sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

TODO ANO TEM SEU CURSO

Todo ano tem seu curso
todo curso tem seu fecho
todo fecho tem seu feixe
todo feixe tem seu eixo
todo eixo tem seu pino
todo pino tem seu aço
todo aço tem seu brilho
todo brilho tem seu braço
todo braço tem seu punho
todo punho tem seu pulso
todo pulso tem seu nervo
todo nervo tem seu verde
todo verde tem seu cheiro
todo cheiro tem seu rastro
todo rastro tem seu rumo
todo rumo tem seu risco
todo risco tem seu preço
todo preço tem seu prazo
todo prazo tem seu susto
todo susto tem seu custo
todo custo tem seu luto
todo luto tem seu lote
todo lote tem seu húmus
todo húmus tem seu sumo
todo sumo tem seu doce
todo doce tem seu Beatle
todo Beatle tem seu ritmo
todo ritmo tem seu riso
todo riso tem seu dente
todo dente tem seu corte
todo corte tem seu sangue
todo sangue tem seu suingue
todo suingue tem seu breque
todo breque tem seu lapso
todo lapso tem seu branco
todo branco tem seu livro
todo livro tem seu texto
todo texto tem seu teste
todo teste tem seu prêmio
todo prêmio tem seu lustre
todo lustre tem seu rito
todo rito tem seu passo
todo passo tem seu plano
todo plano tem seu tempo
todo tempo tem seu ano
todo ano tem seu curso...

Deus, porém, sabe muito mais do que nós...

FELIZ ANO NOVO! HAPPY NEW YEAR!

sábado, 12 de outubro de 2013

JANELAS QUEBRADAS

Pessoas dormindo nas ruas
não têm cara:
são janelas quebradas.
A skyline pode ser também
inspiração de sonatas? *

Deus não me fez parapeito.
Ô sorte! Atualizei
a solução 7 por cento
porque de paz todos precisam,
ainda que não admitam.

Patrulha a pé...
Quem acordou primeiro?
Não sei. Sou um homem
que sacrifica tudo pela arte.

A mata recuou 10 quilômetros
pra podermos discutir melhor
o que viemos fazer aqui.
Quem quer passado?

Sonata dissonante...
E sim, assim por diante
nesta cidade de ruas nuas
e janelas quebradas!

* Villa-Lobos compôs uma "New York Skyline Melody"
com notas que "imitam" o contorno de arranha-céus:
http://www.youtube.com/watch?v=odjN9-xdTd4
http://www.eca.usp.br/etam/vilalobos/resumos/CO013.pdf

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O SAMBA É MEU DOM

(para o sambista Wilson das Neves)

Samba como profissão
não é coisa pra branco.
Mas será?
Ainda lembro a euforia que senti,
mais ao menos aos dez anos de idade,
quando descobri a síncope.
O breque do bumbo! O cavaquinho
solitário chorando,
pedindo esmola ao pandeiro
luxuoso, e a cuíca
subvertendo tudo, e os tamborins
e tantãs anunciando
a deixa do cantor (ou da cantora)
pra falar sobre desilusão
(e com razão).

Samba é roda.
É essencialmente rede social.
Quando o surdo me deixou surdo,
descobri minha tribo.
É difícil definir:
um país de mulatos inzoneiros
em eterna infância,
mas a infância não é a melhor fase da vida?
Deixa de ser branco, rapaz!
Vem brincar com a gente, meu partido
é alto, temos sopros
pra levar a tristeza pra longe
e iluminar a noite
sob as copas frondosas
do terreiro da escola.

Artimanha de maluco ou de malandro,
aposta no jogo do bicho,
sobretudo romance,
requebros de homem e mulher,
pessoal ficou mal falado,
vizinhos reclamaram,
Deus acuda! Mas quem segura
o groove não se cansa nunca:
ter o samba como profissão
é coisa de preto de alma branca
ou branco de alma preta...
Tanto faz como fez...
E se entrar não sai
(já vou avisando) nem a pau
até acabar o carnaval!

AINDA BEM QUE SINTO

Ainda bem que sinto
a vida com assombro.
Poesia tem de ser religião.
Onde tudo parecia hipótese,
a engrenagem recomeça.
Temos de catar os cacos,
varrer a casa, pôr
a mesa para o almoço,
pois chegarão com fome
os que não se ajeitam
num mundo tão estreito.

Só num sussurro
o amor pode ser dito.
Só pé ante pé
se chega ao infinito.
A vida é curta
pra ser desperdiçada
nessa espécie de tráfico.
Os cachorros latiram.
As cortinas de renda
sacudiram com força
pra não esquecermos.

Ainda bem que sinto
o soprar do vento
em minhas veias,
mesmo nesse corpo
opaco. Poesia
deve ser cantochão e carrilhão
enchendo a aldeia de esperança,
e ao cair da noite
cada um deve se recolher
e celebrar alianças
e pedir perdão por seus erros.

HÁ PRAZER (APRAZER)

"There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more."
-- Lorde Byron em "Childe Harold's Pilgrimage"

 

Há prazer nos bosques sem caminhos,
nas inacessíveis fendas, nos abismos,
pois nós também fabricamos abismos,
mas são espasmos de amador. O amor
só se revela a mil no desapego.
Quando estamos vazios, estamos cheios.
Faz ainda pouco tempo arborícolas,
mais alto subíamos pra abarcar
o horizonte redondo a perder de vista.
Há prazer em ser simples, ser sozinho.

Quando o vento inflige seu chicote
e nos penteia a alma em seu galope
e dizemos adeus ao passado sabido
(pois tudo o que se sabe é morticínio),
boas-vindas damos a esse lote
que é sociedade de um homem só,
não desgarrado ou diferente, mas
em paz com a maré baixa e lúgubre
ou alta e borbulhante e estulta,
ou ainda sem haver maré nenhuma.

A natureza começa pelos pés.
O andar de caranguejo, de viés.
Andar sempre, cavalgar as cercanias,
interrogar a mata e seus atalhos
que levam ao estrondo das cascatas,
que mais se há de querer? Não as gentes
detesto, antes por minha bússola
vou seguindo a trilha solitária
perfumada por árvores antigas
que antes de eu nascer me conheciam.

Aprazer-se com ocupações banais
como aspirar o ar em cachos,
apreciar o vale recortado,
acender um fogo na clareira,
tomar mate na cuia, contar
as dobras infindáveis do riacho,
e amanhã pode não haver mais nada
que tudo já teremos inalado,
até onde Deus, em sua sabedoria,
permitiu que pudéssemos gozar.

BOLSO PROVEDOR

No meu bolso provedor guardo tanta coisa:
a agenda das reminiscências que se mascam,
a chave do portão de dobras rudes,
a caixinha de música alemã,
partituras espalhadas pelo chão,
a poeira de longas caminhadas,
eu turrão, insistente, inquisitivo,
invisível aos que não cultivam álibis,
bem temperado o cravo que Rimbaud
dedilhou no fundo do lago, *
lenço encharcado de chuva plangente,
coleira de cadelinha vira-lata,
relógios derretidos de Dalí **
e dali me esparramei, desci ravinas,
colecionei sedimentos,
varei noites em claro ruminando,
estrelas inquiri, ora direis, ***
sempre cavando no meu bolso provedor:
gilete pra lascar sem piedade,
bola de tênis que ninguém enxerga, ****
caixa de fósforos comprada na Rússia,
flores secas de um livro de meu tio,
eu entretido com meu cachimbo
vendo a lua pulsar com estridor
e desabar sobre mim arrepiado,
um retrato de avós sobre a lareira,
um terço para o sétimo dia,
garranchos que eu fazia antes mesmo
de a manhã acinzentar o pátio,
colírio pra ver tudo colorido,
trava-línguas do mano Caetano,
saudades da mulher de franja,
perfume de contrabando,
eu contente como um bugio,
cada vez mais nu e mais ladino,
sempre buscando por GPS
a encruzilhada onde os carros colidem
e onde verei meu fim. Mas antes
há tanta coisa ainda a ser palpada
nas pregas do meu bolso provedor!

