quarta-feira, 17 de julho de 2013

TODO POETA 2

Todo poeta tenta
falar como criança, os lábios
ainda roxos do parto,
a síndrome de ter de respirar,
se acostumar com a ingestão de ar,
o ar que nos anima
e rimas nos ensina.

Falar como criança, os lábios
ainda presos em secura
porque em princípio éramos
destinados à mudez,
mas o sol nos deu vida
que parecia impossível,
tíquete só de ida.

Falar como criança, orgânica
a ligação entre os lábios
e o sentido, oclusivas
as relações entre mim e o mundo,
entre o que sou e desejo,
até o fato de o desejo
ser só circunstância verbal.

Falar como criança, grudando
nossa fala à realidade,
o desejo primal
de que a realidade se case
com nossa boca em brado
bem articulado
do ponto de vista muscular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário