sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

TODO ANO TEM SEU CURSO

Todo ano tem seu curso
todo curso tem seu fecho
todo fecho tem seu feixe
todo feixe tem seu eixo
todo eixo tem seu pino
todo pino tem seu aço
todo aço tem seu brilho
todo brilho tem seu braço
todo braço tem seu punho
todo punho tem seu pulso
todo pulso tem seu nervo
todo nervo tem seu verde
todo verde tem seu cheiro
todo cheiro tem seu rastro
todo rastro tem seu rumo
todo rumo tem seu risco
todo risco tem seu preço
todo preço tem seu prazo
todo prazo tem seu susto
todo susto tem seu custo
todo custo tem seu luto
todo luto tem seu lote
todo lote tem seu húmus
todo húmus tem seu sumo
todo sumo tem seu doce
todo doce tem seu Beatle
todo Beatle tem seu ritmo
todo ritmo tem seu riso
todo riso tem seu dente
todo dente tem seu corte
todo corte tem seu sangue
todo sangue tem seu suingue
todo suingue tem seu breque
todo breque tem seu lapso
todo lapso tem seu branco
todo branco tem seu livro
todo livro tem seu texto
todo texto tem seu teste
todo teste tem seu prêmio
todo prêmio tem seu lustre
todo lustre tem seu rito
todo rito tem seu passo
todo passo tem seu plano
todo plano tem seu tempo
todo tempo tem seu ano
todo ano tem seu curso...

Deus, porém, sabe muito mais do que nós...

FELIZ ANO NOVO! HAPPY NEW YEAR!

sábado, 12 de outubro de 2013

JANELAS QUEBRADAS

Pessoas dormindo nas ruas
não têm cara:
são janelas quebradas.
A skyline pode ser também
inspiração de sonatas? *

Deus não me fez parapeito.
Ô sorte! Atualizei
a solução 7 por cento
porque de paz todos precisam,
ainda que não admitam.

Patrulha a pé...
Quem acordou primeiro?
Não sei. Sou um homem
que sacrifica tudo pela arte.

A mata recuou 10 quilômetros
pra podermos discutir melhor
o que viemos fazer aqui.
Quem quer passado?

Sonata dissonante...
E sim, assim por diante
nesta cidade de ruas nuas
e janelas quebradas!

* Villa-Lobos compôs uma "New York Skyline Melody"
com notas que "imitam" o contorno de arranha-céus:
http://www.youtube.com/watch?v=odjN9-xdTd4
http://www.eca.usp.br/etam/vilalobos/resumos/CO013.pdf

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O SAMBA É MEU DOM

(para o sambista Wilson das Neves)

Samba como profissão
não é coisa pra branco.
Mas será?
Ainda lembro a euforia que senti,
mais ao menos aos dez anos de idade,
quando descobri a síncope.
O breque do bumbo! O cavaquinho
solitário chorando,
pedindo esmola ao pandeiro
luxuoso, e a cuíca
subvertendo tudo, e os tamborins
e tantãs anunciando
a deixa do cantor (ou da cantora)
pra falar sobre desilusão
(e com razão).

Samba é roda.
É essencialmente rede social.
Quando o surdo me deixou surdo,
descobri minha tribo.
É difícil definir:
um país de mulatos inzoneiros
em eterna infância,
mas a infância não é a melhor fase da vida?
Deixa de ser branco, rapaz!
Vem brincar com a gente, meu partido
é alto, temos sopros
pra levar a tristeza pra longe
e iluminar a noite
sob as copas frondosas
do terreiro da escola.

Artimanha de maluco ou de malandro,
aposta no jogo do bicho,
sobretudo romance,
requebros de homem e mulher,
pessoal ficou mal falado,
vizinhos reclamaram,
Deus acuda! Mas quem segura
o groove não se cansa nunca:
ter o samba como profissão
é coisa de preto de alma branca
ou branco de alma preta...
Tanto faz como fez...
E se entrar não sai
(já vou avisando) nem a pau
até acabar o carnaval!

AINDA BEM QUE SINTO

Ainda bem que sinto
a vida com assombro.
Poesia tem de ser religião.
Onde tudo parecia hipótese,
a engrenagem recomeça.
Temos de catar os cacos,
varrer a casa, pôr
a mesa para o almoço,
pois chegarão com fome
os que não se ajeitam
num mundo tão estreito.

