(para o sambista Wilson das Neves)
Samba como profissão
não é coisa pra branco.
Mas será?
Ainda lembro a euforia que senti,
mais ao menos aos dez anos de idade,
quando descobri a síncope.
O breque do bumbo! O cavaquinho
solitário chorando,
pedindo esmola ao pandeiro
luxuoso, e a cuíca
subvertendo tudo, e os tamborins
e tantãs anunciando
a deixa do cantor (ou da cantora)
pra falar sobre desilusão
(e com razão).
Samba é roda.
É essencialmente rede social.
Quando o surdo me deixou surdo,
descobri minha tribo.
É difícil definir:
um país de mulatos inzoneiros
em eterna infância,
mas a infância não é a melhor fase da vida?
Deixa de ser branco, rapaz!
Vem brincar com a gente, meu partido
é alto, temos sopros
pra levar a tristeza pra longe
e iluminar a noite
sob as copas frondosas
do terreiro da escola.
Artimanha de maluco ou de malandro,
aposta no jogo do bicho,
sobretudo romance,
requebros de homem e mulher,
pessoal ficou mal falado,
vizinhos reclamaram,
Deus acuda! Mas quem segura
o groove não se cansa nunca:
ter o samba como profissão
é coisa de preto de alma branca
ou branco de alma preta...
Tanto faz como fez...
E se entrar não sai
(já vou avisando) nem a pau
até acabar o carnaval!
Este é o work in progress de um livro de poesia a ser publicado em breve. Os textos apresentados aqui podem não ser os mesmos da edição definitiva. Sobretudo a ordem não será a mesma. Quero reunir cerca de 400 poemas divididos em seções. Mas aqui os apresento como foram surgindo, um a um. Agradeço por qualquer comentário que quiserem postar, assim como indicações de blogs de poesia, literatura em geral, música popular, repente e rap.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
AINDA BEM QUE SINTO
Ainda bem que sinto
a vida com assombro.
Poesia tem de ser religião.
Onde tudo parecia hipótese,
a engrenagem recomeça.
Temos de catar os cacos,
varrer a casa, pôr
a mesa para o almoço,
pois chegarão com fome
os que não se ajeitam
num mundo tão estreito.
Só num sussurro
o amor pode ser dito.
Só pé ante pé
se chega ao infinito.
A vida é curta
pra ser desperdiçada
nessa espécie de tráfico.
Os cachorros latiram.
As cortinas de renda
sacudiram com força
pra não esquecermos.
Ainda bem que sinto
o soprar do vento
em minhas veias,
mesmo nesse corpo
opaco. Poesia
deve ser cantochão e carrilhão
enchendo a aldeia de esperança,
e ao cair da noite
cada um deve se recolher
e celebrar alianças
e pedir perdão por seus erros.
a vida com assombro.
Poesia tem de ser religião.
Onde tudo parecia hipótese,
a engrenagem recomeça.
Temos de catar os cacos,
varrer a casa, pôr
a mesa para o almoço,
pois chegarão com fome
os que não se ajeitam
num mundo tão estreito.
Só num sussurro
o amor pode ser dito.
Só pé ante pé
se chega ao infinito.
A vida é curta
pra ser desperdiçada
nessa espécie de tráfico.
Os cachorros latiram.
As cortinas de renda
sacudiram com força
pra não esquecermos.
Ainda bem que sinto
o soprar do vento
em minhas veias,
mesmo nesse corpo
opaco. Poesia
deve ser cantochão e carrilhão
enchendo a aldeia de esperança,
e ao cair da noite
cada um deve se recolher
e celebrar alianças
e pedir perdão por seus erros.
HÁ PRAZER (APRAZER)
"There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more."
-- Lorde Byron em "Childe Harold's Pilgrimage"
Há prazer nos bosques sem caminhos,
nas inacessíveis fendas, nos abismos,
pois nós também fabricamos abismos,
mas são espasmos de amador. O amor
só se revela a mil no desapego.
