminho previsto,
se engasgou de repente até o tombo final sem aviso.
Não, claro que não. Pois tua vontade puseste na lei Dele,
e nesta lei encontras um chão para teus pensamentos.
Dia e noite não estarás sozinho naquela cidade cheia,
e a mão de Deus te guiará por entre todos os tormentos.
E assim os Justos não vacilam com o rugir da tempestade,
mas os Fajutos se confundirão sob o clarão do raio.
E quando aos Justos sobrar um guarda-chuva desmantelado,
meio surdos, os Fajutos serão levados na enxurrada.
Se havemos de ressurgir, há de ser decidido
naquele bloco onde o Senhor ditou Seu ritmo.
E quando menos se espera, na curva da avenida
sobre Justos e Fajutos pesará Seu veredicto.
e te vendeste em troca de um punhado de lambujas
e teu passo, que era tão leve no caminho previsto,
se engasgou de repente até o tombo final sem aviso.
Não, claro que não. Pois tua vontade puseste na lei Dele,
e nesta lei encontras um chão para teus pensamentos.
Dia e noite não estarás sozinho naquela cidade cheia,
e a mão de Deus te guiará por entre todos os tormentos.
E assim os Justos não vacilam com o rugir da tempestade,
mas os Fajutos se confundirão sob o clarão do raio.
E quando aos Justos sobrar um guarda-chuva desmantelado,
meio surdos, os Fajutos serão levados na enxurrada.
Se havemos de ressurgir, há de ser decidido
naquele bloco onde o Senhor ditou Seu ritmo.
E quando menos se espera, na curva da avenida
sobre Justos e Fajutos pesará Seu veredicto.
O AMOR NUNCA CHEGA
Nosso tempo é curto.
Nosso estoque é escasso.
Quero uma resposta.
Mas a vida é aposta.
Por exemplo, pergunto
à adolescente
o que significam
seu piercing e seu topete com gel.
Por exemplo, pergunto
à madame do lado
o que significam seus cílios
e seus saltos estrídulos.
Por exemplo, pergunto
à funcionária
por que bochechas tão rechonchudas
totalmente de graça.
O amor não leva a nada.
Os homens das cavernas sabiam.
Melhor se apaixonar por um cão.
Melhor se apaixonar por um quadro
de mil e uma cores
de Vincent van Gogh.
O amor tem essa virtude
de recomeçar.
Vamos nos sentar entre as aleias,
talvez bebendo vinho provençal.
Quatro olhos sabem de cor o que dizem.
Mas no amor me engalfinho.
É fibra que não sei acionar.
Amantes são pessoas sem lugar.
Não sei se me queres realmente
e quanto tempo dura nosso amor.
Quando será nossa vez?
Talvez amanhã, se é que me crês.
Nosso estoque é escasso.
Quero uma resposta.
Mas a vida é aposta.
Por exemplo, pergunto
à adolescente
o que significam
seu piercing e seu topete com gel.
Por exemplo, pergunto
à madame do lado
o que significam seus cílios
e seus saltos estrídulos.
Por exemplo, pergunto
à funcionária
por que bochechas tão rechonchudas
totalmente de graça.
O amor não leva a nada.
Os homens das cavernas sabiam.
Melhor se apaixonar por um cão.
Melhor se apaixonar por um quadro
de mil e uma cores
de Vincent van Gogh.
O amor tem essa virtude
de recomeçar.
Vamos nos sentar entre as aleias,
talvez bebendo vinho provençal.
Quatro olhos sabem de cor o que dizem.
Mas no amor me engalfinho.
É fibra que não sei acionar.
Amantes são pessoas sem lugar.
Não sei se me queres realmente
e quanto tempo dura nosso amor.
Quando será nossa vez?
Talvez amanhã, se é que me crês.
O AMOR CHEGA TARDE
Depois do crepúsculo,
a chama arde.
Chegou a hora
de abrir uma garrafa de vinho.
Dizem que algumas pessoas
têm ereção na hora da morte.
O amor é antídoto
pra qualquer demagogia.
É roteiro
de unânime trilha.
O coração é devasso.
Nossa vida é lapso.
O amor é eterno,
no céu ou no inferno.
Jiddu Krishnamurti
ensinou o amor universal
que vem de abrir a mente,
varrer os condicionamentos,
livrar a vontade,
dizer a verdade,
dizer que te amo
antes de qualquer noção.
Segundo Krishnamurti,
o conhecimento acontece depois.
Primeiro acontece o amor.
Nascemos tateando.
É como nas canções dos Beatles:
she loves you, yeah yeah yeah.
O amor é coisa de cambista.
Eu troco seis por meia dúzia.
Troco meu indivíduo
por tua cara risonha,
teu passado,
teu penteado.
O amor vem das cavernas de Cro-Magnon.
É servidão, grafite, bruxaria.
Um sentido onde não havia.
Aos judeus peço perdão.
Aos muçulmanos estendo minha mão.
Aos budistas faço oração.
Aos ateus digo: irmãos.
E aos cristãos digo que Cristo
pregou o amor
e, depois de três dias,
a Ressurreição.
a chama arde.
Chegou a hora
de abrir uma garrafa de vinho.
Dizem que algumas pessoas
têm ereção na hora da morte.
O amor é antídoto
pra qualquer demagogia.
É roteiro
de unânime trilha.
O coração é devasso.
Nossa vida é lapso.
O amor é eterno,
no céu ou no inferno.
Jiddu Krishnamurti
ensinou o amor universal
que vem de abrir a mente,
varrer os condicionamentos,
livrar a vontade,
dizer a verdade,
dizer que te amo
antes de qualquer noção.
Segundo Krishnamurti,
o conhecimento acontece depois.
Primeiro acontece o amor.
Nascemos tateando.
É como nas canções dos Beatles:
she loves you, yeah yeah yeah.
O amor é coisa de cambista.
Eu troco seis por meia dúzia.
Troco meu indivíduo
por tua cara risonha,
teu passado,
teu penteado.
O amor vem das cavernas de Cro-Magnon.
É servidão, grafite, bruxaria.
Um sentido onde não havia.
Aos judeus peço perdão.
Aos muçulmanos estendo minha mão.
Aos budistas faço oração.
Aos ateus digo: irmãos.
E aos cristãos digo que Cristo
pregou o amor
e, depois de três dias,
a Ressurreição.
SOU UM TIGRE
"Tyger, Tyger, burning bright
In the forests of the night;
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?"
-- William Blake
Sou um tigre orgulhoso de meus dentes,
minhas patas acolchoadas, mas ferinas.
Minhas patas são meu patrimônio.
É o que vou legar aos tigres outros.
Sou um tigre conhecedor das trilhas.
Não contesto a humana tirania.
Antes tento me desguiar pra dentro,
pra onde tenho sido antes do tempo.
Quem tentar me extinguir será extinto.
O tigre prevalece no final.
Só estou à espera de um sinal.
Quem tentar acabar verá seu fim.
As estrelas calam sobre isso.
E o tigre rosna de sobreaviso.
In the forests of the night;
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?"
-- William Blake
Sou um tigre orgulhoso de meus dentes,
minhas patas acolchoadas, mas ferinas.
Minhas patas são meu patrimônio.
É o que vou legar aos tigres outros.
Sou um tigre conhecedor das trilhas.
Não contesto a humana tirania.
Antes tento me desguiar pra dentro,
pra onde tenho sido antes do tempo.
Quem tentar me extinguir será extinto.
O tigre prevalece no final.
Só estou à espera de um sinal.
Quem tentar acabar verá seu fim.
As estrelas calam sobre isso.
E o tigre rosna de sobreaviso.
SOBRE O AMOR
(para René Lenard e Viviana Bosi)
O amor é núcleo, é noz, é nós, é norte.
É como aquelas forquilhas radiestésicas
capazes de encontrar água no deserto.
As pupilas de meu amor parecem nada
para os pobres coitados que não amam,
mas, pra mim, elas nadam em água,
numa bolsa amniótica-hipnótica
de onde eu miro o mundo lá fora,
pupilas prenhes, cheias, nítidas
como se sempre tivessem existido,
como se o amor fosse predestinação.
Teu olhar velava sobre mim, meu anjo,
antes de eu nascer, e tua boca
soprou sobre mim aquele bafo
que fulminou pra sempre o abandono.
De ti, meu amor, não me separo
como um cão não se arreda de seu dono.
A substância do amor nunca se estraga
por mais que seja luxo escasso
como a dobrada à moda do Porto,
que, segundo Fernando, não se come fria.
Amor é mendicância. Todo amante
é um cego pedindo esmola na esquina.
Hoje eu alimentei as rolinhas,
lavei minha roupa e a estendi no varal,
ouvi o quarteto de Brahms orquestrado por Schoenberg
e em toda parte eu via teu rosto,
meu amor. Ele era meu búzio,
tão pequeno mas capaz de brilhar no escuro,
porque vem do mar, que de novo
é fonte de toda água, que de novo
é fonte de todo amor. Meu bem,
se ainda precisas de mais uma jura,
juro te amar na graça ou na desgraça.
A verdade é que a verdade não cabe em poesia.
Sem ti o sentir é impossível, sem ti
a vida não tem mais sentido.
Nossos fígados conversam na sala de estar.
Um homem me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ele,
ele parecia meio arredio,
meio anguloso nas suas falas,
comia meio de lado, mas então
conheci que ele me conhecia
desde antes de qualquer noção,
e disse a ele: se quiseres,
podes me conhecer, e eu serei tua.
Néscia, neutra, inútil, núbil, nua.
Uma mulher me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ela,
estranhava seu corte de cabelo,
sua mania de não responder às perguntas,
mas ela me fez pagar caro por esse erro
porque seu olhar se injetou em minha veia.
Sou um junkie. Sou abjeto. Sou dejeto.
Que sufoco, meu Deus!
Sua imagem vejo no trem, no travesseiro.
Pulei o muro do bosque proibido
e subi por um trapo de opereta
até o balcão de minha Julieta.
Eu sei, eu sei.
Todos os poetas tentaram dizer.
Quem sou eu pra dizer alguma coisa a mais?
O amor é polvo de olhar sedoso
como queria Lautréamont, sugando
nossos corpos com dezenas de ventosas.
E aí está, justamente neste dia de festa,
na celebração do corpo esplêndido,
o corpo se esvaiu, foi flechado
como o de São Sebastião, foi sacrificado
num tabernáculo. Duas pessoas
se olham no rosto como se o rosto não existisse,
como se a raça humana fosse inventada agora,
e, pela graça de Javé ou de Jesus, dizem:
estamos juntos, e perdoai nossos pecados. Amém.
O amor é núcleo, é noz, é nós, é norte.
É como aquelas forquilhas radiestésicas
capazes de encontrar água no deserto.
As pupilas de meu amor parecem nada
para os pobres coitados que não amam,
mas, pra mim, elas nadam em água,
numa bolsa amniótica-hipnótica
de onde eu miro o mundo lá fora,
pupilas prenhes, cheias, nítidas
como se sempre tivessem existido,
como se o amor fosse predestinação.
Teu olhar velava sobre mim, meu anjo,
antes de eu nascer, e tua boca
soprou sobre mim aquele bafo
que fulminou pra sempre o abandono.
De ti, meu amor, não me separo
como um cão não se arreda de seu dono.
A substância do amor nunca se estraga
por mais que seja luxo escasso
como a dobrada à moda do Porto,
que, segundo Fernando, não se come fria.
Amor é mendicância. Todo amante
é um cego pedindo esmola na esquina.
Hoje eu alimentei as rolinhas,
lavei minha roupa e a estendi no varal,
ouvi o quarteto de Brahms orquestrado por Schoenberg
e em toda parte eu via teu rosto,
meu amor. Ele era meu búzio,
tão pequeno mas capaz de brilhar no escuro,
porque vem do mar, que de novo
é fonte de toda água, que de novo
é fonte de todo amor. Meu bem,
se ainda precisas de mais uma jura,
juro te amar na graça ou na desgraça.