Só num sussurro
o amor pode ser dito.
Só pé ante pé
se chega ao infinito.
A vida é curta
pra ser desperdiçada
nessa espécie de tráfico.
Os cachorros latiram.
As cortinas de renda
sacudiram com força
pra não esquecermos.

Ainda bem que sinto
o soprar do vento
em minhas veias,
mesmo nesse corpo
opaco. Poesia
deve ser cantochão e carrilhão
enchendo a aldeia de esperança,
e ao cair da noite
cada um deve se recolher
e celebrar alianças
e pedir perdão por seus erros.

HÁ PRAZER (APRAZER)

"There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more."
-- Lorde Byron em "Childe Harold's Pilgrimage"

 

Há prazer nos bosques sem caminhos,
nas inacessíveis fendas, nos abismos,
pois nós também fabricamos abismos,
mas são espasmos de amador. O amor
só se revela a mil no desapego.
Quando estamos vazios, estamos cheios.
Faz ainda pouco tempo arborícolas,
mais alto subíamos pra abarcar
o horizonte redondo a perder de vista.
Há prazer em ser simples, ser sozinho.

Quando o vento inflige seu chicote
e nos penteia a alma em seu galope
e dizemos adeus ao passado sabido
(pois tudo o que se sabe é morticínio),
boas-vindas damos a esse lote
que é sociedade de um homem só,
não desgarrado ou diferente, mas
em paz com a maré baixa e lúgubre
ou alta e borbulhante e estulta,
ou ainda sem haver maré nenhuma.

A natureza começa pelos pés.
O andar de caranguejo, de viés.
Andar sempre, cavalgar as cercanias,
interrogar a mata e seus atalhos
que levam ao estrondo das cascatas,
que mais se há de querer? Não as gentes
detesto, antes por minha bússola
vou seguindo a trilha solitária
perfumada por árvores antigas
que antes de eu nascer me conheciam.

Aprazer-se com ocupações banais
como aspirar o ar em cachos,
apreciar o vale recortado,
acender um fogo na clareira,
tomar mate na cuia, contar
as dobras infindáveis do riacho,
e amanhã pode não haver mais nada
que tudo já teremos inalado,
até onde Deus, em sua sabedoria,
permitiu que pudéssemos gozar.

BOLSO PROVEDOR

No meu bolso provedor guardo tanta coisa:
a agenda das reminiscências que se mascam,
a chave do portão de dobras rudes,
a caixinha de música alemã,
partituras espalhadas pelo chão,
a poeira de longas caminhadas,
eu turrão, insistente, inquisitivo,
invisível aos que não cultivam álibis,
bem temperado o cravo que Rimbaud
dedilhou no fundo do lago, *
lenço encharcado de chuva plangente,
coleira de cadelinha vira-lata,
relógios derretidos de Dalí **
e dali me esparramei, desci ravinas,
colecionei sedimentos,
varei noites em claro ruminando,
estrelas inquiri, ora direis, ***
sempre cavando no meu bolso provedor:
gilete pra lascar sem piedade,
bola de tênis que ninguém enxerga, ****
caixa de fósforos comprada na Rússia,
flores secas de um livro de meu tio,
eu entretido com meu cachimbo
vendo a lua pulsar com estridor
e desabar sobre mim arrepiado,
um retrato de avós sobre a lareira,
um terço para o sétimo dia,
garranchos que eu fazia antes mesmo
de a manhã acinzentar o pátio,
colírio pra ver tudo colorido,
trava-línguas do mano Caetano,
saudades da mulher de franja,
perfume de contrabando,
eu contente como um bugio,
cada vez mais nu e mais ladino,
sempre buscando por GPS
a encruzilhada onde os carros colidem
e onde verei meu fim. Mas antes
há tanta coisa ainda a ser palpada
nas pregas do meu bolso provedor!

* Arthur Rimbaud: "Je voyais très franchement une mosquée
à la place d'une usine, une école de tambours faite par des anges,
des calèches sur les routes du ciel, un salon au fond d'un lac".

** "La persistencia de la memoria", de Salvador Dalí (1931).
*** Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!"
**** O filme "Blow-up", de Antonioni, termina com uma cena intrigante
em que duas pessoas jogam tênis com uma bola invisível.

domingo, 22 de setembro de 2013

VOCAÇÃO DE FELICIDADE

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui."
-- Fernando Pessoa

 

Pra ser feliz,
seja infeliz. Abra
as janelas para o infortúnio.
O mal desdobra serpentinas
e tatua nossos corpos
atados à roda (segundo Dylan Thomas).
Mas a alma sobrevive.
A roda gira sem sabermos
o lote que nos coube:
se farto ou suficiente
como sopa morna,
se amargo ou fatal
quando o raio despenca no quintal.
Ao invés de horizontalizar a vida,
melhor deixar que seja vertical.