Quando estamos vazios, estamos cheios.
Faz ainda pouco tempo arborícolas,
mais alto subíamos pra abarcar
o horizonte redondo a perder de vista.
Há prazer em ser simples, ser sozinho.
Quando o vento inflige seu chicote
e nos penteia a alma em seu galope
e dizemos adeus ao passado sabido
(pois tudo o que se sabe é morticínio),
boas-vindas damos a esse lote
que é sociedade de um homem só,
não desgarrado ou diferente, mas
em paz com a maré baixa e lúgubre
ou alta e borbulhante e estulta,
ou ainda sem haver maré nenhuma.
A natureza começa pelos pés.
O andar de caranguejo, de viés.
Andar sempre, cavalgar as cercanias,
interrogar a mata e seus atalhos
que levam ao estrondo das cascatas,
que mais se há de querer? Não as gentes
detesto, antes por minha bússola
vou seguindo a trilha solitária
perfumada por árvores antigas
que antes de eu nascer me conheciam.
Aprazer-se com ocupações banais
como aspirar o ar em cachos,
apreciar o vale recortado,
acender um fogo na clareira,
tomar mate na cuia, contar
as dobras infindáveis do riacho,
e amanhã pode não haver mais nada
que tudo já teremos inalado,
até onde Deus, em sua sabedoria,
permitiu que pudéssemos gozar.
There is a rapture on the lonely shore,
There is society where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more."
-- Lorde Byron em "Childe Harold's Pilgrimage"
Há prazer nos bosques sem caminhos,
nas inacessíveis fendas, nos abismos,
pois nós também fabricamos abismos,
mas são espasmos de amador. O amor
só se revela a mil no desapego.
Quando estamos vazios, estamos cheios.
Faz ainda pouco tempo arborícolas,
mais alto subíamos pra abarcar
o horizonte redondo a perder de vista.
Há prazer em ser simples, ser sozinho.
Quando o vento inflige seu chicote
e nos penteia a alma em seu galope
e dizemos adeus ao passado sabido
(pois tudo o que se sabe é morticínio),
boas-vindas damos a esse lote
que é sociedade de um homem só,
não desgarrado ou diferente, mas
em paz com a maré baixa e lúgubre
ou alta e borbulhante e estulta,
ou ainda sem haver maré nenhuma.
A natureza começa pelos pés.
O andar de caranguejo, de viés.
Andar sempre, cavalgar as cercanias,
interrogar a mata e seus atalhos
que levam ao estrondo das cascatas,
que mais se há de querer? Não as gentes
detesto, antes por minha bússola
vou seguindo a trilha solitária
perfumada por árvores antigas
que antes de eu nascer me conheciam.
Aprazer-se com ocupações banais
como aspirar o ar em cachos,
apreciar o vale recortado,
acender um fogo na clareira,
tomar mate na cuia, contar
as dobras infindáveis do riacho,
e amanhã pode não haver mais nada
que tudo já teremos inalado,
até onde Deus, em sua sabedoria,
permitiu que pudéssemos gozar.