A verdade é que a verdade não cabe em poesia.
Sem ti o sentir é impossível, sem ti
a vida não tem mais sentido.
Nossos fígados conversam na sala de estar.
Um homem me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ele,
ele parecia meio arredio,
meio anguloso nas suas falas,
comia meio de lado, mas então
conheci que ele me conhecia
desde antes de qualquer noção,
e disse a ele: se quiseres,
podes me conhecer, e eu serei tua.
Néscia, neutra, inútil, núbil, nua.
Uma mulher me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ela,
estranhava seu corte de cabelo,
sua mania de não responder às perguntas,
mas ela me fez pagar caro por esse erro
porque seu olhar se injetou em minha veia.
Sou um junkie. Sou abjeto. Sou dejeto.
Que sufoco, meu Deus!
Sua imagem vejo no trem, no travesseiro.
Pulei o muro do bosque proibido
e subi por um trapo de opereta
até o balcão de minha Julieta.
Eu sei, eu sei.
Todos os poetas tentaram dizer.
Quem sou eu pra dizer alguma coisa a mais?
O amor é polvo de olhar sedoso
como queria Lautréamont, sugando
nossos corpos com dezenas de ventosas.
E aí está, justamente neste dia de festa,
na celebração do corpo esplêndido,
o corpo se esvaiu, foi flechado
como o de São Sebastião, foi sacrificado
num tabernáculo. Duas pessoas
se olham no rosto como se o rosto não existisse,
como se a raça humana fosse inventada agora,
e, pela graça de Javé ou de Jesus, dizem:
estamos juntos, e perdoai nossos pecados. Amém.
SÓ SEI QUE POUCO SEI
Só sei que pouco sei.
Todo saber é tênue.
Não é algo que se poupe
pra fazer crescer.
O saber preexiste.
É inerente ao ser.
Todos nós podemos
decifrar de onde vem.
Ele não se acumula.
Não pode ser herdado.
É indevassável.
É como uma crosta
recobrindo firme
as fibras da carne.
Todo saber é tênue.
Não é algo que se poupe
pra fazer crescer.
O saber preexiste.
É inerente ao ser.
Todos nós podemos
decifrar de onde vem.
Ele não se acumula.
Não pode ser herdado.
É indevassável.
É como uma crosta
recobrindo firme
as fibras da carne.
PORTUGAL, ENTREGA TEU DESTINO
(para Pessoa, sempre)
Portugal, entrega teu destino.
Brasil, diz teu vaticínio.
O Algarve reverbera na Bahia.
Qualquer Pessoa sabe disso.
Há comunidades num mapa.
Num passado, farpas.
Mas será?
E se o conquistador
for também o conquistado?
Os assuntos privados são de Estado.
Pessoas falam mais alto.
Temos de nos abrigar
sob Camões e Drummond
e os rappers de Grajaú
e os cantores de fado.
Pessoa, te mando um abraço
na nossa língua brasileira
cheia de malícia e esculhambação.
Portugal começou em Cape Town
e vai terminar em Mumbai.
O Brasil começou nos Andes
e vai terminar em Guadalcanal.
Aqui não existe solidão.
Estamos interconectados.
Portugal de gente simples
(mas orgulhosa e senhorial)
conseguiu criar nas Novas Índias
algo sem relação com o passado.
E Pessoa abençoou este legado.
Portugal, entrega teu destino.
Brasil, diz teu vaticínio.
O Algarve reverbera na Bahia.
Qualquer Pessoa sabe disso.
Há comunidades num mapa.
Num passado, farpas.
Mas será?
E se o conquistador
for também o conquistado?
Os assuntos privados são de Estado.
Pessoas falam mais alto.
Temos de nos abrigar
sob Camões e Drummond
e os rappers de Grajaú
e os cantores de fado.
Pessoa, te mando um abraço
na nossa língua brasileira
cheia de malícia e esculhambação.
Portugal começou em Cape Town
e vai terminar em Mumbai.
O Brasil começou nos Andes
e vai terminar em Guadalcanal.
Aqui não existe solidão.
Estamos interconectados.
Portugal de gente simples
(mas orgulhosa e senhorial)
conseguiu criar nas Novas Índias
algo sem relação com o passado.
E Pessoa abençoou este legado.
QUEM ENTRA AQUI ESTÁ EM PAZ
Quem entra aqui está em paz.
Quem entra em paz está aqui.
A paz não é algo fugaz.
É a cruz do percurso, é o xis.
Não existem duas pazes: só uma.
Caetano pensava no Haiti.
Todo o ódio, súbito, se esfuma.
E a paz vai brotar por um triz.
Eu não sei por que sou feliz.
Talvez por mania ou perfume.
Não quero o sopé, quero o cume.
Ali onde a faísca fiz.
O dizer de um poema é tão curto.
Talvez deixe só cicatriz.
O dizer de um poema é bobagem.
Só Pessoa sabe o que diz.
Quem entra em paz está aqui.
A paz não é algo fugaz.
É a cruz do percurso, é o xis.
Não existem duas pazes: só uma.
Caetano pensava no Haiti.
Todo o ódio, súbito, se esfuma.
E a paz vai brotar por um triz.
Eu não sei por que sou feliz.
Talvez por mania ou perfume.
Não quero o sopé, quero o cume.
Ali onde a faísca fiz.
O dizer de um poema é tão curto.
Talvez deixe só cicatriz.
O dizer de um poema é bobagem.
Só Pessoa sabe o que diz.
PESSOA, POR INCRÍVEL QUE PAREÇA
Pessoa, por incrível que pareça,
começou na África-Colônia.
Seu inglês era de segunda mão,
mas ganhou proporções de Babilônia.
O império se cria agora, inter-língua.
Só o mar nos separa, ou não separa.
Pobre mar, que hoje vive à míngua...
quando vai reconquistar seu lugar?
Pessoa cantou o mar e a saudade,
em sua dor tão lusobrasileira!
Querer sempre, sempre o que não foi...
Mas o mar existe agora, e cabe a nós
fazer continuar pra sempre sua espuma...
Nesta encarnação, ou em nenhuma...
começou na África-Colônia.
Seu inglês era de segunda mão,
mas ganhou proporções de Babilônia.
O império se cria agora, inter-língua.
Só o mar nos separa, ou não separa.
Pobre mar, que hoje vive à míngua...
quando vai reconquistar seu lugar?
Pessoa cantou o mar e a saudade,
em sua dor tão lusobrasileira!
Querer sempre, sempre o que não foi...
Mas o mar existe agora, e cabe a nós
fazer continuar pra sempre sua espuma...
Nesta encarnação, ou em nenhuma...
TENTANDO DIZER
Me engasgo
tentando
dizer.
O rasgo
na goela
doeu.
O raio
súbito
rachou.
O risco
no disco
espocou.
Sou homem,
sou pobre
fantoche.
Só Deus
sabe outra
resposta.
tentando
dizer.
O rasgo
na goela
doeu.
O raio
súbito
rachou.
O risco
no disco
espocou.
Sou homem,
sou pobre
fantoche.
Só Deus
sabe outra
resposta.
OS DÓLARES COUBERAM
Os dólares couberam
na minha cueca.
A pança, abastecida,
(confesso) avançava.
Abaixo, do homem que fui,
restava uma merreca.
Eles dão. Negar por quê?
A gente leva. Dinheiro
passado adiante não tem dono.
Ladrão rouba ladrão e ganha abono.
Por que não tirar do mundo cão
um ingresso para o musical
das Mil e uma noites?
São tantos os do lado de lá.
Mesmo assim, faço um rapa.
Em prol do meu clã.
Sem pensar no amanhã.
A cueca é folgada.
E está recheada.
na minha cueca.
A pança, abastecida,
(confesso) avançava.
Abaixo, do homem que fui,
restava uma merreca.
Eles dão. Negar por quê?
A gente leva. Dinheiro
passado adiante não tem dono.
Ladrão rouba ladrão e ganha abono.
Por que não tirar do mundo cão
um ingresso para o musical
das Mil e uma noites?
São tantos os do lado de lá.
Mesmo assim, faço um rapa.
Em prol do meu clã.
Sem pensar no amanhã.
A cueca é folgada.
E está recheada.
NOITE E DIA
"Night and day you are the one,
only you beneath the moon and under the sun."
-- Cole Porter
Noite e dia ecoa o pedido
de alguma espécie de estribilho.
Outros cidadãos confirmam.
É uma dinâmica de vaivém.
Dia e noite investigo o abismo
e ele me investiga também.
Dia e noite digo: sou romântico.
O amor atravessa o Atlântico.
Noite e dia penso: o amor
é uma flecha suspensa.
Quem sabe o alvo? Cole.
Dia e noite ressoa
uma canção que a balsa levou.
E o céu nublado se calou.
only you beneath the moon and under the sun."
-- Cole Porter
Noite e dia ecoa o pedido
de alguma espécie de estribilho.
Outros cidadãos confirmam.
É uma dinâmica de vaivém.
Dia e noite investigo o abismo
e ele me investiga também.
Dia e noite digo: sou romântico.
O amor atravessa o Atlântico.
Noite e dia penso: o amor
é uma flecha suspensa.
Quem sabe o alvo? Cole.
Dia e noite ressoa
uma canção que a balsa levou.
E o céu nublado se calou.
NÃO FALE
Não fale: faça.
Não pense: sinta.
Na graça ou desgraça,
não finja, não minta.
Não tente: trace.
Não procure: ache.
No escuro ou no claro,
não tateie: abrace.
O que Deus quiser
vale pra todos,
homem ou mulher.
A badalada deu.
O momento é meu.
É no vai ou racha.
Não pense: sinta.
Na graça ou desgraça,
não finja, não minta.
Não tente: trace.
Não procure: ache.
No escuro ou no claro,
não tateie: abrace.
O que Deus quiser
vale pra todos,
homem ou mulher.
A badalada deu.
O momento é meu.
É no vai ou racha.
LEMBRANÇAS DE GUERRA
Lembranças de guerra grudam.
Tempos onde alguns nabos
alimentavam uma família inteira.
Tempos de espiar pela fresta
com a respiração presa.
A contagem começa
quando os relógios zeram.
Os detritos não assentaram ainda.
O céu é uma lembrança de gases,
de seres humanos tentando
se igualar aos deuses,
fazer barulho,
orquestrar a Criação
pra nunca haver um sim depois do não.
Nessa guerra perdi meus pais,
meu irmão caçula, que uma vez tocou piano,
o baú onde eu guardava brinquedos,
um cinzeiro em forma de abelha,
o dicionário de rimas,
o pulôver de quando eu tive bronquite,
minha mãe cantando "Marlbrough s'en va-t-en guerre".
Por que precisamos de guerras?
Talvez pra nos sabermos perecíveis.
Nosso destino não está aqui.
Antes temos de nos confrontar,
medir com esquadro nossa coragem,
investigar a vida em seu avesso,
tão tênue ainda, se houve alguma vez.
Tempos onde alguns nabos
alimentavam uma família inteira.
Tempos de espiar pela fresta
com a respiração presa.
A contagem começa
quando os relógios zeram.
Os detritos não assentaram ainda.
O céu é uma lembrança de gases,
de seres humanos tentando
se igualar aos deuses,
fazer barulho,
orquestrar a Criação
pra nunca haver um sim depois do não.
Nessa guerra perdi meus pais,
meu irmão caçula, que uma vez tocou piano,
o baú onde eu guardava brinquedos,
um cinzeiro em forma de abelha,
o dicionário de rimas,
o pulôver de quando eu tive bronquite,
minha mãe cantando "Marlbrough s'en va-t-en guerre".
Por que precisamos de guerras?
Talvez pra nos sabermos perecíveis.
Nosso destino não está aqui.