Pra ser rico,
seja pobre. Abra
a porta para os catadores de latinhas.
Jejue, seja sincero,
aposte no nhoque da sorte.
A porta é estreita, e mil sonhos
passarão pelo buraco da agulha
antes que qualquer coisa se anuncie.
É cedo. Os subúrbios
se mexem com estridência
(e os cúmulos parecem corroborar isso)
gerando mais um dia, mesmo
as florestas sendo dizimadas.
Ao invés de erguer galo dos ventos,
tente cavar embaixo.

Pra ser sábio,
seja idiota. Abra
os olhos para o que existe
em potência, magnificência:
a higiene básica
de nada saber. Higiene
deve ser o mais alto anseio.
Idiota é aquele que abarca
toda a realidade em sua arca.
Enquanto isso, na cidade
outras pessoas fincaram
raízes e, nos anos
que lhes cabem, tentarão formular
(guirlandas de uma janela a outra) *
sua vocação de felicidade.


* Arthur Rimbaud:
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher;
des guirlandes de fenêtre à fenêtre;
des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse".
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE VIVO

Ainda bem que vivo
num país de jovens, Pão de Açúcar
comandando a fermentação,
e na rebentação do dia
mais um moleque aprendeu o ritmo
e uma garotinha concebeu a resposta
que muitos velhos procuraram em vão.
Uma garotinha do Recife
gerou todo um vocabulário novo
não por inflexão escolástica,
mas a partir de seus intestinos,
seus membros franzinos,
seus olhos de íris branca,
sua aposta firme na esperança.

Nosso maior investimento
é ter filhos. E cuidar
pra que herdem um mundo melhor:
com menos corrupção e trapaça,
menos coerção e ameaça,
menos poluição e fumaça,
mas também sem cooptar:
somos filhos de nossos filhos.
Cada bebê é cartaz
a dizer impiedosamente
onde foi que erramos,
nosso medo, nossa amargura
diante de tudo o que sonhamos
nos tempos da ditadura.

Vida dura décadas dura,
mas estamos em boas mãos:
e elas não se coadunam por nós,
mas através das redes sociais:
e tudo o que parecia hoje
virou ontem. Como
colossos avultam esses seres
tão frágeis e alegres,
com a legitimidade da infância,
a clarividência da adolescência,
o tesão da juventude
que em tudo encontra amplitude
e reativação e revolta
num futuro sem volta.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE ESCREVO

Ainda bem que escrevo
neste idioma críptico que é
a língua portuguesa,
com suas conturbações barrocas
e seus subentendidos sacanas,
suas deficiências cândidas
como quem diz: puxa,
vim aqui pra dizer, mas
o que encontrei são penas de arara
junto com inflexões de brasões
e imponências de bacharel
e todo tipo de fofoca
e glossário de futebol,
conforme Nelson Rodrigues.

Quem escreve em português
nunca será traduzido.
Toda poesia é cifrada.
O enigma nos mirou fixamente
e esfaqueou nosso ventre,
nos fez entregar intestinos.
Afinal, o que é traduzir?
Talvez dormir com a mulher do vizinho,
a excitação de trair,
se imiscuir com a tribo alheia,
sendo que em princípio
todos somos alheios. Nascemos
na floresta do alheamento,
conforme Fernando Pessoa.

Que idioma mais lindo
em leito mais reles!
Os últimos serão os primeiros.
Vocês se enganam ao imaginar
que tenho algo a dizer. Quem sou?
Essa algaravia é garapa
de uma cana amassada
por muitas mãos, quase sempre
morenas, altivas
e teimosas ao extremo,
mas com senso de humor.
Sem esquecer a brisa
que nos acalma e batiza,
conforme (São) Vinicius.

terça-feira, 30 de julho de 2013

ELEFANTINHOS

(para Jean de Brunhoff, criador do elefante Babar)
 

Dos elefantinhos que me lembro,
um segurava a cauda
do outro, que atento
ao próximo, sua cauda
segurava, por mania
de contribuição,
de integrar sua tromba
no grande unison.

Do que me lembro, o elefantinho
tinha boné rajado
e ar de turista
trafegando pelos
bulevares com seus cafés
e crianças andando em bicicletas
(aquelas de rodas grandes)
no silêncio das aleias.