BOLSO PROVEDOR
No meu bolso provedor guardo tanta coisa:
a agenda das reminiscências que se mascam,
a chave do portão de dobras rudes,
a caixinha de música alemã,
partituras espalhadas pelo chão,
a poeira de longas caminhadas,
eu turrão, insistente, inquisitivo,
invisível aos que não cultivam álibis,
bem temperado o cravo que Rimbaud
dedilhou no fundo do lago, *
lenço encharcado de chuva plangente,
coleira de cadelinha vira-lata,
relógios derretidos de Dalí **
e dali me esparramei, desci ravinas,
colecionei sedimentos,
varei noites em claro ruminando,
estrelas inquiri, ora direis, ***
sempre cavando no meu bolso provedor:
gilete pra lascar sem piedade,
bola de tênis que ninguém enxerga, ****
caixa de fósforos comprada na Rússia,
flores secas de um livro de meu tio,
eu entretido com meu cachimbo
vendo a lua pulsar com estridor
e desabar sobre mim arrepiado,
um retrato de avós sobre a lareira,
um terço para o sétimo dia,
garranchos que eu fazia antes mesmo
de a manhã acinzentar o pátio,
colírio pra ver tudo colorido,
trava-línguas do mano Caetano,
saudades da mulher de franja,
perfume de contrabando,
eu contente como um bugio,
cada vez mais nu e mais ladino,
sempre buscando por GPS
a encruzilhada onde os carros colidem
e onde verei meu fim. Mas antes
há tanta coisa ainda a ser palpada
nas pregas do meu bolso provedor!
* Arthur Rimbaud: "Je voyais très franchement une mosquée
à la place d'une usine, une école de tambours faite par des anges,
des calèches sur les routes du ciel, un salon au fond d'un lac".
** "La persistencia de la memoria", de Salvador Dalí (1931).
*** Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!"
**** O filme "Blow-up", de Antonioni, termina com uma cena intrigante
em que duas pessoas jogam tênis com uma bola invisível.
a agenda das reminiscências que se mascam,
a chave do portão de dobras rudes,
a caixinha de música alemã,
partituras espalhadas pelo chão,
a poeira de longas caminhadas,
eu turrão, insistente, inquisitivo,
invisível aos que não cultivam álibis,
bem temperado o cravo que Rimbaud
dedilhou no fundo do lago, *
lenço encharcado de chuva plangente,
coleira de cadelinha vira-lata,
relógios derretidos de Dalí **
e dali me esparramei, desci ravinas,
colecionei sedimentos,
varei noites em claro ruminando,
estrelas inquiri, ora direis, ***
sempre cavando no meu bolso provedor:
gilete pra lascar sem piedade,
bola de tênis que ninguém enxerga, ****
caixa de fósforos comprada na Rússia,
flores secas de um livro de meu tio,
eu entretido com meu cachimbo
vendo a lua pulsar com estridor
e desabar sobre mim arrepiado,
um retrato de avós sobre a lareira,
um terço para o sétimo dia,
garranchos que eu fazia antes mesmo
de a manhã acinzentar o pátio,
colírio pra ver tudo colorido,
trava-línguas do mano Caetano,
saudades da mulher de franja,
perfume de contrabando,
eu contente como um bugio,
cada vez mais nu e mais ladino,
sempre buscando por GPS
a encruzilhada onde os carros colidem
e onde verei meu fim. Mas antes
há tanta coisa ainda a ser palpada
nas pregas do meu bolso provedor!
* Arthur Rimbaud: "Je voyais très franchement une mosquée
à la place d'une usine, une école de tambours faite par des anges,
des calèches sur les routes du ciel, un salon au fond d'un lac".
** "La persistencia de la memoria", de Salvador Dalí (1931).
*** Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!"
**** O filme "Blow-up", de Antonioni, termina com uma cena intrigante
em que duas pessoas jogam tênis com uma bola invisível.
domingo, 22 de setembro de 2013
VOCAÇÃO DE FELICIDADE
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui."
-- Fernando Pessoa
Pra ser feliz,
seja infeliz. Abra
as janelas para o infortúnio.
O mal desdobra serpentinas
e tatua nossos corpos
atados à roda (segundo Dylan Thomas).
Mas a alma sobrevive.
A roda gira sem sabermos
o lote que nos coube:
se farto ou suficiente
como sopa morna,
se amargo ou fatal
quando o raio despenca no quintal.
Ao invés de horizontalizar a vida,
melhor deixar que seja vertical.
Pra ser rico,
seja pobre. Abra
a porta para os catadores de latinhas.
Jejue, seja sincero,
aposte no nhoque da sorte.