Antes temos de nos confrontar,
medir com esquadro nossa coragem,
investigar a vida em seu avesso,
tão tênue ainda, se houve alguma vez.
JOANA D'ARC
Como arde um corpo na fogueira
depois de uma noite velando,
orando por uma terra sem pecado
regida pelas crianças,
com seu sentir de que tudo é válido
enquanto houver esperança?
Como derrete um corpo
escoando para o que sempre foi:
blueprint de um corpo permanente
que um dia brilhou erguendo a espada
e não teve medo do despenhadeiro
em nome de uma secreta palavra?
E pra que precisamos de um corpo
se a fogueira é mais alta
soltando faíscas que pipocam
e parecem subir até o zênite
numa jornada que ninguém decifra
e onde somos só isso: arremate?
depois de uma noite velando,
orando por uma terra sem pecado
regida pelas crianças,
com seu sentir de que tudo é válido
enquanto houver esperança?
Como derrete um corpo
escoando para o que sempre foi:
blueprint de um corpo permanente
que um dia brilhou erguendo a espada
e não teve medo do despenhadeiro
em nome de uma secreta palavra?
E pra que precisamos de um corpo
se a fogueira é mais alta
soltando faíscas que pipocam
e parecem subir até o zênite
numa jornada que ninguém decifra
e onde somos só isso: arremate?
O AMOR CHEGA CEDO
O amor é tenda alva
sob o sol do Saara.
Todo amante é tuaregue.
Quando menos se espera,
o amor ofusca,
põe a nu.
João Gilberto sabia.
O amor é sussurro.
Vocês sabem: um banquinho
à meia-luz.
Só pode ser contado
na baba dos lábios.
É segredo de Estado.
É o único pilar
de sustentação
nesse bruaá.
É feitiço de bruxo.
E as bruxas sabiam
desde a Inquisição
que o amor só depende
da justa poção.
Quantas cores
tem o olho humano?
Preto, castanho,
azul, verde, prata
e gamas de dourado.
O olhar não se confunde
em pleno cipoal.
O amor é fetal.
É destino fatal.
Todos querem Ipanema
com suas ondas livres,
seus surfistas.
Todos querem aconchego.
Quantos rios existem no mundo?
O Nilo, o Amazonas,
o Volga, o Virgínia.
Mas nenhum se compara
ao olhar transparente
de minha querida.
sob o sol do Saara.
Todo amante é tuaregue.
Quando menos se espera,
o amor ofusca,
põe a nu.
João Gilberto sabia.
O amor é sussurro.
Vocês sabem: um banquinho
à meia-luz.
Só pode ser contado
na baba dos lábios.
É segredo de Estado.
É o único pilar
de sustentação
nesse bruaá.
É feitiço de bruxo.
E as bruxas sabiam
desde a Inquisição
que o amor só depende
da justa poção.
Quantas cores
tem o olho humano?
Preto, castanho,
azul, verde, prata
e gamas de dourado.
O olhar não se confunde
em pleno cipoal.
O amor é fetal.
É destino fatal.
Todos querem Ipanema
com suas ondas livres,
seus surfistas.
Todos querem aconchego.
Quantos rios existem no mundo?
O Nilo, o Amazonas,
o Volga, o Virgínia.
Mas nenhum se compara
ao olhar transparente
de minha querida.
TITICACA
Quero subir por essa montanha.
Aqui o tempo é mais lato,
o ar é mais ralo,
a mente se acalma.
Não vejo sendas.
A bruma dissimula o pico.
Minha catedral é La Paz.
Ali começou tudo
(se é verdade que Deus
vive nas alturas).
Temos de escalar
essas penhas rudes,
degrau por degrau,
tudo corroído
pelos ventos do tempo,
pela ânsia de liberdade.
Liberdade
na dimensão de um lago
que se chama: Titicaca.
Aqui o tempo é mais lato,
o ar é mais ralo,
a mente se acalma.
Não vejo sendas.
A bruma dissimula o pico.
Minha catedral é La Paz.
Ali começou tudo
(se é verdade que Deus
vive nas alturas).
Temos de escalar
essas penhas rudes,
degrau por degrau,
tudo corroído
pelos ventos do tempo,
pela ânsia de liberdade.
Liberdade
na dimensão de um lago
que se chama: Titicaca.
EXISTE COISA MAIS INOFENSIVA?
Existe coisa mais inofensiva
do que a poesia? O Dow-Jones
deste dia parece em queda livre.
A poesia é impotente contra isso.
Existe coisa mais idiota
do que a poesia firme em sua rota?
Todos começam balbuciando,
sem saber como, onde e quando.
A poesia é tão somente ritual.
Uma rima na reta ascensional.
Um suspiro no espaço sideral.
Ela é ânsia, catacumba, segredo.
Tudo se iguala no cômputo final.
E ela não morde... não tenham medo.
do que a poesia? O Dow-Jones
deste dia parece em queda livre.
A poesia é impotente contra isso.
Existe coisa mais idiota
do que a poesia firme em sua rota?
Todos começam balbuciando,
sem saber como, onde e quando.
A poesia é tão somente ritual.
Uma rima na reta ascensional.
Um suspiro no espaço sideral.
Ela é ânsia, catacumba, segredo.
Tudo se iguala no cômputo final.
E ela não morde... não tenham medo.
ESCREVER DEPENDE DE...
Escrever depende de
deixar a mão um pouco frouxa,
deixar a voz um pouco rouca,
a mente um pouco louca.
De nada vale escrever senão
na tentativa de outro dizer.
A realidade é nosso ancoradouro,
mas ainda há ouro a se entrever.
Escrever não depende de rima.
Música, sim, é origem.
Todo barco range e guincha. Todo
poema procura uma frincha.
Paul (aquele) queria um verso ímpar,
vago, solúvel, leve, limpo.
Um verso honesto e intransferível.
Eu procuro ser breve. O tempo urge.
O poema nos surpreende, abrupto.
Somos reféns de um minuto.
Mas (ai de nós)
será que estamos à altura?
deixar a mão um pouco frouxa,
deixar a voz um pouco rouca,
a mente um pouco louca.
De nada vale escrever senão
na tentativa de outro dizer.
A realidade é nosso ancoradouro,
mas ainda há ouro a se entrever.
Escrever não depende de rima.
Música, sim, é origem.
Todo barco range e guincha. Todo
poema procura uma frincha.
Paul (aquele) queria um verso ímpar,
vago, solúvel, leve, limpo.
Um verso honesto e intransferível.
Eu procuro ser breve. O tempo urge.
O poema nos surpreende, abrupto.
Somos reféns de um minuto.
Mas (ai de nós)
será que estamos à altura?
ELA AINDA ESTÁ SAMBANDO
(para Chico Buarque de Hollanda)
A quarta-feira acabou
faz muitos carnavais.
A purpurina derreteu.
Que pena, foi demais.
Mas quem é essa louca
desafiando a vida?
O peito dela arfa
em plena avenida.
Quarta-feira foi ontem,
quando nos calamos.
Quinta é amanhã,
onde desatinamos.
Meu Deus, ela são pernas
sobre saltos altos
no compasso vibrando.
Ela é sorriso,
não qualquer sorriso,
antes alvorada
ou água espraiada
entre queixo e nariz.
O biquíni é curto.
Os braços se avolumam.
Ela veio render
graças por último.
Ela veio apagar
qualquer outra rixa.
Veio renovar
nossa ideia fixa.
A quarta-feira acabou
faz muitos carnavais.
A purpurina derreteu.
Que pena, foi demais.
Mas quem é essa louca
desafiando a vida?
O peito dela arfa
em plena avenida.
Quarta-feira foi ontem,
quando nos calamos.
Quinta é amanhã,
onde desatinamos.
Meu Deus, ela são pernas
sobre saltos altos
no compasso vibrando.
Ela é sorriso,
não qualquer sorriso,
antes alvorada
ou água espraiada
entre queixo e nariz.
O biquíni é curto.
Os braços se avolumam.
Ela veio render
graças por último.
Ela veio apagar
qualquer outra rixa.
Veio renovar
nossa ideia fixa.
DO POUCO FAÇA MUITO
Do pouco faça muito.
Do muito faça mais.
Todos temos uma chance
se ouvirmos os sinais.
Do joio faça trigo.
Do trigo faça pão.
O pão é nosso amigo,
se não dissermos não.
O amor só multiplica
o que passa e o que fica.
É o xis da questão.
O amor abarca tudo
e isso me deixa mudo,
pronto para a ação.
Do muito faça mais.
Todos temos uma chance
se ouvirmos os sinais.
Do joio faça trigo.
Do trigo faça pão.
O pão é nosso amigo,
se não dissermos não.
O amor só multiplica
o que passa e o que fica.
É o xis da questão.
O amor abarca tudo
e isso me deixa mudo,
pronto para a ação.
DENTRO E FORA
A menina tem greta.
O menino, apêndice.
Sem menina não há reprodução.
Sem menino não tem oposição.
Sem mulher não tem encantamento.
Qualquer homem vai reconhecer.
Sem homem não há enfrentamento.
Sem mulher não há resolução.
Homem e mulher não têm suporte.
São parasitas da Criação.
Apêndices de outra dimensão.
A menina vai tragar o resto
pra não sermos sós nesta floresta.
É uma "marcação homem a mulher".
O menino, apêndice.
Sem menina não há reprodução.
Sem menino não tem oposição.
Sem mulher não tem encantamento.
Qualquer homem vai reconhecer.
Sem homem não há enfrentamento.
Sem mulher não há resolução.
Homem e mulher não têm suporte.
São parasitas da Criação.
Apêndices de outra dimensão.
A menina vai tragar o resto
pra não sermos sós nesta floresta.
É uma "marcação homem a mulher".
COMUNICAR
Comunicar é em parte conteúdo,
mas a forma faz a diferença.
Quem tem um pouco quer ter tudo,
mas a distância pode ser imensa.
A forma nos conforma num escudo
que com sorte talvez nos convença.
Mas só com muitos anos de estudo
se distingue a crença da descrença.
A verdade é algo artesanal,
produto de um processo intestinal.
E a forma, obediente, corre atrás.
Deus criou o mundo e deu-lhe forma,
mas não impôs esta ou outra norma.
E o conteúdo depende de quem faz.
mas a forma faz a diferença.
Quem tem um pouco quer ter tudo,
mas a distância pode ser imensa.
A forma nos conforma num escudo
que com sorte talvez nos convença.
Mas só com muitos anos de estudo
se distingue a crença da descrença.
A verdade é algo artesanal,
produto de um processo intestinal.
E a forma, obediente, corre atrás.
Deus criou o mundo e deu-lhe forma,
mas não impôs esta ou outra norma.
E o conteúdo depende de quem faz.
CHICO DESATINOU
(para Chico Buarque de Hollanda)
Chico desatinou
com seu cancioneiro
escavando a memória.
Nossos sambas e amores.
Nossas valsas, temores.
Chico sambou.
Foi beleza ver.
Veio com chapéu branco
e uma ginga de malandro
que ninguém esqueceu.
Por que falam de militares,
empresários, beldades?
Chico sabia de antemão.
A banda vai passar,
esquentando o chão.
A banda vai passar
polindo as pratas,
renovando as juras
que fizemos nos tempos
da ditadura.
Chico vai passar.
Vai sondar desejos,
confissões,
e o que não se admite
ou o que mais se oculte.
Isso é reportagem.
É invasão de
domicílio. Chico sabia
que ânsia se esconde
no coração ambíguo.
Chico conhecia
sobretudo a mulher.
Pode ser Bárbara
ou Carolina,
talvez Iracema,
aquela que falou comigo
no orelhão,
ou outra de lenda,
ou outra bem física,
ou uma ex.
Chico é guru.
Não se enganem, não.
Em sua ribalta
ele soca o bumbo,
arfando muito.
