Barroco é meu fervor. Lope de Vega,
Gregório, Sor Juana, Garcilaso,
Góngora, Quevedo, de Molina,
Cervantes, Calderón e outros salmistas
sempre garantiram que é possível
Jesus ressuscitar entre os gentios.
Sem adornos nem apliques,
simplesmente Jesus agora e aqui,
no alpendre ou na rota dos perdidos,
na fruta ou na filha do vizinho,
na nuvem ou no vento que se atiça,
no mar que se alevanta, na montanha
que parece desafiar o abismo,
porque Deus é senhor da antinomia
e nós somos apenas meio-fio.
Somos homens do meio (dizia
T. S. Eliot), tiros
disparados pra onde ninguém diz,
certamente porque a verdade
só pode estar longe, lá no fim.
Barroco é meu fervor. Bardo de Stratford,
bardo de tantas rixas e galhofas,
de estapafúrdios trocadilhos,
balbuciar de virgens, lamuriar
de velhos sem siso e sem coroa,
e trilhas de castelos arrepiados
em eterno nórdico frio.
De Veneza trouxemos as máscaras,
truques de palco, explosões
enchendo o proscênio de fumaça,
a sociedade encenada
como barroca corte de espetáculo
em concerto grosso.
Barroca de fato é a ascensão
da rota vertical de nossas vidas.
Só o que importa é a quintessência.
O que sobrou depois
de os rumores e fúrias terem ido.
Jesus agora e aqui, eis a pepita.
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