* Arthur Rimbaud: "Je voyais très franchement une mosquée
à la place d'une usine, une école de tambours faite par des anges,
des calèches sur les routes du ciel, un salon au fond d'un lac".

** "La persistencia de la memoria", de Salvador Dalí (1931).
*** Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!"
**** O filme "Blow-up", de Antonioni, termina com uma cena intrigante
em que duas pessoas jogam tênis com uma bola invisível.

domingo, 22 de setembro de 2013

VOCAÇÃO DE FELICIDADE

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui."
-- Fernando Pessoa

 

Pra ser feliz,
seja infeliz. Abra
as janelas para o infortúnio.
O mal desdobra serpentinas
e tatua nossos corpos
atados à roda (segundo Dylan Thomas).
Mas a alma sobrevive.
A roda gira sem sabermos
o lote que nos coube:
se farto ou suficiente
como sopa morna,
se amargo ou fatal
quando o raio despenca no quintal.
Ao invés de horizontalizar a vida,
melhor deixar que seja vertical.

Pra ser rico,
seja pobre. Abra
a porta para os catadores de latinhas.
Jejue, seja sincero,
aposte no nhoque da sorte.
A porta é estreita, e mil sonhos
passarão pelo buraco da agulha
antes que qualquer coisa se anuncie.
É cedo. Os subúrbios
se mexem com estridência
(e os cúmulos parecem corroborar isso)
gerando mais um dia, mesmo
as florestas sendo dizimadas.
Ao invés de erguer galo dos ventos,
tente cavar embaixo.

Pra ser sábio,
seja idiota. Abra
os olhos para o que existe
em potência, magnificência:
a higiene básica
de nada saber. Higiene
deve ser o mais alto anseio.
Idiota é aquele que abarca
toda a realidade em sua arca.
Enquanto isso, na cidade
outras pessoas fincaram
raízes e, nos anos
que lhes cabem, tentarão formular
(guirlandas de uma janela a outra) *
sua vocação de felicidade.


* Arthur Rimbaud:
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher;
des guirlandes de fenêtre à fenêtre;
des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse".
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE VIVO

Ainda bem que vivo
num país de jovens, Pão de Açúcar
comandando a fermentação,
e na rebentação do dia
mais um moleque aprendeu o ritmo
e uma garotinha concebeu a resposta
que muitos velhos procuraram em vão.
Uma garotinha do Recife
gerou todo um vocabulário novo
não por inflexão escolástica,
mas a partir de seus intestinos,
seus membros franzinos,
seus olhos de íris branca,
sua aposta firme na esperança.

Nosso maior investimento
é ter filhos. E cuidar
pra que herdem um mundo melhor:
com menos corrupção e trapaça,
menos coerção e ameaça,
menos poluição e fumaça,
mas também sem cooptar:
somos filhos de nossos filhos.
Cada bebê é cartaz
a dizer impiedosamente
onde foi que erramos,
nosso medo, nossa amargura
diante de tudo o que sonhamos
nos tempos da ditadura.

Vida dura décadas dura,
mas estamos em boas mãos:
e elas não se coadunam por nós,
mas através das redes sociais:
e tudo o que parecia hoje
virou ontem. Como
colossos avultam esses seres
tão frágeis e alegres,
com a legitimidade da infância,
a clarividência da adolescência,
o tesão da juventude
que em tudo encontra amplitude
e reativação e revolta
num futuro sem volta.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE ESCREVO

Ainda bem que escrevo
neste idioma críptico que é
a língua portuguesa,
com suas conturbações barrocas
e seus subentendidos sacanas,
suas deficiências cândidas
como quem diz: puxa,
vim aqui pra dizer, mas
o que encontrei são penas de arara
junto com inflexões de brasões
e imponências de bacharel
e todo tipo de fofoca
e glossário de futebol,
conforme Nelson Rodrigues.

Quem escreve em português
nunca será traduzido.
Toda poesia é cifrada.
O enigma nos mirou fixamente
e esfaqueou nosso ventre,
nos fez entregar intestinos.
Afinal, o que é traduzir?
Talvez dormir com a mulher do vizinho,
a excitação de trair,
se imiscuir com a tribo alheia,
sendo que em princípio
todos somos alheios. Nascemos
na floresta do alheamento,
conforme Fernando Pessoa.

Que idioma mais lindo
em leito mais reles!
Os últimos serão os primeiros.
Vocês se enganam ao imaginar
que tenho algo a dizer. Quem sou?
Essa algaravia é garapa
de uma cana amassada
por muitas mãos, quase sempre
morenas, altivas
e teimosas ao extremo,
mas com senso de humor.
Sem esquecer a brisa
que nos acalma e batiza,
conforme (São) Vinicius.

terça-feira, 30 de julho de 2013

ELEFANTINHOS

(para Jean de Brunhoff, criador do elefante Babar)
 

Dos elefantinhos que me lembro,
um segurava a cauda
do outro, que atento
ao próximo, sua cauda
segurava, por mania
de contribuição,
de integrar sua tromba
no grande unison.

Do que me lembro, o elefantinho
tinha boné rajado
e ar de turista
trafegando pelos
bulevares com seus cafés
e crianças andando em bicicletas
(aquelas de rodas grandes)
no silêncio das aleias.

Elefantinho branco
no teatro de fantoches
e tudo sem afetação:
elefantes saúdam
sua humanização
sobre os paralelepípedos
de uma cidade cheia
de balões azuis.

O elefantinho desfila
com sua cria,
o chapéu com tira ao vento,
ele sempre atento
ao pináculo da Tour Eiffel
e de outras torres
das quais nossa infância
se alimentou.

Elefantinho se une
às sombras na parede
até nossa sombra
ser só invenção,
ele que já esteve nu,
já desfilou na manada,
seu barrido agora
pop-ressoando.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

TODO POETA 2

Todo poeta tenta
falar como criança, os lábios
ainda roxos do parto,
a síndrome de ter de respirar,
se acostumar com a ingestão de ar,
o ar que nos anima
e rimas nos ensina.

Falar como criança, os lábios
ainda presos em secura
porque em princípio éramos
destinados à mudez,
mas o sol nos deu vida
que parecia impossível,
tíquete só de ida.

Falar como criança, orgânica
a ligação entre os lábios
e o sentido, oclusivas
as relações entre mim e o mundo,
entre o que sou e desejo,
até o fato de o desejo
ser só circunstância verbal.

Falar como criança, grudando
nossa fala à realidade,
o desejo primal
de que a realidade se case
com nossa boca em brado
bem articulado
do ponto de vista muscular.

sábado, 13 de julho de 2013

BARROCO

Barroco é meu fervor. Lope de Vega,
Gregório, Sor Juana, Garcilaso,
Góngora, Quevedo, de Molina,
Cervantes, Calderón e outros salmistas
sempre garantiram que é possível
Jesus ressuscitar entre os gentios.
Sem adornos nem apliques,
simplesmente Jesus agora e aqui,
no alpendre ou na rota dos perdidos,
na fruta ou na filha do vizinho,
na nuvem ou no vento que se atiça,
no mar que se alevanta, na montanha
que parece desafiar o abismo,
porque Deus é senhor da antinomia
e nós somos apenas meio-fio.
Somos homens do meio (dizia
T. S. Eliot), tiros
disparados pra onde ninguém diz,
certamente porque a verdade
só pode estar longe, lá no fim.