Ele orquestra o abrupto,
no samba oculto.
O dia raiou
e o sol revelou
o que Chico tramou.
Chico desatinou
com seu cancioneiro
escavando a memória.
Nossos sambas e amores.
Nossas valsas, temores.
Chico sambou.
Foi beleza ver.
Veio com chapéu branco
e uma ginga de malandro
que ninguém esqueceu.
Por que falam de militares,
empresários, beldades?
Chico sabia de antemão.
A banda vai passar,
esquentando o chão.
A banda vai passar
polindo as pratas,
renovando as juras
que fizemos nos tempos
da ditadura.
Chico vai passar.
Vai sondar desejos,
confissões,
e o que não se admite
ou o que mais se oculte.
Isso é reportagem.
É invasão de
domicílio. Chico sabia
que ânsia se esconde
no coração ambíguo.
Chico conhecia
sobretudo a mulher.
Pode ser Bárbara
ou Carolina,
talvez Iracema,
aquela que falou comigo
no orelhão,
ou outra de lenda,
ou outra bem física,
ou uma ex.
Chico é guru.
Não se enganem, não.
Em sua ribalta
ele soca o bumbo,
arfando muito.
Ele orquestra o abrupto,
no samba oculto.
O dia raiou
e o sol revelou
o que Chico tramou.
CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA
(segundo Arthur Rimbaud)
Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.
Eu disse: deixa disso,
que ninguém te veja.
E sem a promessa
de alegria plena.
Nada pode deter
este augusto reduto.
Tanto já esperei
que nunca me esqueço:
temores e dores
ao céu ascenderam.
E a sede malsã
turva minhas veias.
Por isso a planície,
entregue ao olvido,
engrandecida de flores,
de incenso, de joio,
sob o ataque abrupto
de mil moscas sujas.
Ah, que tanta viuvez
de alma tão pobre
que só tem a imagem
de Nossa Senhora?
Alguém reza aí
pela Virgem Maria?
Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.
Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.
Eu disse: deixa disso,
que ninguém te veja.
E sem a promessa
de alegria plena.
Nada pode deter
este augusto reduto.
Tanto já esperei
que nunca me esqueço:
temores e dores
ao céu ascenderam.
E a sede malsã
turva minhas veias.
Por isso a planície,
entregue ao olvido,
engrandecida de flores,
de incenso, de joio,
sob o ataque abrupto
de mil moscas sujas.
Ah, que tanta viuvez
de alma tão pobre
que só tem a imagem
de Nossa Senhora?
Alguém reza aí
pela Virgem Maria?
Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.
DE NOVO MAPEAR
(para Arthur Rimbaud)
Quem é capaz
de de novo mapear?
Dizer o amor
preto no branco, e já?
Pouca gente sabe
a hora e o lugar.
As juras que fizemos
ficaram pra trás.
O silêncio é nu.
No aperto, somos um.
O que os lábios dizem
logo se contradiz.
O gesto que fizemos
vira cicatriz.
Será Arthur capaz
de aqui desnudar?
Precisamos de
mais nítidas palavras.
Roupas mais simples,
caras mais limpas.
Zerar os registros,
cultivar o enxergar.
Vidência é algo
pra se conquistar.
Vidência dos olhos,
das mãos e dos pés.
Cada parte do corpo
vê o que puder.
Por trás da renda
das cortinas havia
visões que não vi.
Mas Arthur sabia.
Arthur se entregou
por onde passou.
Sim, devemos tentar
de novo mapear.
O eu é o outro.
O outro sabe mais.
Mas quem é capaz
de aqui recomeçar?
Quem é capaz
de de novo mapear?
Dizer o amor
preto no branco, e já?
Pouca gente sabe
a hora e o lugar.
As juras que fizemos
ficaram pra trás.
O silêncio é nu.
No aperto, somos um.
O que os lábios dizem
logo se contradiz.
O gesto que fizemos
vira cicatriz.
Será Arthur capaz
de aqui desnudar?
Precisamos de
mais nítidas palavras.
Roupas mais simples,
caras mais limpas.
Zerar os registros,
cultivar o enxergar.
Vidência é algo
pra se conquistar.
Vidência dos olhos,
das mãos e dos pés.
Cada parte do corpo
vê o que puder.
Por trás da renda
das cortinas havia
visões que não vi.
Mas Arthur sabia.
Arthur se entregou
por onde passou.
Sim, devemos tentar
de novo mapear.
O eu é o outro.
O outro sabe mais.
Mas quem é capaz
de aqui recomeçar?
AS DÚVIDAS SÃO MAIORES DO QUE AS DÍVIDAS
As dúvidas são maiores do que as dívidas.
As mentes são menores do que as panças.
A pergunta é maior do que a resposta.
O amor não responde às esperanças.
A cobiça vale mais do que o saber.
É um ardor que abarca todo o ser.
A mente busca este ou outro contexto
pra dizer nossa busca e nosso eixo.
A mente duvida quando em dívida.
Estamos em falta com nosso destino
e nossa solidão sem preaviso.
Na jaula nos miram os macacos.
Temos agora de reunir os cacos
pra pagar as dúvidas - e as dívidas.
As mentes são menores do que as panças.
A pergunta é maior do que a resposta.
O amor não responde às esperanças.
A cobiça vale mais do que o saber.
É um ardor que abarca todo o ser.
A mente busca este ou outro contexto
pra dizer nossa busca e nosso eixo.
A mente duvida quando em dívida.
Estamos em falta com nosso destino
e nossa solidão sem preaviso.
Na jaula nos miram os macacos.
Temos agora de reunir os cacos
pra pagar as dúvidas - e as dívidas.
AINDA ME LEMBRO
Ainda me lembro do jovem Caetano
com sua juba inocente, mirando.
Em cada céu ele enxergava
uma lua oval da Esso.
Caetano segurava um penico
na Tropicália em chamas.
Caetano anunciava o perigo
pela voz avançando.
É órfão quem não tem Caetano.
Wisnik já antevia:
é nosso pai, nosso guia.
De uma juba preguiçosa somos
leõezinhos farejando como
Caetaninhos amanhã.
com sua juba inocente, mirando.
Em cada céu ele enxergava
uma lua oval da Esso.
Caetano segurava um penico
na Tropicália em chamas.
Caetano anunciava o perigo
pela voz avançando.
É órfão quem não tem Caetano.
Wisnik já antevia:
é nosso pai, nosso guia.
De uma juba preguiçosa somos
leõezinhos farejando como
Caetaninhos amanhã.
POEMAS A SEREM ESCRITOS
Existem um bilhão de crianças na China.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
Existem um bilhão de poemas a serem escritos.
Poetar é atividade mais lucrativa
do que ouro ou minério de ferro.
Tudo o que vem das entranhas,
tudo o que tem a ver com estranheza,
pois se ali entrares, nunca
sairás. Entre todos os dizeres,
o melhor é o não dito. Entre todas
as manifestações da natureza
há sempre espaço para a aberração,
o verso que berra no vazio do descampado,
a veia que pulsa no presente sem passado
e nós todos acreditando
numa continuidade que não existe.
A página em branco
abre todas as possibilidades.
O menino que fui já sabia,
mas cinquenta anos foram necessários
pra descobrir o truque
que no fundo é só disponibilidade:
fazer entrega de cada minuto
e aprender com nossos filhos.
Existe qualidade no respirar.
É difícil esvaziar os pulmões,
dizer adeus ao sabido,
começar cada poema do zero
como se alça uma pipa
no azul do céu.
Existem um bilhão de poemas a serem escritos.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
E acima de tudo (elas estão nos ouvindo),
existem um bilhão de crianças na China.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
Existem um bilhão de poemas a serem escritos.
Poetar é atividade mais lucrativa
do que ouro ou minério de ferro.
Tudo o que vem das entranhas,
tudo o que tem a ver com estranheza,
pois se ali entrares, nunca
sairás. Entre todos os dizeres,
o melhor é o não dito. Entre todas
as manifestações da natureza
há sempre espaço para a aberração,
o verso que berra no vazio do descampado,
a veia que pulsa no presente sem passado
e nós todos acreditando
numa continuidade que não existe.
A página em branco
abre todas as possibilidades.
O menino que fui já sabia,
mas cinquenta anos foram necessários
pra descobrir o truque
que no fundo é só disponibilidade:
fazer entrega de cada minuto
e aprender com nossos filhos.
Existe qualidade no respirar.
É difícil esvaziar os pulmões,
dizer adeus ao sabido,
começar cada poema do zero
como se alça uma pipa
no azul do céu.
Existem um bilhão de poemas a serem escritos.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
E acima de tudo (elas estão nos ouvindo),
existem um bilhão de crianças na China.
VIAJO LEVE
Viajo leve
com na mochila só o indispensável:
um Lied de Schubert,
um poema de Pessoa
e um malmequer prensado
nas dobras do passado.
Viajo leve
sabendo que todo ser é indefinível.
Melhor esvaziar os bolsos,
deixar as recordações pra trás,
confiar no presente,
nas pedras que se há de trilhar
até a do rio cabeceira.
Cabeceira tênue...
Amor tão breve...
Viajo por onde os pés aguentam
e mais ainda, porque meus pés
são só manifestações físicas.
A estrada preexiste
a toda poeira
e a toda poesia.
Viajo leve
porque não sei nada
e a todos os amigos interrogo
e aos inimigos desafio,
pés descalços trilhando,
buscando uma resposta
para a única pergunta que importa:
aonde vamos?
com na mochila só o indispensável:
um Lied de Schubert,
um poema de Pessoa
e um malmequer prensado
nas dobras do passado.
Viajo leve
sabendo que todo ser é indefinível.
Melhor esvaziar os bolsos,
deixar as recordações pra trás,
confiar no presente,
nas pedras que se há de trilhar
até a do rio cabeceira.
Cabeceira tênue...
Amor tão breve...
Viajo por onde os pés aguentam
e mais ainda, porque meus pés
são só manifestações físicas.
A estrada preexiste
a toda poeira
e a toda poesia.
Viajo leve
porque não sei nada
e a todos os amigos interrogo
e aos inimigos desafio,
pés descalços trilhando,
buscando uma resposta
para a única pergunta que importa:
aonde vamos?
VÊNUS RAPAZ
(para Björk)
Ele é tão belo
que chega a ser ela. A Criação
se fez inconscientemente.
Somos filhos do pó, dos cipós,
de formas de vida persistentes
onde tudo poderia ter falhado,
antes que uma faísca
rasgasse no tecido morto.
Ele é belo! Rapaz-moça
é meu norte por onde eu andar,
meu polo, meu Apolo, o balcão
onde deposito minhas perguntas,
por exemplo: existe vida
após a morte, a vida em dobro,
e de onde viemos, as dobras
intestinais fabricando sobras
por onde nunca andaremos,
e sempre a ânsia no final,
a ânsia do belo,
do cantor sobraçando a lira,
desafiando toda mentira
e um raio qualquer que nos fira.
Força, doçura...
No ringue do macho
suaram suas formas quadradas,
sua presença, seu arfar,
como se a vida fosse pose,
pois ele/ela brilha em qualquer gesto.
Se houver chuva, um sorriso ilumina.
Se houver perigo, um braço ampara.
ELE ACREDITA NO HUMOR...
ELE ACREDITA NA BELEZA...
Beleza do rosto pulsando
em tantos traços que a vida escalavrou,
mas ele/ela parece que saiu ileso,
o peito exibindo dois mamilos,
a virilha exibindo sexo explícito.
Diante disso, só podemos nos calar.
Só podemos acreditar no improvável
de todos sermos belos,
de a humanidade conciliar macho e fêmea,
conciliar natureza e empreendimento,
conciliar o futuro com a origem
no ele/ela que Björk antevia.
Ele é tão belo
que chega a ser ela. A Criação
se fez inconscientemente.
Somos filhos do pó, dos cipós,
de formas de vida persistentes
onde tudo poderia ter falhado,
antes que uma faísca
rasgasse no tecido morto.
Ele é belo! Rapaz-moça
é meu norte por onde eu andar,
meu polo, meu Apolo, o balcão
onde deposito minhas perguntas,
por exemplo: existe vida
após a morte, a vida em dobro,
e de onde viemos, as dobras
intestinais fabricando sobras
por onde nunca andaremos,
e sempre a ânsia no final,
a ânsia do belo,
do cantor sobraçando a lira,
desafiando toda mentira
e um raio qualquer que nos fira.
Força, doçura...
No ringue do macho
suaram suas formas quadradas,
sua presença, seu arfar,
como se a vida fosse pose,
pois ele/ela brilha em qualquer gesto.
Se houver chuva, um sorriso ilumina.
Se houver perigo, um braço ampara.
ELE ACREDITA NO HUMOR...
ELE ACREDITA NA BELEZA...
Beleza do rosto pulsando
em tantos traços que a vida escalavrou,
mas ele/ela parece que saiu ileso,
o peito exibindo dois mamilos,
a virilha exibindo sexo explícito.
Diante disso, só podemos nos calar.
Só podemos acreditar no improvável
de todos sermos belos,
de a humanidade conciliar macho e fêmea,
conciliar natureza e empreendimento,
conciliar o futuro com a origem
no ele/ela que Björk antevia.
GANGUE DAS LOIRAS
Loiras, aqui me têm rendido!
Sou vosso vassalo fiel
na cidade que parece carrossel
de trânsito infernal,
de tanto desperdício de lixo,
de construções sem alvará
e meninas pedindo trocado nas esquinas.
Loiras, não me esqueçam!
Quero fazer parte da quadrilha,
dançar com cada uma,
transar com cada uma
pra saber o que realmente importa:
haverá luxo nesta cidade
sem bondade e justiça?
Sou vosso vassalo fiel
na cidade que parece carrossel
de trânsito infernal,
de tanto desperdício de lixo,
de construções sem alvará
e meninas pedindo trocado nas esquinas.
Loiras, não me esqueçam!
Quero fazer parte da quadrilha,
dançar com cada uma,
transar com cada uma
pra saber o que realmente importa:
haverá luxo nesta cidade
sem bondade e justiça?
MASSACRE DE REALENGO
(para Wellington Menezes de Oliveira,
brasileiro imbecil que matou
doze crianças e feriu outras doze
numa escola de Realengo, Rio de Janeiro,
no dia 7 de abril de 2011)
Sou mulato nato.
Não pertenço à nata.
Sou mulato besta,
chegado às drogas.
Podem ser vodca, crack, coca,
ou quem sabe algo mais radical?
Fé xiita...
Artes marciais...
Super-heróis de gibi...
Tudo o que disfarce minha origem,
o cortiço onde moro,
os vizinhos fazendo futrica
e eu sempre apanhando na escola
só por ser mulato órfão,
desengonçado.
Cada mulato feito besta é um
inimigo na próxima esquina.
Vivemos num mundo de pancadaria,
de sequestros-relâmpago,
de arrastões nas melhores cercanias,
motoristas baleados por causa de 100 reais,
nós contra os mulatos em quadrilha,
sendo que mulatos somos também.
Não permitam mendigos nas ruas!
Não permitam crianças nos cruzamentos,
não permitam meninas fazendo aborto,
não permitam violência doméstica,
não permitam trabalho escravo
e sobretudo, na Cidade de Deus,
o Rio de Janeiro de São Salvador,
não permitam trapaça. A corrupção
vem de cima. Não adianta
castigar os de baixo.
E acima de tudo celebremos
o sargento Márcio Alves,
meu amigo mais íntimo,
autor do disparo
que deteve o assassino.
brasileiro imbecil que matou
doze crianças e feriu outras doze
numa escola de Realengo, Rio de Janeiro,
no dia 7 de abril de 2011)
Sou mulato nato.
Não pertenço à nata.
Sou mulato besta,
chegado às drogas.
Podem ser vodca, crack, coca,
ou quem sabe algo mais radical?
Fé xiita...
Artes marciais...
Super-heróis de gibi...
Tudo o que disfarce minha origem,
o cortiço onde moro,
os vizinhos fazendo futrica
e eu sempre apanhando na escola
só por ser mulato órfão,
desengonçado.
Cada mulato feito besta é um
inimigo na próxima esquina.
Vivemos num mundo de pancadaria,
de sequestros-relâmpago,
de arrastões nas melhores cercanias,
motoristas baleados por causa de 100 reais,
nós contra os mulatos em quadrilha,
sendo que mulatos somos também.
Não permitam mendigos nas ruas!
Não permitam crianças nos cruzamentos,
não permitam meninas fazendo aborto,
não permitam violência doméstica,
não permitam trabalho escravo
e sobretudo, na Cidade de Deus,
o Rio de Janeiro de São Salvador,
não permitam trapaça. A corrupção
vem de cima. Não adianta
castigar os de baixo.
E acima de tudo celebremos
o sargento Márcio Alves,
meu amigo mais íntimo,
autor do disparo
que deteve o assassino.
LÉON
(para Luc Besson)
Meu corpo não me pertence.
Será meu algum dia
quando eu não mais existir,
porque minha missão é faxina.
A morte é necessária.
Sou só emissário.
Em sua perfeição imaculada,
Deus nos fez nascer e morrer.
Se Deus mata, então
por que não posso matar?
Matar exige regras de balística
e a condição mental
de não fazer julgamento,
não perder tempo. Hoje
foi ontem. Vivo em preaviso,
armado até os dentes,
e meus próprios dentes são armas
com a vida à deriva,
sem nunca carregar nada
que não seja possível
descartar em segundos.
Os que querem mais
são procrastinadores.
Quem falhar tem de pagar o preço.
Quem vencer morre do mesmo jeito.
A vida é roleta.
Enquanto rolar, valerá.
E eu, ao acabar, voltarei.
Meu corpo não me pertence.
Será meu algum dia
quando eu não mais existir,
porque minha missão é faxina.
A morte é necessária.
Sou só emissário.
Em sua perfeição imaculada,
Deus nos fez nascer e morrer.
Se Deus mata, então
por que não posso matar?
Matar exige regras de balística
e a condição mental
de não fazer julgamento,
não perder tempo. Hoje
foi ontem. Vivo em preaviso,
armado até os dentes,
e meus próprios dentes são armas
com a vida à deriva,
sem nunca carregar nada
que não seja possível
descartar em segundos.
Os que querem mais
são procrastinadores.
Quem falhar tem de pagar o preço.
Quem vencer morre do mesmo jeito.
A vida é roleta.
Enquanto rolar, valerá.
E eu, ao acabar, voltarei.
CONTÁGIO
(para Steven Soderbergh)
De onde veio este vírus?
Quem inventou a mentira?
Viemos aqui pra comemorar,
pra andar a esmo,
pra exaurir o que nos foi dado em triplo?
Nunca fizemos as pazes com a natureza.
Nunca reconhecemos nossa origem.
Temos memória curta, e curta
será nossa agonia. Aquele um
tinha qualidades e defeitos,
outra traía o marido, outro
era médico respeitado,
outro era zelador de um prédio.
Todos sucumbiram.
Todos se congregam
na esteira rolante de um aeroporto,
atentos ao painel digital,
tentando decifrar a hora e o lugar.
O lugar parece
bem físico, sinalizado
no que diz respeito às entradas e saídas,
regras jurídicas do que podemos
ou não fazer, e com sorte
possuiremos um naco do planeta
onde nossas raízes se finquem.
A hora nos encara no agora.
No final deste verso já acabou.
A hora é onde sonham os poetas,
onde procuram um antídoto
em seu laboratório de milênios
porque em nosso fazer há fatalismo,
medo, empáfia, ignorância,
e nós sempre interrogando o relógio,
como se neste quadrante
fôssemos encontrar resposta.
De onde veio este vírus?
Quem inventou a mentira?
Viemos aqui pra comemorar,
pra andar a esmo,
pra exaurir o que nos foi dado em triplo?
Nunca fizemos as pazes com a natureza.
Nunca reconhecemos nossa origem.
Temos memória curta, e curta
será nossa agonia. Aquele um
tinha qualidades e defeitos,
outra traía o marido, outro
era médico respeitado,
outro era zelador de um prédio.
Todos sucumbiram.
Todos se congregam
na esteira rolante de um aeroporto,
atentos ao painel digital,
tentando decifrar a hora e o lugar.
O lugar parece
bem físico, sinalizado
no que diz respeito às entradas e saídas,
regras jurídicas do que podemos
ou não fazer, e com sorte
possuiremos um naco do planeta
onde nossas raízes se finquem.
A hora nos encara no agora.
No final deste verso já acabou.
A hora é onde sonham os poetas,
onde procuram um antídoto
em seu laboratório de milênios
porque em nosso fazer há fatalismo,
medo, empáfia, ignorância,
e nós sempre interrogando o relógio,
como se neste quadrante
fôssemos encontrar resposta.
ATÉ UMA CERTA IDADE
Até uma certa idade tentamos complicar.
Depois, vale o sinal de menos:
diminuir, sondar, reverter.
Ajoelhar-se no alpendre.
Tentar entender o que existe
além do horizonte suspenso.
A terra é fofa e cheia de minhocas.
A água ferve.
O cérebro contempla.
Uso as botas de sete léguas
pra visitar
o que antes parecia lenda.
Meu nome é um anagrama.
Minha boca está seca.
Sou só testemunha.
A terra está prenhe.
Sou talvez encontro,
respirando... nenhures.
Depois, vale o sinal de menos:
diminuir, sondar, reverter.
Ajoelhar-se no alpendre.
Tentar entender o que existe
além do horizonte suspenso.
A terra é fofa e cheia de minhocas.
A água ferve.
O cérebro contempla.
Uso as botas de sete léguas
pra visitar
o que antes parecia lenda.
Meu nome é um anagrama.
Minha boca está seca.
Sou só testemunha.
A terra está prenhe.
Sou talvez encontro,
respirando... nenhures.
NOSFERATU
(para Werner Herzog)
Não por mim faço vítimas
mesmerizadas pelo bafo
de minhas narinas,
paralisadas no aperto
de minhas unhas compridas,
sem chão abaixo,
percebendo num calafrio
que existem coisas bem piores
do que a morte. A morte acaba,
mas o horror não tem fim.
Não por mim vivo.
Sinto nojo de meu rosto, e agradeço
ao Demo por eu
inexistir no espelho.
Acho incongruente esse castelo de ogivas
e corredores que se multiplicam
e candelabros que sussurram
e assoalhos que rangem
e batentes que batem.
Onde se faz uma curva, volta-se
para o mesmo lugar. Paredes
parecem suar por suas frestas,
ratos arranham, aranhas
se emaranham, relógios
retrocedem, porque minha danação
é estar suspenso.
Em passo de caranguejo
tomei aldeias de assalto,
sempre em busca da virgem. Sim,
virgem há de ser minha vítima
pela simbiose dos contrários,
pois só num breve suspiro
pode se afogar minha eternidade.
O sangue doado na menstruação
é sangue como ingrediente da poção,
é sangue do soldado em nome da nação,
é sangue conspurcado pela corrupção,
é sangue fresco pra minha refeição.
Virgem será meu repasto
como virgem foi a mãe de Deus,
como virgens fomos ao nascer
e virgens seremos no caixão.
Benditos os que morrem,
porque ao menos se despedem
e os outros se despedem deles. Mas eu
não conheço despedida.
Meu destino é espera, agonia, destruição.
E quando me matarem
pelo baque seco da estaca
em meu peito de mármore
até o coração gelado,
será um favor que me fazem.