Elefantinho branco
no teatro de fantoches
e tudo sem afetação:
elefantes saúdam
sua humanização
sobre os paralelepípedos
de uma cidade cheia
de balões azuis.

O elefantinho desfila
com sua cria,
o chapéu com tira ao vento,
ele sempre atento
ao pináculo da Tour Eiffel
e de outras torres
das quais nossa infância
se alimentou.

Elefantinho se une
às sombras na parede
até nossa sombra
ser só invenção,
ele que já esteve nu,
já desfilou na manada,
seu barrido agora
pop-ressoando.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

TODO POETA 2

Todo poeta tenta
falar como criança, os lábios
ainda roxos do parto,
a síndrome de ter de respirar,
se acostumar com a ingestão de ar,
o ar que nos anima
e rimas nos ensina.

Falar como criança, os lábios
ainda presos em secura
porque em princípio éramos
destinados à mudez,
mas o sol nos deu vida
que parecia impossível,
tíquete só de ida.

Falar como criança, orgânica
a ligação entre os lábios
e o sentido, oclusivas
as relações entre mim e o mundo,
entre o que sou e desejo,
até o fato de o desejo
ser só circunstância verbal.

Falar como criança, grudando
nossa fala à realidade,
o desejo primal
de que a realidade se case
com nossa boca em brado
bem articulado
do ponto de vista muscular.

sábado, 13 de julho de 2013

BARROCO

Barroco é meu fervor. Lope de Vega,
Gregório, Sor Juana, Garcilaso,
Góngora, Quevedo, de Molina,
Cervantes, Calderón e outros salmistas
sempre garantiram que é possível
Jesus ressuscitar entre os gentios.
Sem adornos nem apliques,
simplesmente Jesus agora e aqui,
no alpendre ou na rota dos perdidos,
na fruta ou na filha do vizinho,
na nuvem ou no vento que se atiça,
no mar que se alevanta, na montanha
que parece desafiar o abismo,
porque Deus é senhor da antinomia
e nós somos apenas meio-fio.
Somos homens do meio (dizia
T. S. Eliot), tiros
disparados pra onde ninguém diz,
certamente porque a verdade
só pode estar longe, lá no fim.

Barroco é meu fervor. Bardo de Stratford,
bardo de tantas rixas e galhofas,
de estapafúrdios trocadilhos,
balbuciar de virgens, lamuriar
de velhos sem siso e sem coroa,
e trilhas de castelos arrepiados
em eterno nórdico frio.
De Veneza trouxemos as máscaras,
truques de palco, explosões
enchendo o proscênio de fumaça,
a sociedade encenada
como barroca corte de espetáculo
em concerto grosso.
Barroca de fato é a ascensão
da rota vertical de nossas vidas.
Só o que importa é a quintessência.
O que sobrou depois
de os rumores e fúrias terem ido.
Jesus agora e aqui, eis a pepita.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CURA GAY 2

Na UTI dos pobres inalei
gases incandescentes, e a lei
me impôs sua face mascarada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres embebi
meu nariz em vinagre, e nunca vi
tantos gays como eu na manada,
em angustiosa debandada.

Na UTI dos pobres percebi
que gays, pretos e índios há ali,
mas são gente que não vale nada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres indaguei
que culpa carrego por ser gay,
mas a rua estava interditada.
Só se fala à boca fechada.

Na UTI dos pobres me envolvi
em tumultos que nunca antes vi,
deixando a praça esfumaçada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres padeci
a diferença entre mim e ti,
nossa tez, nossa vida passada.
A vida vista como escalada.

Na UTI dos pobres faleci
sem deixar sequer um álibi,
uma extrema-unção de fachada.
Meu destino é levar porrada.

OBESO

Sou o obeso
capaz de discursar sobre obesidade.

Sou o indefeso
eterno refém de sua própria vaidade.

Sou o oleoso
que em tudo busca vã neutralidade.

Sou o teimoso
conhecedor dos vãos da teimosia.

Sou o asqueroso
que no pescoço da mãe pisa.

Sou o surpreso
perguntando: até onde vai minha barriga?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ORIGEM

Como de macacos surgiram
esses entes tão grandes e astutos
capazes de inquirir a Lua
e obrar morticínios
e varar descampados
e instituir leis, 
capazes de erigir um deus
num altar inútil
porque deuses eram eles
em sua sede de vingança
contra o deus-macaco que nunca existiu?