Barroco é meu fervor. Bardo de Stratford,
bardo de tantas rixas e galhofas,
de estapafúrdios trocadilhos,
balbuciar de virgens, lamuriar
de velhos sem siso e sem coroa,
e trilhas de castelos arrepiados
em eterno nórdico frio.
De Veneza trouxemos as máscaras,
truques de palco, explosões
enchendo o proscênio de fumaça,
a sociedade encenada
como barroca corte de espetáculo
em concerto grosso.
Barroca de fato é a ascensão
da rota vertical de nossas vidas.
Só o que importa é a quintessência.
O que sobrou depois
de os rumores e fúrias terem ido.
Jesus agora e aqui, eis a pepita.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CURA GAY 2

Na UTI dos pobres inalei
gases incandescentes, e a lei
me impôs sua face mascarada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres embebi
meu nariz em vinagre, e nunca vi
tantos gays como eu na manada,
em angustiosa debandada.

Na UTI dos pobres percebi
que gays, pretos e índios há ali,
mas são gente que não vale nada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres indaguei
que culpa carrego por ser gay,
mas a rua estava interditada.
Só se fala à boca fechada.

Na UTI dos pobres me envolvi
em tumultos que nunca antes vi,
deixando a praça esfumaçada.
Meu destino é levar porrada.

Na UTI dos pobres padeci
a diferença entre mim e ti,
nossa tez, nossa vida passada.
A vida vista como escalada.

Na UTI dos pobres faleci
sem deixar sequer um álibi,
uma extrema-unção de fachada.
Meu destino é levar porrada.

OBESO

Sou o obeso
capaz de discursar sobre obesidade.

Sou o indefeso
eterno refém de sua própria vaidade.

Sou o oleoso
que em tudo busca vã neutralidade.

Sou o teimoso
conhecedor dos vãos da teimosia.

Sou o asqueroso
que no pescoço da mãe pisa.

Sou o surpreso
perguntando: até onde vai minha barriga?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ORIGEM

Como de macacos surgiram
esses entes tão grandes e astutos
capazes de inquirir a Lua
e obrar morticínios
e varar descampados
e instituir leis, 
capazes de erigir um deus
num altar inútil
porque deuses eram eles
em sua sede de vingança
contra o deus-macaco que nunca existiu?

Como, me digam, como
dos grandes macacos vieram
macacos astrofísicos, equipados
com tecnologia e tolice,
o afã dos afazeres
secundado pelas vacinas
contra tudo o que eles não são,
dissecados em suas fibras
musculares? Mas o cérebro
é o músculo que comanda,
mesmo sendo o mais tenro.

Macacos de cérebro fremente
latejando em ambição e dor,
macacos de beleza. São donos
da Terra por merecimento.
Mas curiosamente suicidas:
como se a beleza em vinte dedos
fosse insuportável, e de vinte
milênios não aprendessem nada,
condenados a repetir,
interrogar o céu em seu fingir,
atônitos diante do porvir.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A POESIA É TERRA DE CULTIVO

A poesia é terra de cultivo.
Só por um triz me sinto vivo.


Jorge, Cecília, Murilo, Drummond,
terra-roxa onde tudo brota,


qualquer expressão previsível
e outras fora de rota.


Murilo, Drummond, Jorge, Cecília,
me deem um pouco de água fresca,


me deem um apanágio
no amanhã surpreendente.


Jorge, Drummond, Cecília, Murilo,
cheguem aqui, me ensinem


o cultivo de espécies nativas:
saudade, inquietação,


suingue, suor, assombro,
o verso que se parte em dois.


Drummond, Cecília, Murilo, Jorge,
não me deixem tão desamparado!

Sou lavrador de terra intangível
que pelo visto nunca acaba.

ANDES

Escrever é escalar montes
por onde ninguém andou.
Se andas, é por onde Andes,
onde a águia equacionou seu voo.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Escrevam, minhas queridas, onde estou:
no Andes de dizer: "eu sou".


Pode haver um Equador da dor,
mas escrever é sempre escalar.
Andina deveria ser toda gramática.


Jogar sapatos ao mar
não faz o fim melhor do que acabou.
Mas só pela poesia sei que sou.

terça-feira, 25 de junho de 2013

CURA GAY 1

Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.


A vida me foi madrasta.
Sou filho da ditadura.
Sou folha que o vento arrasta.


Minha doença não se configura.
Nenhum exame a devassa.
Mas dói como garrote de tortura.


Senhor, preciso de cura.
Sou gay. Nada há que me faça
partir pra outra rota mais segura.


Tentei me expor na praça.
Tentei me extravasar em desmesura,
mas tudo redundou em arruaça.


Meu signo é o da desgraça.
O que fazer na noite escura?
Quero levar vida casta,


desistir de toda frescura.
Mas minha doença é tão vasta!
Ser gay é mal que perdura.


Senhor, preciso de cura.
Preciso de algo que dê basta
à minha interminável amargura.

domingo, 23 de junho de 2013

VINAGRE 2

Azedou.

Começou como comércio de vizinhos.
Pela negociação diária
de nosso lote de compartimentos,
nossos felizes momentos,
uma cidade que avança
barriga à frente. Barriga,
não cabeça. Pão
amanheceu. Leite
talhou. Descemos as escadas
rumo ao porão: bolsa
onde nossos desejos fermentam
atiçados pelas bactérias
de aspirações mais sérias,
que beleza! O mar amanheceu
com espuma mais grossa.
O ar ficou quase irrespirável
e nós descartamos o amanhã.
E agora somos assim:
homens tentando chegar ao rés-do-chão.


Azedou.

Vizinhos se avistaram
na rede impalpável dos atos
e outros que tantos artefatos,
que beleza! Pão de Açúcar
na mesa, a eterna hipocrisia
agora na ordem do dia.
Verás que um filho teu...
Filhos, o que fiz?
Me omiti, a integridade
vendi como móvel usado
e outros fatos neguei no tapetão.
Tudo o mais ocorreu de supetão.
Já não sei onde me encontro,
mas não estou sozinho.
Os suores do atrito me banharam,
outras noções me devastaram
e agora só acredito no vasto.
Tudo o que eu vinha escondendo
escalou.


Azedou.

terça-feira, 18 de junho de 2013

VINAGRE 1

Vendeta veio
e levou aos vaivéns
os homens do vinagre.
O acre em sua instância máxima.


Acre, lá no Acre ou na Candelária,
numa instância libertária
que não aguenta mais o azedo.
Tudo o mais é arremedo.


Gás, respirei gás que parecia
lençol de gente arrebatando
momento a definir o onde e quando,
sem nunca se submeter.


Soberania foi a que vim:
vim de vigília, vim de visão,
de eu e tu pra sermos sujeitos
no seio da conturbação.


Vinagre, meu Deus,
como pudemos descer tão baixo
pra que o ácido fosse a única coisa
que pudesse nos justificar?

domingo, 16 de junho de 2013

PARTIDA

O melhor que sei
é partir. Sei o que é melhor:
partir. Quando os motores acendem
e as bases trepidam,
lembretes no banco de trás,
o uníssono de nós:
que esta mensagem não seja
a próxima. E assim
sucessivamente, que amanhã seja
assim: na poltrona
ou no heliporto ou no subsolo,
apertar o cinto, o que sinto,
o que minto, o que finjo.
Partir que ninguém me avise,
eu dono de minhas alegorias,
minhas roupas, meu desgosto, mas
haverá companheiro? Não conheço
partida em conjunto. E o mundo
pode revolver enquanto resmungo.
Outras palmas irão brotar
pra enterrar as carcaças
de tudo o que poderia ter havido
mas não houve. O silêncio
não nos ouve. Partir
é medida de higiene essencial.


Partir, partilhar, palmilhar, por exemplo
quando trepidou eu sei
que outras confabulações
me fizeram mais tênue. Na verdade,
já praticamente não existo.
Sou um ser em transição.
Alguém se imiscui
e traz alarde, e em outros lugares
se faz tarde, e tudo
o que eu inocentemente quis
era uma opção de liberdade.
Comungar. Onde ontem
cunhou seu selo, meu apelo
era de um mundo mais límpido,
com melhor divisão do tempo,
nossa ambição ascensional.
Então, que seja. Rasgo
meus papéis, livro
meus nove mil livros
pra atravessar a ponte
onde cada um de nós poderia ter dito
o tão duro, mas tão doce enigma:
se partires, rasga teu peito.
Não tenhas medo. Ao partir,
que cada um diga sua parte.

terça-feira, 11 de junho de 2013

ADORAÇÃO

Senhor, por que publicar estas palavras
e gastar o papel de Tuas árvores?
Minhas preces nada valem lá no céu
e ninguém as ouve aqui, neste escarcéu.


Minha voz não compete com o órgão
das passacaglias de um tal João.
E meu sofrimento empalidece
diante do martírio de São Sebastião.


Sou frade franciscano, sou mendigo
numa roda que não para de girar.
E se algum dia eu disser — sou livre,
é porque decidi Te adorar.

RESSURREIÇÃO DA CARNE

Acredito na ressurreição da carne,
não só da alma. Basta seguir a trilha
sem desviar a vista,
orando em gratidão por nós,
nossos pais, nossos filhos.


Todos temos de passar por esse vão.
A porta estreita, como no Sermão.
Caso contrário, despencamos no talude,
como os cegos no quadro de Brueghel.


Jesus sanguinolento nos espera
ao final de cada sacrifício.
E depois de três dias Ele ressuscita,
se ansiarmos por isso.


Não existe mais nada a ser dito.
Tudo o mais aponta para o infinito.

domingo, 9 de junho de 2013

CRIME

(para Walter Salles Jr.)

Um crime se paga com outro crime.
A vingança é uma roda de moinho.
Quando a pá despenca num rangido,
morre o pai, morre a mãe e morre a filha.


Nunca se lava o sangue derramado.
O perdão neste mundo não existe.
És um imbecil quando suplicas,
pois ninguém por aqui te dá ouvidos.


Perdeste tua filha pra sempre,
perdeste teus dois braços, tua vista,
perdeste tua honra e teu caminho.


Mas quando um cego olha pra cima,
vê o vulto de Deus na ventania
como reminiscência de outra vida.

O NOME DO SENHOR

O nome do Senhor pra mim é pepita.
É fonte de água fresca em local não sabido.
O nome do Senhor é três vezes bendito,
aqui, acolá e por todo o infinito.


O nome do Senhor é raio fulminante.
É força bruta que irrompe como aríete.
Sua glória não tem paralelo na Terra,
nem nas galáxias que ao longe piscam.


Do nascer do sol até seu declínio,
louvarei o Senhor que habita nos cimos.
Não sei se Ele escuta este Seu escriba,
mas eu O louvarei todo santo dia.


O Senhor preside às nações unidas
com Sua mão que dá agasalho e abrigo.
Quem há como o Senhor, que no alto vive,
mas atende às criaturas desvalidas?


Ele levanta do pó aquele mendigo
que passou por mim, sujo e fedido.
Arrastava o pé enfaixado, dizendo
frases tatibitates que não ouvi.


Ele tira da sarjeta a prostituída
e lhe dá no céu um lugar cativo.
Os pobres recebem passaporte VIP
pra se esbaldarem no festim dos ricos.


E ao poeta míope que escreve estas linhas
o Senhor acolhe, acalma e batiza.
Em minha casa viverei pacífico,
rodeado de livros, árvores e filhos.

ESTOU DOENTE

Estou doente, Senhor. Meus ossos se desfazem.
Não consigo respirar. Minha boca arde.
Acho que foi há dois dias. Aquele último trago.
Quando voltei pra casa, estava tudo acabado.
Não se sente de cara. É mal disfarçado.
Mas depois começa a doer como praga.


Volta-te, Senhor, estou aqui pra louvar-Te.
No Inferno, quem mais Te louvará?


Se me salvares, toda noite lavarei minha cama
e regarei com lágrimas meu estrado.


À vista do furor, meus olhos se turvaram.
Junto a meus inimigos fui ficando grisalho.


Aparta de mim este último cálice
e livra-me dos que obram iniquidade.


O Senhor ouviu a voz de meu lamento
e meu rogo humilde no barulhão da noite
e recebeu esta oração feita em surdina.


Ele sabe e eu sei que meus inimigos
serão confundidos, pra sempre conturbados
e num instante cobertos de ignomínia.

FALÊNCIAS FRAUDULENTAS

Senhor, derrama um pouco de água fresca em minha testa quente.
De manhã bem cedo me porei diante de Ti e contemplarei.


Eles andaram tramando transações em Tua ausência
e traçaram no papel o roteiro da próxima falência.
Mas eu confio em Tua misericórdia depois de feitas as contas
e, quando os ardis vierem à tona, calado Te adorarei.


Por mais que falem, não se escuta um pingo de verdade.
Lidar com eles é como esmurrar uma porta trancada.
A alma deles é um sepulcro profanado.
Mas na saída me disseram que são os donos do pedaço.


Que eles despenquem de seus pensamentos e sejam lançados
ao léu segundo a multidão de suas impiedades.
Senhor meu Pai, Tu os farás pagar até o último centavo.
Mas os que esperam em Ti, a estes abençoarás.


Os Justos podem ter sido enxovalhados hoje,
mas em Teu domínio comerão o pão do regozijo.
E os de boa vontade não temerão a chuva de meteoritos,
pois o escudo de Deus os protegerá com amor infinito.

VAIDADE DOS RICOS

O Senhor me atendeu quando eu O chamei em voz baixa.
Tem piedade de mim, Senhor Pai, e ouve meu desabafo.


Filhos deste país, até quando de coração empedernido?
Até quando desfilando por aí de braços com a mentira?
Deus escolheu seu santo, que anda pelas ruas incógnito
estudando o coração de cada mulher e cada homem.
Quem puder que lute pela justiça. Deus dá e tira.
O mal praticado de dia voltará ao pecador no leito frio.


Outros perguntam: onde foram parar as benesses?
Nos prometeram mundos e fundos ao final da festa.
Contemplar a luz do rosto do Senhor é minha promessa.
E agora estarão bem abastecidos e alegres
com a abundância da sua herança em espécie.
Enquanto eu, Senhor, não farei nada e dormirei
sentindo crescer em mim uma esperança sem nexo.

PERSEGUIDORES E PERSEGUIDOS

Senhor, eu sujei no pedaço. São muitos os meus inimigos.
Em toda parte se levanta contra mim um vulto hirto.
Socorro onde haverá? É mais de meia-noite no subúrbio
e no último ônibus balearam cobrador e motorista.
Muitos dizem: esquece teu Deus. Ele não existe.


Mas com um fio de voz clamei ao Senhor, e Ele me ouviu.
Do alto de um edifício Ele me mandou Seu raio infalível.
Fiquei cego e dormi como não dormia há muito tempo
e quando acordei era jovem de novo,
cheio de esperança para o dia que rebenta outra vez.


Não, não temerei o pelotão diante de mim em semicírculo.
Salva-me, Senhor Deus de Israel. Salva Teu filho aflito.
Tu tens ferido a todos os que me perseguem sem motivo
e quebraste os dentes dos pecadores com a boca na botija.


SÓ A VERDADE SALVA.
E FODA-SE A MENTIRA.

GOVERNOS DESTE PAÍS

Por que razão os governos deste país se armaram em conluios?
E por que razão o povo se deu por feliz com uma lasquinha?
No comboio da alegria os reis da Terra computaram seus lucros
enquanto o povo cabisbaixo fazia de conta que não via.
Eles conspiraram contra o Senhor. E nós os seguimos.


Mas da noite para o dia estes laços podem ser rompidos
e tudo vai parecer uma piada de mau gosto
aos olhos do Senhor, que perscruta cada vão de nossas vidas.
Então, o Senhor nos falará. Sua ira
turvará para sempre o Congresso de acordos tão bem divididos.


E por que razão o Senhor fez de mim Seu escriba?
Eu mal governo as páginas deste livro.
Sou imperfeito como minha gente, e hoje tomei umas biritas.
Mas o Senhor me disse: Eu te gerei. Tu és meu filho.


Pede-me (disse o Senhor) e te darei os Estados e municípios
e a vastidão deste país onde plantarás tua justiça.
Quem com ferro fere com ferro será ferido,
e a trama mais cerrada na hora do vamos ver se espatifa.


Por isso, Excelências, entendam o que está dito.
Não resta nada a dizer. Tudo está por ser feito.
E, quando houver de ser feito, Deus estará à espreita
vigiando nosso medo e nosso amor insuficiente.

VEREDICTO DE DEUS

Pobre de ti se deste ouvidos às lorotas dos Astutos
e te vendeste em troca de um punhado de lambujas
e teu passo, que era tão leve no caminho previsto,
se engasgou de repente até o tombo final sem aviso.


Não, claro que não. Pois tua vontade puseste na lei Dele,
e nesta lei encontras um chão para teus pensamentos.
Dia e noite não estarás sozinho naquela cidade cheia,
e a mão de Deus te guiará por entre todos os tormentos.


E assim os Justos não vacilam com o rugir da tempestade,
mas os Fajutos se confundirão sob o clarão do raio.
E quando aos Justos sobrar um guarda-chuva desmantelado,
meio surdos, os Fajutos serão levados na enxurrada.


Se havemos de ressurgir, há de ser decidido
naquele bloco onde o Senhor ditou Seu ritmo.
E quando menos se espera, na curva da avenida
sobre Justos e Fajutos pesará Seu veredicto.
 

O AMOR NUNCA CHEGA

Nosso tempo é curto.
Nosso estoque é escasso.
Quero uma resposta.
Mas a vida é aposta.


Por exemplo, pergunto
à adolescente
o que significam
seu piercing e seu topete com gel.


Por exemplo, pergunto
à madame do lado
o que significam seus cílios
e seus saltos estrídulos.


Por exemplo, pergunto
à funcionária
por que bochechas tão rechonchudas
totalmente de graça.


O amor não leva a nada.
Os homens das cavernas sabiam.


Melhor se apaixonar por um cão.
Melhor se apaixonar por um quadro
de mil e uma cores
de Vincent van Gogh.


O amor tem essa virtude
de recomeçar.
Vamos nos sentar entre as aleias,
talvez bebendo vinho provençal.


Quatro olhos sabem de cor o que dizem.
Mas no amor me engalfinho.
É fibra que não sei acionar.
Amantes são pessoas sem lugar.


Não sei se me queres realmente
e quanto tempo dura nosso amor.
Quando será nossa vez?
Talvez amanhã, se é que me crês.

O AMOR CHEGA TARDE

Depois do crepúsculo,
a chama arde.
Chegou a hora
de abrir uma garrafa de vinho.


Dizem que algumas pessoas
têm ereção na hora da morte.


O amor é antídoto
pra qualquer demagogia.
É roteiro
de unânime trilha.


O coração é devasso.
Nossa vida é lapso.
O amor é eterno,
no céu ou no inferno.


Jiddu Krishnamurti
ensinou o amor universal
que vem de abrir a mente,
varrer os condicionamentos,
livrar a vontade,
dizer a verdade,
dizer que te amo
antes de qualquer noção.


Segundo Krishnamurti,
o conhecimento acontece depois.
Primeiro acontece o amor.
Nascemos tateando.


É como nas canções dos Beatles:
she loves you, yeah yeah yeah.


O amor é coisa de cambista.
Eu troco seis por meia dúzia.
Troco meu indivíduo
por tua cara risonha,
teu passado,
teu penteado.


O amor vem das cavernas de Cro-Magnon.
É servidão, grafite, bruxaria.
Um sentido onde não havia.


Aos judeus peço perdão.
Aos muçulmanos estendo minha mão.
Aos budistas faço oração.
Aos ateus digo: irmãos.


E aos cristãos digo que Cristo
pregou o amor
e, depois de três dias,
a Ressurreição.

SOU UM TIGRE

"Tyger, Tyger, burning bright
In the forests of the night;
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?"
-- William Blake


Sou um tigre orgulhoso de meus dentes,
minhas patas acolchoadas, mas ferinas.
Minhas patas são meu patrimônio.
É o que vou legar aos tigres outros.


Sou um tigre conhecedor das trilhas.
Não contesto a humana tirania.
Antes tento me desguiar pra dentro,
pra onde tenho sido antes do tempo.


Quem tentar me extinguir será extinto.
O tigre prevalece no final.
Só estou à espera de um sinal.


Quem tentar acabar verá seu fim.
As estrelas calam sobre isso.
E o tigre rosna de sobreaviso.

SOBRE O AMOR

(para René Lenard e Viviana Bosi)

O amor é núcleo, é noz, é nós, é norte.
É como aquelas forquilhas radiestésicas
capazes de encontrar água no deserto.
As pupilas de meu amor parecem nada
para os pobres coitados que não amam,
mas, pra mim, elas nadam em água,
numa bolsa amniótica-hipnótica
de onde eu miro o mundo lá fora,
pupilas prenhes, cheias, nítidas
como se sempre tivessem existido,
como se o amor fosse predestinação.
Teu olhar velava sobre mim, meu anjo,
antes de eu nascer, e tua boca
soprou sobre mim aquele bafo
que fulminou pra sempre o abandono.
De ti, meu amor, não me separo
como um cão não se arreda de seu dono.


A substância do amor nunca se estraga
por mais que seja luxo escasso
como a dobrada à moda do Porto,
que, segundo Fernando, não se come fria.
Amor é mendicância. Todo amante
é um cego pedindo esmola na esquina.
Hoje eu alimentei as rolinhas,
lavei minha roupa e a estendi no varal,
ouvi o quarteto de Brahms orquestrado por Schoenberg
e em toda parte eu via teu rosto,
meu amor. Ele era meu búzio,
tão pequeno mas capaz de brilhar no escuro,
porque vem do mar, que de novo
é fonte de toda água, que de novo
é fonte de todo amor. Meu bem,
se ainda precisas de mais uma jura,
juro te amar na graça ou na desgraça.
A verdade é que a verdade não cabe em poesia.
Sem ti o sentir é impossível, sem ti
a vida não tem mais sentido.
Nossos fígados conversam na sala de estar.


Um homem me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ele,
ele parecia meio arredio,
meio anguloso nas suas falas,
comia meio de lado, mas então
conheci que ele me conhecia
desde antes de qualquer noção,
e disse a ele: se quiseres,
podes me conhecer, e eu serei tua.
Néscia, neutra, inútil, núbil, nua.


Uma mulher me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ela,
estranhava seu corte de cabelo,
sua mania de não responder às perguntas,
mas ela me fez pagar caro por esse erro
porque seu olhar se injetou em minha veia.
Sou um junkie. Sou abjeto. Sou dejeto.
Que sufoco, meu Deus!
Sua imagem vejo no trem, no travesseiro.
Pulei o muro do bosque proibido
e subi por um trapo de opereta
até o balcão de minha Julieta.


Eu sei, eu sei.
Todos os poetas tentaram dizer.
Quem sou eu pra dizer alguma coisa a mais?