Não por mim faço vítimas
mesmerizadas pelo bafo
de minhas narinas,
paralisadas no aperto
de minhas unhas compridas,
sem chão abaixo,
percebendo num calafrio
que existem coisas bem piores
do que a morte. A morte acaba,
mas o horror não tem fim.
Não por mim vivo.
Sinto nojo de meu rosto, e agradeço
ao Demo por eu
inexistir no espelho.
Acho incongruente esse castelo de ogivas
e corredores que se multiplicam
e candelabros que sussurram
e assoalhos que rangem
e batentes que batem.
Onde se faz uma curva, volta-se
para o mesmo lugar. Paredes
parecem suar por suas frestas,
ratos arranham, aranhas
se emaranham, relógios
retrocedem, porque minha danação
é estar suspenso.
Em passo de caranguejo
tomei aldeias de assalto,
sempre em busca da virgem. Sim,
virgem há de ser minha vítima
pela simbiose dos contrários,
pois só num breve suspiro
pode se afogar minha eternidade.
O sangue doado na menstruação
é sangue como ingrediente da poção,
é sangue do soldado em nome da nação,
é sangue conspurcado pela corrupção,
é sangue fresco pra minha refeição.
Virgem será meu repasto
como virgem foi a mãe de Deus,
como virgens fomos ao nascer
e virgens seremos no caixão.
Benditos os que morrem,
porque ao menos se despedem
e os outros se despedem deles. Mas eu
não conheço despedida.
Meu destino é espera, agonia, destruição.
E quando me matarem
pelo baque seco da estaca
em meu peito de mármore
até o coração gelado,
será um favor que me fazem.
GOTA DE ORVALHO
"A felicidade é como a gota
de orvalho numa pétala de flor..."
-- Tom Jobim
A felicidade acena
como gota de orvalho
ou clareira na mata...
não adianta fabricar.
É um súbito facho.
Quem merece a graça?
Ela vem de cima,
como chantilly sobre a fatia.
Nos travestimos pra
nas ruas persegui-la.
O dia seguinte
é o dia seguinte.
O relógio tiquetaqueia
no apartamento vazio.
Felicidade...
A dúvida se estende
até o horizonte.
Não sabemos onde,
nem como, nem quando.
Posso afirmar negando?
Não sabemos a cifra
que aqui nos define.
Mas me cansei de ser
apocalíptico. Busco
mais simples sílaba.
Uma construção
pode ser imperfeita,
mas em outro momento
houve afinação
entre os homens gratos.
São os novos bárbaros
da presente lenda,
fazendo girar
a roda da história
em nossa memória.
de orvalho numa pétala de flor..."
-- Tom Jobim
A felicidade acena
como gota de orvalho
ou clareira na mata...
não adianta fabricar.
É um súbito facho.
Quem merece a graça?
Ela vem de cima,
como chantilly sobre a fatia.
Nos travestimos pra
nas ruas persegui-la.
O dia seguinte
é o dia seguinte.
O relógio tiquetaqueia
no apartamento vazio.
Felicidade...
A dúvida se estende
até o horizonte.
Não sabemos onde,
nem como, nem quando.
Posso afirmar negando?
Não sabemos a cifra
que aqui nos define.
Mas me cansei de ser
apocalíptico. Busco
mais simples sílaba.
Uma construção
pode ser imperfeita,
mas em outro momento
houve afinação
entre os homens gratos.
São os novos bárbaros
da presente lenda,
fazendo girar
a roda da história
em nossa memória.
SURFANDO ENTRE OS VERSOS EU DESTOO
Surfando entre os versos eu destoo
na ânsia de levantar voo
nas asas da Pan-Air.
Mas não dá.
Talvez meu negócio seja o chão.
Me arrastando no chão sinto tremores
que lembram guerra e obus.
Aqui não há luz.
Então volto a sonhar
com cúmulos e nimbos, amplidão.
Voando na amplidão sinto vertigem,
sinto vergonha de minha origem,
meus pés simples.
Talvez seja mais fácil percorrer
pedaços do sertão.
Percorrendo o sertão sinto saudades
de uma cidade onde fui feliz,
sem saber que horas são.
Então, abro asas de novo
tentando conversar com Gabriel.
A luz me cega lá no céu,
com seus corredores de algodão.
Mas quem vai me aquecer
se esfriar de repente?
No solo (sabujo),
farejo um rastro.
A vida brota
da maçaroca úmida.
A felicidade nasce
e toma impulso
a partir do chão.
Por isso os irmãos Smith
(ou Santos Dumont)
inventaram o avião.
na ânsia de levantar voo
nas asas da Pan-Air.
Mas não dá.
Talvez meu negócio seja o chão.
Me arrastando no chão sinto tremores
que lembram guerra e obus.
Aqui não há luz.
Então volto a sonhar
com cúmulos e nimbos, amplidão.
Voando na amplidão sinto vertigem,
sinto vergonha de minha origem,
meus pés simples.
Talvez seja mais fácil percorrer
pedaços do sertão.
Percorrendo o sertão sinto saudades
de uma cidade onde fui feliz,
sem saber que horas são.
Então, abro asas de novo
tentando conversar com Gabriel.
A luz me cega lá no céu,
com seus corredores de algodão.
Mas quem vai me aquecer
se esfriar de repente?
No solo (sabujo),
farejo um rastro.
A vida brota
da maçaroca úmida.
A felicidade nasce
e toma impulso
a partir do chão.
Por isso os irmãos Smith
(ou Santos Dumont)
inventaram o avião.
CÃES MIJAM NUM POSTE
Cães mijam num poste
pra marcar território.
Eu escrevo o que sei,
apostando na sorte.
Cães mijam no asfalto,
olhando pra cima.
Eu escrevo meu nome,
sem atentar na rima.
Muitas vozes soaram
no lugar de onde vim.
Aves migram velozes
pra escapar do frio.
Eu me esgueiro aqui
pra burlar o fim.
pra marcar território.
Eu escrevo o que sei,
apostando na sorte.
Cães mijam no asfalto,
olhando pra cima.
Eu escrevo meu nome,
sem atentar na rima.
Muitas vozes soaram
no lugar de onde vim.
Aves migram velozes
pra escapar do frio.
Eu me esgueiro aqui
pra burlar o fim.
VOU COMEÇAR DO NADA
Vou começar do nada,
no olho do vácuo.
Nesse agora suspenso,
amo, sinto e penso.
Vou começar da flor.
Será o amor?
Vou começar dos pés,
marchando em viés.
O que digo é segredo.
O amor vence o medo.
Poesia é ilusão.
O que digo é saudade.
Mas no caco do espelho
é a pura verdade.
no olho do vácuo.
Nesse agora suspenso,
amo, sinto e penso.
Vou começar da flor.
Será o amor?
Vou começar dos pés,
marchando em viés.
O que digo é segredo.
O amor vence o medo.
Poesia é ilusão.
O que digo é saudade.
Mas no caco do espelho
é a pura verdade.
NÃO GOSTO DE POESIA HERMÉTICA
Não gosto de poesia hermética.
Antes coisa palpável,
que seja pra enfeitar
mas feita com amor,
como colcha bordada
por minha avó.
A verdade é herética.
A alma é curta.
Estamos sós.
Na costura da colcha,
talvez aflore
um conluio após.
Minha avó bordou
o protótipo do
poema que entrego.
Sou um homem cego.
Escrevo o que nego.
Antes coisa palpável,
que seja pra enfeitar
mas feita com amor,
como colcha bordada
por minha avó.
A verdade é herética.
A alma é curta.
Estamos sós.
Na costura da colcha,
talvez aflore
um conluio após.
Minha avó bordou
o protótipo do
poema que entrego.
Sou um homem cego.
Escrevo o que nego.
NÃO VOU DIZER O RARO PELO RARO
Não vou dizer o raro pelo raro
e, mesmo que tentasse, falharia.
A ausência me visita todo dia.
Será presença aqui, quem sabe um dia.
Quero dizer a verdade e falar claro.
A ausência existiu desde o começo.
Não adianta inverter o processo.
Os xamãs e druidas sabiam.
Dizer o raro não é coisa fácil.
Exige ciência e paciência
e uma humildade exemplar.
O poeta sequestrado pelo raro
olha pra cima e inquire a ausência,
tentando transformá-la em presença.
e, mesmo que tentasse, falharia.
A ausência me visita todo dia.
Será presença aqui, quem sabe um dia.
Quero dizer a verdade e falar claro.
A ausência existiu desde o começo.
Não adianta inverter o processo.
Os xamãs e druidas sabiam.
Dizer o raro não é coisa fácil.
Exige ciência e paciência
e uma humildade exemplar.
O poeta sequestrado pelo raro
olha pra cima e inquire a ausência,
tentando transformá-la em presença.
A VERDADE
Negra é a aurora do eclipse.
Negro é o Apocalipse.
Negro é o Maelstrom de Poe,
vértice sem origem.
Meu afã é ser agora,
confundindo dentro e fora.
À noite, os cães são magros,
os gatos são pardos.
Não há sinais de verdade.
A noite é espera silente.
O dia é só consequência.
No muro enxerguei verdade.
Talvez seja mais que acaso.
Um cacto pra contrariar.
Negro é o Apocalipse.
Negro é o Maelstrom de Poe,
vértice sem origem.
Meu afã é ser agora,
confundindo dentro e fora.
À noite, os cães são magros,
os gatos são pardos.
Não há sinais de verdade.
A noite é espera silente.
O dia é só consequência.
No muro enxerguei verdade.
Talvez seja mais que acaso.
Um cacto pra contrariar.
UM CRIME ACONTECE
Um crime acontece todo dia
no noticiário da tevê.
Uma enchente, um capotamento
invadem de repente
a retina de quem vê.
Só Deus sabe de antemão
o que acontece neste chão.
Todos se calam.
O raio se abateu de supetão.
Acho que comecei uma canção.
O crime acontece num segundo,
quando estamos de costas.
Melhor se entregar agora.
Há tanta coisa faltando
até despontar a aurora.
no noticiário da tevê.
Uma enchente, um capotamento
invadem de repente
a retina de quem vê.
Só Deus sabe de antemão
o que acontece neste chão.
Todos se calam.
O raio se abateu de supetão.
Acho que comecei uma canção.
O crime acontece num segundo,
quando estamos de costas.
Melhor se entregar agora.
Há tanta coisa faltando
até despontar a aurora.
FASES DA VIDA
Fases da vida? Meu anjo,
quando acordo, só vejo
nuvens percorrendo o céu.
Depois tornam-se rotas
nos levando aos vales e às grotas.
Tudo está no princípio.
Fases da vida não existem.
Onde comecei é minha dita.
Pra que ter medo?
Talvez eu seja um homem
sem esperança. Nos deram
as chaves de todas as ruas.
Mas o que fazer com elas?
O câncer craveja nossos corpos.
A onda fez vazar o dique.
É a tentação da cobra naja,
nos condenando à liberdade onde haja.
Fases da vida...
talvez na próxima visita...
quando acordo, só vejo
nuvens percorrendo o céu.
Depois tornam-se rotas
nos levando aos vales e às grotas.
Tudo está no princípio.
Fases da vida não existem.
Onde comecei é minha dita.
Pra que ter medo?
Talvez eu seja um homem
sem esperança. Nos deram
as chaves de todas as ruas.
Mas o que fazer com elas?
O câncer craveja nossos corpos.
A onda fez vazar o dique.
É a tentação da cobra naja,
nos condenando à liberdade onde haja.
Fases da vida...
talvez na próxima visita...
MORTE DA POESIA
(para Pessoa, sempre)
Cruz na porta da tabacaria...
Eu não quero essa poesia
cultivada por escribas.
Teve momentos de prestígio,
mas logo se viu
que a história de um povo
não pode ser dita.
Quem diz o amor?
E pra onde aponta
a chama? E os anseios
que não deciframos?
No Novo Mundo,
irlandeses conquistaram prados.
Outros irlandeses
indagaram: o que é a verdade?