A porta é estreita, e mil sonhos
passarão pelo buraco da agulha
antes que qualquer coisa se anuncie.
É cedo. Os subúrbios
se mexem com estridência
(e os cúmulos parecem corroborar isso)
gerando mais um dia, mesmo
as florestas sendo dizimadas.
Ao invés de erguer galo dos ventos,
tente cavar embaixo.
Pra ser sábio,
seja idiota. Abra
os olhos para o que existe
em potência, magnificência:
a higiene básica
de nada saber. Higiene
deve ser o mais alto anseio.
Idiota é aquele que abarca
toda a realidade em sua arca.
Enquanto isso, na cidade
outras pessoas fincaram
raízes e, nos anos
que lhes cabem, tentarão formular
(guirlandas de uma janela a outra) *
sua vocação de felicidade.
* Arthur Rimbaud:
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher;
des guirlandes de fenêtre à fenêtre;
des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse".
Teu exagera ou exclui."
-- Fernando Pessoa
Pra ser feliz,
seja infeliz. Abra
as janelas para o infortúnio.
O mal desdobra serpentinas
e tatua nossos corpos
atados à roda (segundo Dylan Thomas).
Mas a alma sobrevive.
A roda gira sem sabermos
o lote que nos coube:
se farto ou suficiente
como sopa morna,
se amargo ou fatal
quando o raio despenca no quintal.
Ao invés de horizontalizar a vida,
melhor deixar que seja vertical.
Pra ser rico,
seja pobre. Abra
a porta para os catadores de latinhas.
Jejue, seja sincero,
aposte no nhoque da sorte.
A porta é estreita, e mil sonhos
passarão pelo buraco da agulha
antes que qualquer coisa se anuncie.
É cedo. Os subúrbios
se mexem com estridência
(e os cúmulos parecem corroborar isso)
gerando mais um dia, mesmo
as florestas sendo dizimadas.
Ao invés de erguer galo dos ventos,
tente cavar embaixo.
Pra ser sábio,
seja idiota. Abra
os olhos para o que existe
em potência, magnificência:
a higiene básica
de nada saber. Higiene
deve ser o mais alto anseio.
Idiota é aquele que abarca
toda a realidade em sua arca.
Enquanto isso, na cidade
outras pessoas fincaram
raízes e, nos anos
que lhes cabem, tentarão formular
(guirlandas de uma janela a outra) *
sua vocação de felicidade.
* Arthur Rimbaud:
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher;
des guirlandes de fenêtre à fenêtre;
des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse".
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
AINDA BEM QUE VIVO
Ainda bem que vivo
num país de jovens, Pão de Açúcar
comandando a fermentação,
e na rebentação do dia
mais um moleque aprendeu o ritmo
e uma garotinha concebeu a resposta
que muitos velhos procuraram em vão.
Uma garotinha do Recife
gerou todo um vocabulário novo
não por inflexão escolástica,
mas a partir de seus intestinos,
seus membros franzinos,
seus olhos de íris branca,
sua aposta firme na esperança.
Nosso maior investimento
é ter filhos. E cuidar
pra que herdem um mundo melhor:
com menos corrupção e trapaça,
menos coerção e ameaça,
menos poluição e fumaça,
mas também sem cooptar:
somos filhos de nossos filhos.
Cada bebê é cartaz
a dizer impiedosamente
onde foi que erramos,
nosso medo, nossa amargura
diante de tudo o que sonhamos
nos tempos da ditadura.
Vida dura décadas dura,
mas estamos em boas mãos:
e elas não se coadunam por nós,
mas através das redes sociais:
e tudo o que parecia hoje
virou ontem. Como
colossos avultam esses seres
tão frágeis e alegres,
com a legitimidade da infância,
a clarividência da adolescência,
o tesão da juventude
que em tudo encontra amplitude
e reativação e revolta
num futuro sem volta.
num país de jovens, Pão de Açúcar
comandando a fermentação,
e na rebentação do dia
mais um moleque aprendeu o ritmo
e uma garotinha concebeu a resposta
que muitos velhos procuraram em vão.