O amor é polvo de olhar sedoso
como queria Lautréamont, sugando
nossos corpos com dezenas de ventosas.
E aí está, justamente neste dia de festa,
na celebração do corpo esplêndido,
o corpo se esvaiu, foi flechado
como o de São Sebastião, foi sacrificado
num tabernáculo. Duas pessoas
se olham no rosto como se o rosto não existisse,
como se a raça humana fosse inventada agora,
e, pela graça de Javé ou de Jesus, dizem:
estamos juntos, e perdoai nossos pecados. Amém.

SÓ SEI QUE POUCO SEI

Só sei que pouco sei.
Todo saber é tênue.
Não é algo que se poupe
pra fazer crescer.


O saber preexiste.
É inerente ao ser.
Todos nós podemos
decifrar de onde vem.


Ele não se acumula.
Não pode ser herdado.
É indevassável.


É como uma crosta
recobrindo firme
as fibras da carne.

PORTUGAL, ENTREGA TEU DESTINO

(para Pessoa, sempre)

Portugal, entrega teu destino.
Brasil, diz teu vaticínio.
O Algarve reverbera na Bahia.
Qualquer Pessoa sabe disso.


Há comunidades num mapa.
Num passado, farpas.
Mas será?
E se o conquistador
for também o conquistado?


Os assuntos privados são de Estado.
Pessoas falam mais alto.
Temos de nos abrigar
sob Camões e Drummond
e os rappers de Grajaú

e os cantores de fado.

Pessoa, te mando um abraço
na nossa língua brasileira
cheia de malícia e esculhambação.


Portugal começou em Cape Town
e vai terminar em Mumbai.
O Brasil começou nos Andes
e vai terminar em Guadalcanal.


Aqui não existe solidão.
Estamos interconectados.
Portugal de gente simples
(mas orgulhosa e senhorial)
conseguiu criar nas Novas Índias
algo sem relação com o passado.


E Pessoa abençoou este legado.

QUEM ENTRA AQUI ESTÁ EM PAZ

Quem entra aqui está em paz.
Quem entra em paz está aqui.
A paz não é algo fugaz.
É a cruz do percurso, é o xis.


Não existem duas pazes: só uma.
Caetano pensava no Haiti.
Todo o ódio, súbito, se esfuma.
E a paz vai brotar por um triz.


Eu não sei por que sou feliz.
Talvez por mania ou perfume.
Não quero o sopé, quero o cume.
Ali onde a faísca fiz.


O dizer de um poema é tão curto.
Talvez deixe só cicatriz.
O dizer de um poema é bobagem.
Só Pessoa sabe o que diz.

PESSOA, POR INCRÍVEL QUE PAREÇA

Pessoa, por incrível que pareça,
começou na África-Colônia.
Seu inglês era de segunda mão,
mas ganhou proporções de Babilônia.


O império se cria agora, inter-língua.
Só o mar nos separa, ou não separa.
Pobre mar, que hoje vive à míngua...
quando vai reconquistar seu lugar?


Pessoa cantou o mar e a saudade,
em sua dor tão lusobrasileira!
Querer sempre, sempre o que não foi...


Mas o mar existe agora, e cabe a nós
fazer continuar pra sempre sua espuma...
Nesta encarnação, ou em nenhuma...

TENTANDO DIZER

Me engasgo
tentando
dizer.


O rasgo
na goela
doeu.


O raio
súbito
rachou.


O risco
no disco
espocou.


Sou homem,
sou pobre
fantoche.


Só Deus
sabe outra
resposta.

OS DÓLARES COUBERAM

Os dólares couberam
na minha cueca.
A pança, abastecida,
(confesso) avançava.
Abaixo, do homem que fui,
restava uma merreca.


Eles dão. Negar por quê?
A gente leva. Dinheiro
passado adiante não tem dono.
Ladrão rouba ladrão e ganha abono.
Por que não tirar do mundo cão

um ingresso para o musical
das Mil e uma noites?


São tantos os do lado de lá.
Mesmo assim, faço um rapa.
Em prol do meu clã.
Sem pensar no amanhã.


A cueca é folgada.
E está recheada.

NOITE E DIA

"Night and day you are the one,
only you beneath the moon and under the sun."
-- Cole Porter


Noite e dia ecoa o pedido
de alguma espécie de estribilho.
Outros cidadãos confirmam.
É uma dinâmica de vaivém.


Dia e noite investigo o abismo
e ele me investiga também.
Dia e noite digo: sou romântico.
O amor atravessa o Atlântico.


Noite e dia penso: o amor
é uma flecha suspensa.
Quem sabe o alvo? Cole.


Dia e noite ressoa
uma canção que a balsa levou.
E o céu nublado se calou.

NÃO FALE

Não fale: faça.
Não pense: sinta.
Na graça ou desgraça,
não finja, não minta.


Não tente: trace.
Não procure: ache.
No escuro ou no claro,
não tateie: abrace.


O que Deus quiser
vale pra todos,
homem ou mulher.


A badalada deu.
O momento é meu.
É no vai ou racha.

LEMBRANÇAS DE GUERRA

Lembranças de guerra grudam.
Tempos onde alguns nabos
alimentavam uma família inteira.
Tempos de espiar pela fresta
com a respiração presa.
A contagem começa
quando os relógios zeram.


Os detritos não assentaram ainda.
O céu é uma lembrança de gases,
de seres humanos tentando
se igualar aos deuses,
fazer barulho,
orquestrar a Criação
pra nunca haver um sim depois do não.


Nessa guerra perdi meus pais,
meu irmão caçula, que uma vez tocou piano,
o baú onde eu guardava brinquedos,
um cinzeiro em forma de abelha,
o dicionário de rimas,
o pulôver de quando eu tive bronquite,
minha mãe cantando "Marlbrough s'en va-t-en guerre".


Por que precisamos de guerras?
Talvez pra nos sabermos perecíveis.
Nosso destino não está aqui.
Antes temos de nos confrontar,
medir com esquadro nossa coragem,
investigar a vida em seu avesso,
tão tênue ainda, se houve alguma vez.

JOANA D'ARC

Como arde um corpo na fogueira
depois de uma noite velando,
orando por uma terra sem pecado
regida pelas crianças,
com seu sentir de que tudo é válido
enquanto houver esperança?


Como derrete um corpo
escoando para o que sempre foi:
blueprint de um corpo permanente
que um dia brilhou erguendo a espada
e não teve medo do despenhadeiro
em nome de uma secreta palavra?


E pra que precisamos de um corpo
se a fogueira é mais alta
soltando faíscas que pipocam
e parecem subir até o zênite
numa jornada que ninguém decifra
e onde somos só isso: arremate?

O AMOR CHEGA CEDO

O amor é tenda alva
sob o sol do Saara.
Todo amante é tuaregue.
Quando menos se espera,
o amor ofusca,
põe a nu.


João Gilberto sabia.
O amor é sussurro.
Vocês sabem: um banquinho
à meia-luz.


Só pode ser contado
na baba dos lábios.
É segredo de Estado.
É o único pilar
de sustentação
nesse bruaá.


É feitiço de bruxo.
E as bruxas sabiam
desde a Inquisição
que o amor só depende
da justa poção.


Quantas cores
tem o olho humano?
Preto, castanho,
azul, verde, prata
e gamas de dourado.


O olhar não se confunde
em pleno cipoal.
O amor é fetal.
É destino fatal.


Todos querem Ipanema
com suas ondas livres,
seus surfistas.
Todos querem aconchego.


Quantos rios existem no mundo?
O Nilo, o Amazonas,
o Volga, o Virgínia.
Mas nenhum se compara
ao olhar transparente

de minha querida.

TITICACA

Quero subir por essa montanha.
Aqui o tempo é mais lato,
o ar é mais ralo,
a mente se acalma.