Fernando sabia.
Poesia não é passatempo
como um piano
na sala de estar.
Foi sancionada
pra ser ignorada.
Virou museu,
página virada.
Cruz na porta da tabacaria...
Cruz na porta da tabacaria...
Eu não quero essa poesia
cultivada por escribas.
Teve momentos de prestígio,
mas logo se viu
que a história de um povo
não pode ser dita.
Quem diz o amor?
E pra onde aponta
a chama? E os anseios
que não deciframos?
No Novo Mundo,
irlandeses conquistaram prados.
Outros irlandeses
indagaram: o que é a verdade?
Fernando sabia.
Poesia não é passatempo
como um piano
na sala de estar.
Foi sancionada
pra ser ignorada.
Virou museu,
página virada.
Cruz na porta da tabacaria...
INTERFACE
Disseram que há um nexo
entre o que digo e faço.
Mas não me reconheço
no afã deste compasso.
O que digo é mentira.
É piada o que faço.
Escalarei este verso
tentando explicar.
Aqui desapareço.
A poesia é interface.
Sou as linhas da palma.
Sou os vincos do rosto,
as estrias da carne
e o que mais se indague.
entre o que digo e faço.
Mas não me reconheço
no afã deste compasso.
O que digo é mentira.
É piada o que faço.
Escalarei este verso
tentando explicar.
Aqui desapareço.
A poesia é interface.
Sou as linhas da palma.
Sou os vincos do rosto,
as estrias da carne
e o que mais se indague.
O FIM ESTÁ NO COMEÇO
O fim está no começo.
O começo está aquém.
Tem gente que não desiste
de decifrar o porém.
A visão é baliza.
Onde caibo é sílaba.
Onde nasço é ninho.
Morri num precipício.
Não há nada de novo
a ser dito. Aposto
num dolorido bem.
Já percorri o cais.
Não falo sobre o fim,
pois nada sei de mim.
O começo está aquém.
Tem gente que não desiste
de decifrar o porém.
A visão é baliza.
Onde caibo é sílaba.
Onde nasço é ninho.
Morri num precipício.
Não há nada de novo
a ser dito. Aposto
num dolorido bem.
Já percorri o cais.
Não falo sobre o fim,
pois nada sei de mim.
MOITA
Meus cabelos trançados com os teus
formam uma moita
de algas boiando num canto da praia...
Me pergunto: eu existia antes de ti?
Existi algum dia como caminhante desavisado
costeando uma serra que não acaba nunca,
gastando sola de sapato em troca de lambujas...
Era eu realmente? Não me lembro mais.
Quando vi a penugem de teus braços
e as bochechas tão verdadeiras,
presentificando qualquer desejo
que passa a não valer mais
porque de repente vejo
que não posso mais me desgrudar
como um caramujo não existe
sem a concha que o justifica?
O mundo começou com uma divisão
que já prenunciava teu sorriso.
Meus joelhos encaixam nos teus.
Minhas mãos se entrelaçam também.
Em ti conheci um corpo estrondoso,
minha irmã de carne e osso,
garrafa solta no mar
rumando pra outro lugar.
formam uma moita
de algas boiando num canto da praia...
Me pergunto: eu existia antes de ti?
Existi algum dia como caminhante desavisado
costeando uma serra que não acaba nunca,
gastando sola de sapato em troca de lambujas...
Era eu realmente? Não me lembro mais.
Quando vi a penugem de teus braços
e as bochechas tão verdadeiras,
presentificando qualquer desejo
que passa a não valer mais
porque de repente vejo
que não posso mais me desgrudar
como um caramujo não existe
sem a concha que o justifica?
O mundo começou com uma divisão
que já prenunciava teu sorriso.
Meus joelhos encaixam nos teus.
Minhas mãos se entrelaçam também.
Em ti conheci um corpo estrondoso,
minha irmã de carne e osso,
garrafa solta no mar
rumando pra outro lugar.
TROCAS
Troco meu sonho de futuro
por uma fresta no muro.
Às seis da manhã estarei lá,
compenetrado,
apostando todas as fichas
na fímbria de uma frincha,
uma sombra de alívio.
Troco o mingau de meus sonhos
por algo mais nítido,
sem abrir mão de meu lugar na fila,
agora com tantos companheiros
cujo nome compartilho.
Amanhã ouviremos o veredicto
que nos iguala aqui.
Troco minha identidade
por outra que me dê sentido.
Meus desejos são bandeiras
de uma nação que já existia.
Eu, que me achava verdadeiro,
agora me submeto.
Troco meu flanco fremente
por outro de outra vertente.
E assim imbricamos as palavras
na goela de tantas veias
até onde nos deixar a verdade,
irmã do tempo.
por uma fresta no muro.
Às seis da manhã estarei lá,
compenetrado,
apostando todas as fichas
na fímbria de uma frincha,
uma sombra de alívio.
Troco o mingau de meus sonhos
por algo mais nítido,
sem abrir mão de meu lugar na fila,
agora com tantos companheiros
cujo nome compartilho.
Amanhã ouviremos o veredicto
que nos iguala aqui.
Troco minha identidade
por outra que me dê sentido.
Meus desejos são bandeiras
de uma nação que já existia.
Eu, que me achava verdadeiro,
agora me submeto.
Troco meu flanco fremente
por outro de outra vertente.
E assim imbricamos as palavras
na goela de tantas veias
até onde nos deixar a verdade,
irmã do tempo.
RAVEL COMPÔS UM CONCERTO
Ravel compôs um concerto
para a mão esquerda,
dona das oitavas
sem pensar duas vezes,
perolando sobre as teclas negras,
se desmanchando em trinados,
namorando os arpejos,
soberana finalmente,
ambidestra em sua destreza,
questionando o piano,
o teatro e a cidade
para além deles.
Pra entender o som é preciso
entender a dissonância. Reclusa,
com vergonha de si mesma,
confrontada sempre
até provar sua inocência,
a mão esquerda
de nódulos insuspeitos
parece crispada
em sua altivez
porque é arredia
e não tem amigos
e até se surpreende
com o que é capaz de fazer.
O drama nos afeta a todos
e as mãos refletem isso
naquele grunhido
de um amanhecer sinistro
de onde só pode emergir
a mão esquerda afirmando
melodia estridente
mas límpida, voluntariosa
como há de ser toda vontade,
porém dialética
porque conheceu a negação.
As mãos se equivalem
(no projeto de corpo
do homo sapiens sapiens)
nas tarefas simples.
Mas existem recônditos
de expressão bruta
onde é preciso
cavar embaixo
pra trazer à luz do dia
o que a mão esquerda
sabia desde o início
mas não quis revelar,
talvez por pudor
ou instinto de sobrevivência.
E assim se igualam
nossas duas patas
no marfim do teclado
de um modernista
amante do passado,
um dos que entenderam
que a música só vale
em função de um projeto horizontal
onde a mão esquerda
sabe tanto quanto a outra
no afã deste compasso.
para a mão esquerda,
dona das oitavas
sem pensar duas vezes,
perolando sobre as teclas negras,
se desmanchando em trinados,
namorando os arpejos,
soberana finalmente,
ambidestra em sua destreza,
questionando o piano,
o teatro e a cidade
para além deles.
Pra entender o som é preciso
entender a dissonância. Reclusa,
com vergonha de si mesma,
confrontada sempre
até provar sua inocência,
a mão esquerda
de nódulos insuspeitos
parece crispada
em sua altivez
porque é arredia
e não tem amigos
e até se surpreende
com o que é capaz de fazer.
O drama nos afeta a todos
e as mãos refletem isso
naquele grunhido
de um amanhecer sinistro
de onde só pode emergir
a mão esquerda afirmando
melodia estridente
mas límpida, voluntariosa
como há de ser toda vontade,
porém dialética
porque conheceu a negação.
As mãos se equivalem
(no projeto de corpo
do homo sapiens sapiens)
nas tarefas simples.
Mas existem recônditos
de expressão bruta
onde é preciso
cavar embaixo
pra trazer à luz do dia
o que a mão esquerda
sabia desde o início
mas não quis revelar,
talvez por pudor
ou instinto de sobrevivência.
E assim se igualam
nossas duas patas
no marfim do teclado
de um modernista
amante do passado,
um dos que entenderam
que a música só vale
em função de um projeto horizontal
onde a mão esquerda
sabe tanto quanto a outra
no afã deste compasso.
QUERO TER DOIS FILHOS PALHACINHOS
(para Cecília)
Quero ter dois filhos palhacinhos,
enchendo o saco pra comprar brinquedo.
Tudo o que a vida tem de bom:
acima de tudo sorvete,
que pode ser marrom de chocolate
ou vermelho de morango e framboesa
ou bege de creme de leite.
Quero ter dois filhos abelhudos,
questionando o mundo dos adultos.
Nossa ideia de abastança curta:
um apartamento com sacada,
um carro na garagem,
um mundo sem discussões,
um mundo de amigos, como no Toy story,
onde todos possam conversar
no mesmo pé, aliás descalços,
só na base da confiança.
Ter filhos é voto de fé
num futuro melhor
com menos destruição da natureza,
mais prevenção contra as enchentes,
mais reciclagem do lixo,
mais praças, mais cinemas,
mais espaço para as crianças,
os idosos e os deficientes.
De que serve esbanjar
algo que logo se esgota?
Casamento é rotina. Profissão
baseada no mesmo algoritmo,
onde olhamos pra nossos filhos
e dizemos: só eles importam.
Quando o barco afunda,
salvem primeiro as mulheres e as crianças!
Salvem a esperança
e deixem as crianças reclamarem,
deixem que os palhacinhos
mostrem que também somos palhaços,
piruetando pra continuar.
Quero ter dois filhos palhacinhos,
enchendo o saco pra comprar brinquedo.
Tudo o que a vida tem de bom:
acima de tudo sorvete,
que pode ser marrom de chocolate
ou vermelho de morango e framboesa
ou bege de creme de leite.
Quero ter dois filhos abelhudos,
questionando o mundo dos adultos.
Nossa ideia de abastança curta:
um apartamento com sacada,
um carro na garagem,
um mundo sem discussões,
um mundo de amigos, como no Toy story,
onde todos possam conversar
no mesmo pé, aliás descalços,
só na base da confiança.
Ter filhos é voto de fé
num futuro melhor
com menos destruição da natureza,
mais prevenção contra as enchentes,
mais reciclagem do lixo,
mais praças, mais cinemas,
mais espaço para as crianças,
os idosos e os deficientes.
De que serve esbanjar
algo que logo se esgota?
Casamento é rotina. Profissão
baseada no mesmo algoritmo,
onde olhamos pra nossos filhos
e dizemos: só eles importam.
Quando o barco afunda,
salvem primeiro as mulheres e as crianças!
Salvem a esperança
e deixem as crianças reclamarem,
deixem que os palhacinhos
mostrem que também somos palhaços,
piruetando pra continuar.
NIEMEYER 1
(para Geraldo de Arruda Camargo Jr.)
O passado passou.
O presente são curvas.
A construção nunca termina.
Tem poros num edifício.
A curva é o caminho mais reto.
Sonho com uma cidade vencedora,
dona do umbigo construtor,
com a ajuda de mil mãos
calcadas no concreto.
As colunas parece que saíram
de um projeto de escuta,
aprendizado, labuta.
Existem duas ogivas:
uma voltada pra baixo,
auscultando o cerrado.
Outra virada pra cima,
iluminando o céu
em nossa nunca saciada
ânsia de expandir.
Em algum lugar do universo
vislumbro a (imperfeita) simetria.
Pode ser austera como álgebra,
mas tem o fervor da fantasia.
Um congresso pode ser templo.
Uma rua pode ser enigma.
Um desejo pode ser marquise
em sinuosidade lisa.
De Niemeyer já subi rampas,
ouvi falar de outras Ramblas,
mas na entrada me fiz pequeno,
palmilhando a laje extensa.