Como, me digam, como
dos grandes macacos vieram
macacos astrofísicos, equipados
com tecnologia e tolice,
o afã dos afazeres
secundado pelas vacinas
contra tudo o que eles não são,
dissecados em suas fibras
musculares? Mas o cérebro
é o músculo que comanda,
mesmo sendo o mais tenro.

Macacos de cérebro fremente
latejando em ambição e dor,
macacos de beleza. São donos
da Terra por merecimento.
Mas curiosamente suicidas:
como se a beleza em vinte dedos
fosse insuportável, e de vinte
milênios não aprendessem nada,
condenados a repetir,
interrogar o céu em seu fingir,
atônitos diante do porvir.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A POESIA É TERRA DE CULTIVO

A poesia é terra de cultivo.
Só por um triz me sinto vivo.


Jorge, Cecília, Murilo, Drummond,
terra-roxa onde tudo brota,


qualquer expressão previsível
e outras fora de rota.


Murilo, Drummond, Jorge, Cecília,
me deem um pouco de água fresca,


me deem um apanágio
no amanhã surpreendente.


Jorge, Drummond, Cecília, Murilo,
cheguem aqui, me ensinem


o cultivo de espécies nativas:
saudade, inquietação,


suingue, suor, assombro,
o verso que se parte em dois.


Drummond, Cecília, Murilo, Jorge,
não me deixem tão desamparado!

Sou lavrador de terra intangível
que pelo visto nunca acaba.

ANDES

Escrever é escalar montes
por onde ninguém andou.
Se andas, é por onde Andes,
onde a águia equacionou seu voo.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Escrevam, minhas queridas, onde estou:
no Andes de dizer: "eu sou".


Pode haver um Equador da dor,
mas escrever é sempre escalar.
Andina deveria ser toda gramática.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Mas só pela poesia sei que sou.

terça-feira, 25 de junho de 2013

CURA GAY 1

Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.


A vida me foi madrasta.
Sou filho da ditadura.
Sou folha que o vento arrasta.


Minha doença não se configura.
Nenhum exame a devassa.
Mas dói como garrote de tortura.


Senhor, preciso de cura.
Sou gay. Nada há que me faça
partir pra outra rota mais segura.


Tentei me expor na praça.
Tentei me extravasar em desmesura,
mas tudo redundou em arruaça.


Meu signo é o da desgraça.
O que fazer na noite escura?
Quero levar vida casta,


desistir de toda frescura.
Mas minha doença é tão vasta!
Ser gay é mal que perdura.


Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.

domingo, 23 de junho de 2013

VINAGRE 2

Azedou.

Começou como comércio de vizinhos.
Pela negociação diária
de nosso lote de compartimentos,
nossos felizes momentos,
uma cidade que avança
barriga à frente. Barriga,
não cabeça. Pão
amanheceu. Leite
talhou. Descemos as escadas
rumo ao porão: bolsa
onde nossos desejos fermentam
atiçados pelas bactérias
de aspirações mais sérias,
que beleza! O mar amanheceu
com espuma mais grossa.
O ar ficou quase irrespirável
e nós descartamos o amanhã.
E agora somos assim:
homens tentando chegar ao rés-do-chão.


Azedou.

Vizinhos se avistaram
na rede impalpável dos atos
e outros que tantos artefatos,
que beleza! Pão de Açúcar
na mesa, a eterna hipocrisia
agora na ordem do dia.
Verás que um filho teu...
Filhos, o que fiz?
Me omiti, a integridade
vendi como móvel usado
e outros fatos neguei no tapetão.
Tudo o mais ocorreu de supetão.
Já não sei onde me encontro,
mas não estou sozinho.
Os suores do atrito me banharam,
outras noções me devastaram
e agora só acredito no vasto.
Tudo o que eu vinha escondendo
escalou.


Azedou.

terça-feira, 18 de junho de 2013

VINAGRE 1

Vendeta veio
e levou aos vaivéns
os homens do vinagre.
O acre em sua instância máxima.


Acre, lá no Acre ou na Candelária,
numa instância libertária
que não aguenta mais o azedo.
Tudo o mais é arremedo.


Gás, respirei gás que parecia
lençol de gente arrebatando
momento a definir o onde e quando,
sem nunca se submeter.


Soberania foi a que vim:
vim de vigília, vim de visão,
de eu e tu pra sermos sujeitos
no seio da conturbação.


Vinagre, meu Deus,
como pudemos descer tão baixo
pra que o ácido fosse a única coisa
que pudesse nos justificar?