Não vejo sendas.
A bruma dissimula o pico.
Minha catedral é La Paz.
Ali começou tudo
(se é verdade que Deus
vive nas alturas).


Temos de escalar
essas penhas rudes,
degrau por degrau,
tudo corroído
pelos ventos do tempo,
pela ânsia de liberdade.


Liberdade
na dimensão de um lago
que se chama: Titicaca.

EXISTE COISA MAIS INOFENSIVA?

Existe coisa mais inofensiva
do que a poesia? O Dow-Jones
deste dia parece em queda livre.
A poesia é impotente contra isso.


Existe coisa mais idiota
do que a poesia firme em sua rota?
Todos começam balbuciando,
sem saber como, onde e quando.


A poesia é tão somente ritual.
Uma rima na reta ascensional.
Um suspiro no espaço sideral.


Ela é ânsia, catacumba, segredo.
Tudo se iguala no cômputo final.
E ela não morde... não tenham medo.

ESCREVER DEPENDE DE...

Escrever depende de
deixar a mão um pouco frouxa,
deixar a voz um pouco rouca,
a mente um pouco louca.


De nada vale escrever senão
na tentativa de outro dizer.
A realidade é nosso ancoradouro,
mas ainda há ouro a se entrever.


Escrever não depende de rima.
Música, sim, é origem.
Todo barco range e guincha. Todo
poema procura uma frincha.


Paul (aquele) queria um verso ímpar,
vago, solúvel, leve, limpo.
Um verso honesto e intransferível.

Eu procuro ser breve. O tempo urge.

O poema nos surpreende, abrupto.
Somos reféns de um minuto.
Mas (ai de nós)
será que estamos à altura?

ELA AINDA ESTÁ SAMBANDO

(para Chico Buarque de Hollanda)

A quarta-feira acabou
faz muitos carnavais.
A purpurina derreteu.
Que pena, foi demais.


Mas quem é essa louca
desafiando a vida?
O peito dela arfa
em plena avenida.


Quarta-feira foi ontem,
quando nos calamos.
Quinta é amanhã,
onde desatinamos.


Meu Deus, ela são pernas
sobre saltos altos
no compasso vibrando.
Ela é sorriso,


não qualquer sorriso,
antes alvorada
ou água espraiada
entre queixo e nariz.


O biquíni é curto.
Os braços se avolumam.
Ela veio render
graças por último.


Ela veio apagar
qualquer outra rixa.
Veio renovar
nossa ideia fixa.

DO POUCO FAÇA MUITO

Do pouco faça muito.
Do muito faça mais.
Todos temos uma chance
se ouvirmos os sinais.


Do joio faça trigo.
Do trigo faça pão.
O pão é nosso amigo,
se não dissermos não.


O amor só multiplica
o que passa e o que fica.
É o xis da questão.


O amor abarca tudo
e isso me deixa mudo,
pronto para a ação.

DENTRO E FORA

A menina tem greta.
O menino, apêndice.
Sem menina não há reprodução.
Sem menino não tem oposição.


Sem mulher não tem encantamento.
Qualquer homem vai reconhecer.
Sem homem não há enfrentamento.
Sem mulher não há resolução.


Homem e mulher não têm suporte.
São parasitas da Criação.
Apêndices de outra dimensão.


A menina vai tragar o resto
pra não sermos sós nesta floresta.
É uma "marcação homem a mulher".

COMUNICAR

Comunicar é em parte conteúdo,
mas a forma faz a diferença.
Quem tem um pouco quer ter tudo,
mas a distância pode ser imensa.


A forma nos conforma num escudo
que com sorte talvez nos convença.
Mas só com muitos anos de estudo
se distingue a crença da descrença.


A verdade é algo artesanal,
produto de um processo intestinal.
E a forma, obediente, corre atrás.


Deus criou o mundo e deu-lhe forma,
mas não impôs esta ou outra norma.
E o conteúdo depende de quem faz.

CHICO DESATINOU

(para Chico Buarque de Hollanda)

Chico desatinou
com seu cancioneiro
escavando a memória.
Nossos sambas e amores.
Nossas valsas, temores.


Chico sambou.
Foi beleza ver.
Veio com chapéu branco
e uma ginga de malandro
que ninguém esqueceu.


Por que falam de militares,
empresários, beldades?
Chico sabia de antemão.
A banda vai passar,
esquentando o chão.


A banda vai passar
polindo as pratas,
renovando as juras
que fizemos nos tempos
da ditadura.


Chico vai passar.
Vai sondar desejos,
confissões,
e o que não se admite
ou o que mais se oculte.


Isso é reportagem.
É invasão de
domicílio. Chico sabia
que ânsia se esconde
no coração ambíguo.


Chico conhecia
sobretudo a mulher.
Pode ser Bárbara
ou Carolina,
talvez Iracema,


aquela que falou comigo
no orelhão,
ou outra de lenda,
ou outra bem física,
ou uma ex.


Chico é guru.
Não se enganem, não.
Em sua ribalta
ele soca o bumbo,
arfando muito.


Ele orquestra o abrupto,
no samba oculto.
O dia raiou
e o sol revelou
o que Chico tramou.

CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA

(segundo Arthur Rimbaud)


Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.


Eu disse: deixa disso,
que ninguém te veja.
E sem a promessa
de alegria plena.
Nada pode deter
este augusto reduto.


Tanto já esperei
que nunca me esqueço:
temores e dores
ao céu ascenderam.
E a sede malsã
turva minhas veias.


Por isso a planície,
entregue ao olvido,
engrandecida de flores,
de incenso, de joio,
sob o ataque abrupto
de mil moscas sujas.


Ah, que tanta viuvez
de alma tão pobre
que só tem a imagem
de Nossa Senhora?
Alguém reza aí
pela Virgem Maria?


Juventude vadia
que atende a tudo,
só por gentileza
perdi minha vida.
Pois venham os tempos
em que o amor ganha alento.

DE NOVO MAPEAR

(para Arthur Rimbaud)

Quem é capaz
de de novo mapear?
Dizer o amor
preto no branco, e já?


Pouca gente sabe
a hora e o lugar.
As juras que fizemos
ficaram pra trás.


O silêncio é nu.
No aperto, somos um.
O que os lábios dizem
logo se contradiz.


O gesto que fizemos
vira cicatriz.
Será Arthur capaz
de aqui desnudar?


Precisamos de
mais nítidas palavras.
Roupas mais simples,
caras mais limpas.


Zerar os registros,
cultivar o enxergar.
Vidência é algo
pra se conquistar.


Vidência dos olhos,
das mãos e dos pés.
Cada parte do corpo
vê o que puder.


Por trás da renda
das cortinas havia
visões que não vi.
Mas Arthur sabia.


Arthur se entregou
por onde passou.
Sim, devemos tentar
de novo mapear.


O eu é o outro.
O outro sabe mais.
Mas quem é capaz
de aqui recomeçar?

AS DÚVIDAS SÃO MAIORES DO QUE AS DÍVIDAS

As dúvidas são maiores do que as dívidas.
As mentes são menores do que as panças.
A pergunta é maior do que a resposta.
O amor não responde às esperanças.


A cobiça vale mais do que o saber.
É um ardor que abarca todo o ser.
A mente busca este ou outro contexto
pra dizer nossa busca e nosso eixo.


A mente duvida quando em dívida.
Estamos em falta com nosso destino
e nossa solidão sem preaviso.


Na jaula nos miram os macacos.
Temos agora de reunir os cacos
pra pagar as dúvidas - e as dívidas.

AINDA ME LEMBRO

Ainda me lembro do jovem Caetano
com sua juba inocente, mirando.
Em cada céu ele enxergava
uma lua oval da Esso.

Caetano segurava um penico
na Tropicália em chamas.
Caetano anunciava o perigo
pela voz avançando.