Lá dentro me senti pleno,
respirando o ar engrandecido.
Percebi que a pedra tem luzes
de próprio brilho.
Arquiteto é aquele que imagina
um mundo vazio,
e a partir daí finca
uma pedra espelho do país.
O passado passou.
O presente são curvas.
A construção nunca termina.
Tem poros num edifício.
A curva é o caminho mais reto.
Sonho com uma cidade vencedora,
dona do umbigo construtor,
com a ajuda de mil mãos
calcadas no concreto.
As colunas parece que saíram
de um projeto de escuta,
aprendizado, labuta.
Existem duas ogivas:
uma voltada pra baixo,
auscultando o cerrado.
Outra virada pra cima,
iluminando o céu
em nossa nunca saciada
ânsia de expandir.
Em algum lugar do universo
vislumbro a (imperfeita) simetria.
Pode ser austera como álgebra,
mas tem o fervor da fantasia.
Um congresso pode ser templo.
Uma rua pode ser enigma.
Um desejo pode ser marquise
em sinuosidade lisa.
De Niemeyer já subi rampas,
ouvi falar de outras Ramblas,
mas na entrada me fiz pequeno,
palmilhando a laje extensa.
Lá dentro me senti pleno,
respirando o ar engrandecido.
Percebi que a pedra tem luzes
de próprio brilho.
Arquiteto é aquele que imagina
um mundo vazio,
e a partir daí finca
uma pedra espelho do país.
OBRIGADO, SENHOR
Obrigado, Senhor, por mais um dia
e pela luz de lambuja que ele traz.
Um dia se acrescenta a outro dia
que é passado e já ficou pra trás.
Obrigado, Senhor, por nosso pão
sobre a toalha compartilhada.
Obrigado, Senhor, por nosso chão
no bairro de ruas imbricadas.
O sol raiou apesar dos pesares
espalhando esperança pelos ares
de um mundo melhor e mais risonho.
Um tinido ecoou nos bulevares
prenunciando de eras milenares
um amanhã azul, irmão do sonho.
e pela luz de lambuja que ele traz.
Um dia se acrescenta a outro dia
que é passado e já ficou pra trás.
Obrigado, Senhor, por nosso pão
sobre a toalha compartilhada.
Obrigado, Senhor, por nosso chão
no bairro de ruas imbricadas.
O sol raiou apesar dos pesares
espalhando esperança pelos ares
de um mundo melhor e mais risonho.
Um tinido ecoou nos bulevares
prenunciando de eras milenares
um amanhã azul, irmão do sonho.
CONTRASTES
A luz traz ambições
para as pessoas acostumadas ao escuro.
A sombra faz um arrepio acordar
nas pessoas acostumadas à luz.
Desde o começo foi assim.
Nós contra a sombra em falange
e a luz fazendo reviver
o grafite no muro.
A luz não deixa em paz as feridas.
A sombra é úmida.
Enquanto estivermos aqui sonhando,
uma e outra não se comunicam.
Luz, luz de altiplano
onde pastam as lhamas
trazendo frescor de grama
para os que não enxergam.
Breu, breu das galáxias
e da caverna de Lascaux,
onde primeiro registramos
nossos búfalos.
para as pessoas acostumadas ao escuro.
A sombra faz um arrepio acordar
nas pessoas acostumadas à luz.
Desde o começo foi assim.
Nós contra a sombra em falange
e a luz fazendo reviver
o grafite no muro.
A luz não deixa em paz as feridas.
A sombra é úmida.
Enquanto estivermos aqui sonhando,
uma e outra não se comunicam.
Luz, luz de altiplano
onde pastam as lhamas
trazendo frescor de grama
para os que não enxergam.
Breu, breu das galáxias
e da caverna de Lascaux,
onde primeiro registramos
nossos búfalos.
DA HORA
Da hora é a risada da moça
de piercing, que nem parece perceber
que leveza leva.
Represado, o rio
conversa com sua espuma
e aguenta até onde der,
pois não pode deter a inteligência
de seu procurar por uma brecha.
O rosto estava indiferente,
mas quando veio o riso esclareceu
que o jorro preexistia,
que era coisa represada e só os trouxas
não viam.
E a risada chapou com seu esmalte,
os olhos se comprimiram
rindo em pés-de-galinha,
e o mundo riu, desopilando,
refletido no recesso da retina.
de piercing, que nem parece perceber
que leveza leva.
Represado, o rio
conversa com sua espuma
e aguenta até onde der,
pois não pode deter a inteligência
de seu procurar por uma brecha.
O rosto estava indiferente,
mas quando veio o riso esclareceu
que o jorro preexistia,
que era coisa represada e só os trouxas
não viam.
E a risada chapou com seu esmalte,
os olhos se comprimiram
rindo em pés-de-galinha,
e o mundo riu, desopilando,
refletido no recesso da retina.
EMBALEI O TEMPO
Embalei o tempo
vendo passar o rio na baixada
entre murmúrios e estalos
até surgir ali uma balsa
com seu piloto valente
conhecedor das cabeças d'água
e dos remoinhos onde o tempo atola
sem nunca haver volta.
Depois conversei com ele
num diálogo sem medo
por eu já ter morrido,
acariciando as cartas
naquele perigoso mano a mano,
tentando definir afinal
quem dura mais: a eternidade
encompridada em sua manifestação
aqui física, ou a outra
que só nos cabe sondar?
Sonda, percebi então
que o tempo é sonda, súmula
de uma sequência de irritações
sem importância, antena
feita pra nos medir unicamente,
pra nos testar em nosso percurso
que parece concatenado
em momentos de dor e alegria,
mas do qual, menos o tempo, emergimos
convertidos em alegoria.
vendo passar o rio na baixada
entre murmúrios e estalos
até surgir ali uma balsa
com seu piloto valente
conhecedor das cabeças d'água
e dos remoinhos onde o tempo atola
sem nunca haver volta.
Depois conversei com ele
num diálogo sem medo
por eu já ter morrido,
acariciando as cartas
naquele perigoso mano a mano,
tentando definir afinal
quem dura mais: a eternidade
encompridada em sua manifestação
aqui física, ou a outra
que só nos cabe sondar?
Sonda, percebi então
que o tempo é sonda, súmula
de uma sequência de irritações
sem importância, antena
feita pra nos medir unicamente,
pra nos testar em nosso percurso
que parece concatenado
em momentos de dor e alegria,
mas do qual, menos o tempo, emergimos
convertidos em alegoria.
ALIENÍGENAS
Estão comigo
há tanto tempo
mas ainda não sei
se vieram do espaço
de onde basta mirar
pra sermos antepassados,
se vieram das lajes
de nosso subsolo
cheio de inquietação,
se vieram das teias
que os sonhos urdem
sorrateiramente,
ou de uma dimensão
tão próxima a ponto
de ninguém suspeitá-la.
Conheço seus dedos
que afundam na carne.
Quando vocês
também estiverem aqui,
verão seus olhos metálicos
e seus braços compridos
pra abarcar a ambição
de nós humanos,
o intestino alinhado
ao coração e ao cérebro,
todos num projeto
de decifração.
Só se pode conversar
com eles numa cápsula
de austero silêncio
e último segredo.
É fácil confundir
seu idioma críptico
com a voz de seres passados
que não tiveram a mesma sorte.
Alienígenas
souberam sempre
que não somos um,
somos outro que
suspira e flutua
um pouco às cegas,
esperando sua vez
pra embarcar na próxima
revolução.
há tanto tempo
mas ainda não sei
se vieram do espaço
de onde basta mirar
pra sermos antepassados,
se vieram das lajes
de nosso subsolo
cheio de inquietação,
se vieram das teias
que os sonhos urdem
sorrateiramente,
ou de uma dimensão
tão próxima a ponto
de ninguém suspeitá-la.
Conheço seus dedos
que afundam na carne.
Quando vocês
também estiverem aqui,
verão seus olhos metálicos
e seus braços compridos
pra abarcar a ambição
de nós humanos,
o intestino alinhado
ao coração e ao cérebro,
todos num projeto
de decifração.
Só se pode conversar
com eles numa cápsula
de austero silêncio
e último segredo.
É fácil confundir
seu idioma críptico
com a voz de seres passados
que não tiveram a mesma sorte.
Alienígenas
souberam sempre
que não somos um,
somos outro que
suspira e flutua
um pouco às cegas,
esperando sua vez
pra embarcar na próxima
revolução.
ASTEROIDES
Asteroides só podem
ser compreendidos pela
engenharia reversa.
Quem nos trouxe aqui?
As rugas da pedra
sabem o mesmo atrito,
aquela comichão
que nos fez inimigos?
As rochas despencam
e lotam os vales.
Já fizemos a ronda
daqui até a última órbita.
O universo é negro
como negros são
a cavidade dos olhos
e o palato da boca.
Asteroides brutos
que exalam fumo
de tantas viagens
e ficaram mudos
de tanto silêncio
e não nos disseram:
por onde andamos,
haverá volta?
ser compreendidos pela
engenharia reversa.
Quem nos trouxe aqui?
As rugas da pedra
sabem o mesmo atrito,
aquela comichão
que nos fez inimigos?
As rochas despencam
e lotam os vales.
Já fizemos a ronda
daqui até a última órbita.
O universo é negro
como negros são
a cavidade dos olhos
e o palato da boca.
Asteroides brutos
que exalam fumo
de tantas viagens
e ficaram mudos
de tanto silêncio
e não nos disseram:
por onde andamos,
haverá volta?
ASTRONAUTAS
Nossa sina é orbitar.
Não gira o universo
ao redor de nosso umbigo ambíguo,
nem piscam estrelas por nossa causa,
nem saberemos o que ocultam
os meandros das membranas
de nosso globo ocular.
Antes orbitar ao contrário,
que ao menos não fiquemos
ao relento, nus,
nenhuns, mas como
donos de nosso destino,
inventores de um arbítrio
sem saber pra que serve.
Fizemos orbitar à nossa volta
os seres e as benesses
com mais ânsia ainda
pra excluir a volta atrás,
obliterar nossa origem,
fingir um chão em nossa
flutuante condição.
Foi uma aventura e tanto
do vômito à glória,
OK. E o tempo todo
nós é que orbitávamos
"e pur si muove", por um
efeito de ilusão ótica,
como no filme Solaris.
Só podemos nos ver
pelo reflexo, como a Lua
se vê refletida nos lagos
e nas varandas
e nas ambições humanas
felizes ou infelizes,
não faz diferença.
Astronautas, se ao menos
soubéssemos a fissão
que nos trouxe aqui,
pra que todo desejo
percebesse que é
ficção, e de acordo
se deixasse ir.
Não gira o universo
ao redor de nosso umbigo ambíguo,
nem piscam estrelas por nossa causa,
nem saberemos o que ocultam
os meandros das membranas
de nosso globo ocular.
Antes orbitar ao contrário,
que ao menos não fiquemos
ao relento, nus,
nenhuns, mas como
donos de nosso destino,
inventores de um arbítrio
sem saber pra que serve.
Fizemos orbitar à nossa volta
os seres e as benesses
com mais ânsia ainda
pra excluir a volta atrás,
obliterar nossa origem,
fingir um chão em nossa
flutuante condição.
Foi uma aventura e tanto
do vômito à glória,
OK. E o tempo todo
nós é que orbitávamos
"e pur si muove", por um
efeito de ilusão ótica,
como no filme Solaris.
Só podemos nos ver
pelo reflexo, como a Lua
se vê refletida nos lagos
e nas varandas
e nas ambições humanas
felizes ou infelizes,
não faz diferença.
Astronautas, se ao menos
soubéssemos a fissão
que nos trouxe aqui,
pra que todo desejo
percebesse que é
ficção, e de acordo
se deixasse ir.
Assinar:
Postagens (Atom)