Uma garotinha do Recife
gerou todo um vocabulário novo
não por inflexão escolástica,
mas a partir de seus intestinos,
seus membros franzinos,
seus olhos de íris branca,
sua aposta firme na esperança.
Nosso maior investimento
é ter filhos. E cuidar
pra que herdem um mundo melhor:
com menos corrupção e trapaça,
menos coerção e ameaça,
menos poluição e fumaça,
mas também sem cooptar:
somos filhos de nossos filhos.
Cada bebê é cartaz
a dizer impiedosamente
onde foi que erramos,
nosso medo, nossa amargura
diante de tudo o que sonhamos
nos tempos da ditadura.
Vida dura décadas dura,
mas estamos em boas mãos:
e elas não se coadunam por nós,
mas através das redes sociais:
e tudo o que parecia hoje
virou ontem. Como
colossos avultam esses seres
tão frágeis e alegres,
com a legitimidade da infância,
a clarividência da adolescência,
o tesão da juventude
que em tudo encontra amplitude
e reativação e revolta
num futuro sem volta.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
AINDA BEM QUE ESCREVO
Ainda bem que escrevo
neste idioma críptico que é
a língua portuguesa,
com suas conturbações barrocas
e seus subentendidos sacanas,
suas deficiências cândidas
como quem diz: puxa,
vim aqui pra dizer, mas
o que encontrei são penas de arara
junto com inflexões de brasões
e imponências de bacharel
e todo tipo de fofoca
e glossário de futebol,
conforme Nelson Rodrigues.
Quem escreve em português
nunca será traduzido.
Toda poesia é cifrada.
O enigma nos mirou fixamente
e esfaqueou nosso ventre,
nos fez entregar intestinos.
Afinal, o que é traduzir?
Talvez dormir com a mulher do vizinho,
a excitação de trair,
se imiscuir com a tribo alheia,
sendo que em princípio
todos somos alheios. Nascemos
na floresta do alheamento,
conforme Fernando Pessoa.
Que idioma mais lindo
em leito mais reles!
Os últimos serão os primeiros.
Vocês se enganam ao imaginar
que tenho algo a dizer. Quem sou?
Essa algaravia é garapa
de uma cana amassada
por muitas mãos, quase sempre
morenas, altivas
e teimosas ao extremo,
mas com senso de humor.
Sem esquecer a brisa
que nos acalma e batiza,
conforme (São) Vinicius.
neste idioma críptico que é
a língua portuguesa,
com suas conturbações barrocas
e seus subentendidos sacanas,
suas deficiências cândidas
como quem diz: puxa,
vim aqui pra dizer, mas
o que encontrei são penas de arara
junto com inflexões de brasões
e imponências de bacharel
e todo tipo de fofoca
e glossário de futebol,
conforme Nelson Rodrigues.
Quem escreve em português
nunca será traduzido.
Toda poesia é cifrada.
O enigma nos mirou fixamente
e esfaqueou nosso ventre,
nos fez entregar intestinos.
Afinal, o que é traduzir?
Talvez dormir com a mulher do vizinho,
a excitação de trair,
se imiscuir com a tribo alheia,
sendo que em princípio
todos somos alheios. Nascemos
na floresta do alheamento,
conforme Fernando Pessoa.
Que idioma mais lindo
em leito mais reles!
Os últimos serão os primeiros.
Vocês se enganam ao imaginar
que tenho algo a dizer. Quem sou?
Essa algaravia é garapa
de uma cana amassada
por muitas mãos, quase sempre
morenas, altivas
e teimosas ao extremo,
mas com senso de humor.
Sem esquecer a brisa
que nos acalma e batiza,
conforme (São) Vinicius.
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