É órfão quem não tem Caetano.
Wisnik já antevia:
é nosso pai, nosso guia.

De uma juba preguiçosa somos
leõezinhos farejando como
Caetaninhos amanhã.

POEMAS A SEREM ESCRITOS

Existem um bilhão de crianças na China.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
Existem um bilhão de poemas a serem escritos.


Poetar é atividade mais lucrativa
do que ouro ou minério de ferro.
Tudo o que vem das entranhas,
tudo o que tem a ver com estranheza,
pois se ali entrares, nunca
sairás. Entre todos os dizeres,
o melhor é o não dito. Entre todas
as manifestações da natureza
há sempre espaço para a aberração,
o verso que berra no vazio do descampado,
a veia que pulsa no presente sem passado
e nós todos acreditando
numa continuidade que não existe.


A página em branco
abre todas as possibilidades.
O menino que fui já sabia,
mas cinquenta anos foram necessários
pra descobrir o truque
que no fundo é só disponibilidade:
fazer entrega de cada minuto
e aprender com nossos filhos.


Existe qualidade no respirar.
É difícil esvaziar os pulmões,
dizer adeus ao sabido,
começar cada poema do zero
como se alça uma pipa
no azul do céu.


Existem um bilhão de poemas a serem escritos.
Existem um bilhão de flores a serem colhidas.
E acima de tudo (elas estão nos ouvindo),
existem um bilhão de crianças na China.

VIAJO LEVE

Viajo leve
com na mochila só o indispensável:
um Lied de Schubert,
um poema de Pessoa
e um malmequer prensado
nas dobras do passado.


Viajo leve
sabendo que todo ser é indefinível.
Melhor esvaziar os bolsos,
deixar as recordações pra trás,
confiar no presente,
nas pedras que se há de trilhar
até a do rio cabeceira.


Cabeceira tênue...
Amor tão breve...
Viajo por onde os pés aguentam
e mais ainda, porque meus pés
são só manifestações físicas.
A estrada preexiste
a toda poeira
e a toda poesia.


Viajo leve
porque não sei nada
e a todos os amigos interrogo
e aos inimigos desafio,
pés descalços trilhando,
buscando uma resposta
para a única pergunta que importa:
aonde vamos?

VÊNUS RAPAZ

(para Björk)

Ele é tão belo
que chega a ser ela. A Criação
se fez inconscientemente.
Somos filhos do pó, dos cipós,
de formas de vida persistentes
onde tudo poderia ter falhado,
antes que uma faísca
rasgasse no tecido morto.


Ele é belo! Rapaz-moça
é meu norte por onde eu andar,
meu polo, meu Apolo, o balcão
onde deposito minhas perguntas,
por exemplo: existe vida
após a morte, a vida em dobro,
e de onde viemos, as dobras
intestinais fabricando sobras
por onde nunca andaremos,
e sempre a ânsia no final,
a ânsia do belo,
do cantor sobraçando a lira,
desafiando toda mentira
e um raio qualquer que nos fira.


Força, doçura...
No ringue do macho
suaram suas formas quadradas,
sua presença, seu arfar,
como se a vida fosse pose,
pois ele/ela brilha em qualquer gesto.
Se houver chuva, um sorriso ilumina.
Se houver perigo, um braço ampara.


ELE ACREDITA NO HUMOR...
ELE ACREDITA NA BELEZA...
Beleza do rosto pulsando
em tantos traços que a vida escalavrou,
mas ele/ela parece que saiu ileso,
o peito exibindo dois mamilos,
a virilha exibindo sexo explícito.


Diante disso, só podemos nos calar.
Só podemos acreditar no improvável
de todos sermos belos,
de a humanidade conciliar macho e fêmea,
conciliar natureza e empreendimento,
conciliar o futuro com a origem
no ele/ela que Björk antevia.

GANGUE DAS LOIRAS

Loiras, aqui me têm rendido!
Sou vosso vassalo fiel
na cidade que parece carrossel
de trânsito infernal,
de tanto desperdício de lixo,
de construções sem alvará
e meninas pedindo trocado nas esquinas.


Loiras, não me esqueçam!
Quero fazer parte da quadrilha,
dançar com cada uma,
transar com cada uma
pra saber o que realmente importa:
haverá luxo nesta cidade
sem bondade e justiça?

MASSACRE DE REALENGO

(para Wellington Menezes de Oliveira,
brasileiro imbecil que matou
doze crianças e feriu outras doze
numa escola de Realengo, Rio de Janeiro,
no dia 7 de abril de 2011)


Sou mulato nato.
Não pertenço à nata.
Sou mulato besta,
chegado às drogas.
Podem ser vodca, crack, coca,
ou quem sabe algo mais radical?


Fé xiita...
Artes marciais...
Super-heróis de gibi...
Tudo o que disfarce minha origem,
o cortiço onde moro,
os vizinhos fazendo futrica
e eu sempre apanhando na escola
só por ser mulato órfão,
desengonçado.


Cada mulato feito besta é um
inimigo na próxima esquina.
Vivemos num mundo de pancadaria,
de sequestros-relâmpago,
de arrastões nas melhores cercanias,
motoristas baleados por causa de 100 reais,
nós contra os mulatos em quadrilha,
sendo que mulatos somos também.


Não permitam mendigos nas ruas!
Não permitam crianças nos cruzamentos,
não permitam meninas fazendo aborto,
não permitam violência doméstica,
não permitam trabalho escravo
e sobretudo, na Cidade de Deus,
o Rio de Janeiro de São Salvador,
não permitam trapaça. A corrupção
vem de cima. Não adianta
castigar os de baixo.


E acima de tudo celebremos
o sargento Márcio Alves,
meu amigo mais íntimo,
autor do disparo
que deteve o assassino.

LÉON

(para Luc Besson)

Meu corpo não me pertence.
Será meu algum dia
quando eu não mais existir,
porque minha missão é faxina.
A morte é necessária.
Sou só emissário.
Em sua perfeição imaculada,
Deus nos fez nascer e morrer.
Se Deus mata, então
por que não posso matar?
Matar exige regras de balística
e a condição mental
de não fazer julgamento,
não perder tempo. Hoje
foi ontem. Vivo em preaviso,
armado até os dentes,
e meus próprios dentes são armas
com a vida à deriva,
sem nunca carregar nada
que não seja possível
descartar em segundos.
Os que querem mais
são procrastinadores.
Quem falhar tem de pagar o preço.
Quem vencer morre do mesmo jeito.
A vida é roleta.
Enquanto rolar, valerá.
E eu, ao acabar, voltarei.

CONTÁGIO

(para Steven Soderbergh)

De onde veio este vírus?
Quem inventou a mentira?
Viemos aqui pra comemorar,
pra andar a esmo,
pra exaurir o que nos foi dado em triplo?


Nunca fizemos as pazes com a natureza.
Nunca reconhecemos nossa origem.
Temos memória curta, e curta
será nossa agonia. Aquele um
tinha qualidades e defeitos,
outra traía o marido, outro
era médico respeitado,
outro era zelador de um prédio.
Todos sucumbiram.


Todos se congregam
na esteira rolante de um aeroporto,
atentos ao painel digital,
tentando decifrar a hora e o lugar.


O lugar parece
bem físico, sinalizado
no que diz respeito às entradas e saídas,
regras jurídicas do que podemos
ou não fazer, e com sorte
possuiremos um naco do planeta
onde nossas raízes se finquem.


A hora nos encara no agora.
No final deste verso já acabou.
A hora é onde sonham os poetas,
onde procuram um antídoto
em seu laboratório de milênios
porque em nosso fazer há fatalismo,
medo, empáfia, ignorância,
e nós sempre interrogando o relógio,
como se neste quadrante
fôssemos encontrar resposta.