domingo, 9 de junho de 2013

GILBERTO GIL

Um menino desceu a ladeira
na cidade de tantas igrejas,
tantos paralelepípedos,
tantos atracadouros,
tantos vai-por-aí,
tantos no mar esvair-se.


Foi em Água de Meninos,
palco do massacre dos Malês.


Chegado embaixo,
o menino percebeu
que não suportava saudades,
que sua dentição era
de um Brasil pós-branco
e pós-banto, um Brasil
de meandros raiarem.


Embaixo, ele se defrontou
com um asteroide
de brilho cegante
e percebeu que era ET
visitante, numa encarnação
capaz de refazer a Criação.


Sempre refazer, repescar,
com o ônus de tantos amores,
a Bahia-Mãe e suas cores,
a Iemanjá babando espuma
que fermenta e vira uma
presentificação.


Violão, o menino
então se apossou do violão,
fez valer sua empáfia,
sempre alçando a voz
em direção à noção
de outro se pensar.


Sambou na sílaba terna
de um gingado gostoso
e na lua nova
pronto, já era Gil,
arauto da tribo,
tecelão das canções.


Gil, acho que a fruta
que melhor te define
é o abacate. Pudico
em sua casca fina,
guarda polpa tão doce
de verde verdadeiro,
capaz de saciar.


Ali sempre estará
em nosso itinerário.


Gil, me deixa
ser tua noiva pra sempre,
lavar teus pés
na curva do regato
e ouvir teus reggaes
regando a seara
e fazer oferendas
de flores e frutas
pra quem mais chegar.

JIMI HENDRIX

O príncipe etíope trouxe seus babados,
trouxe suas miçangas, suas poções,
suas defumações para o ritual.
Trouxe sobretudo o mestre dos tambores,
sentado entre os totens dos mortos
que ele faz reviver machucando.


São só três sacerdotes
na arena de cem mil seguidores
tentando invocar a grande deusa,
verter o sangue estancado nas veias,
aprender com o jaguar
no místico fervor de suas patas.


Sempre admirei a nonchalance
do príncipe premeditando
o solo animal, compenetrado
no fine-tuning de seu equipamento,
a guitarra como um cetro
desafiando a ordem do universo.


Primeiro vem o statement
grave e rouco, mas pausado, fazendo
tremer o chão das abstinências,
na verdade solapando
qualquer vestígio de antes
no silêncio da congregação.


É uma limpeza necessária
pontuada pelo baixo nervoso
e pelos tambores em êxtase
de um rapazinho suado
e todos com seus trajes estampados
pra saudar o sol
no último dia de todos
os últimos, na consagração
de Woodstock (a fazenda de Yasgur).*


Quando encontra uma brecha,
o príncipe solta o solo
percutindo cordas que ele
faz doer uma a uma,
numa suspensão em sendo breve
até outra onda que nos leve.


E ataca de novo
e de repente parece que a guitarra
fala sozinha, e são dois
amantes ali no palco,
um só incitando
enquanto o outro parece finalmente
ter encontrado sua razão de ser,
a guitarra dizendo a vida com
seus desvãos e suas maravilhas,
tudo no ritmo bem demarcado
de um orixá que sabe mais.


* Max Yasgur (1919-1973)
era o dono da fazenda onde aconteceu
o festival de Woodstock em 1969

NAPALM

(para Stanley Kubrick)

O estrondo é oblíquo
porque fez tudo convergir
para um único ponto de dor,
uma única ferida.


As árvores agora se soldaram
numa cortina de chamas
chorando fumaça como sangue
e pedindo socorro.


Os caminhos se enlamearam.
O mundo se calou
como um homem no patíbulo
esperando pelo sacrifício.


Como pode só um jato
varrer terrenos vastos
onde crescia o mato
e as crianças brincavam?


A guerra é a assinatura
de deuses ciumentos
de nossa felicidade na terra,
nossa soberba,


achando que o mundo nos pertence
quando nos é que pertencemos
a um hálito
nos varrendo.


Napalm é algo que derrete
e gruda na alma da gente,
algo que nos denuncia,
nos presentifica.


Amanhã não haverá mais
nem memória de rios,
nem qualquer tipo de navegação
entre vizinhos.


Amigos, inimigos, que importa
agora que soou o apito
e veremos a morte
no meio dos fogos de artifício?


Talvez só o que valha
no momento do fim
seja uma lembrança de cores
e ritmos conhecidos.


Isso que aconteceu
solapou tudo o que sabíamos.
Mas parece que sobrou alguém
pra filmar o aftermath.


Parece que sobrou Stanley
cuja lente se manchou de sangue,
e a mente, buscando outra
vertente, se manchou também.

GOSTO DE FALAR

Gosto de falar
sobre as coisas que nunca se ajeitam.
E como haveriam de se ajeitar?
Não escolhi ser quem sou.


Você pode maldizer este pavimento,
descer até o porão, mas
há um porão por baixo dele.
E poucos sabem onde fica o chão.


Chão é o que nos falta.
Sem chão, estamos sempre em queda
livre com comparsas esquisitos
que acham graça nisso.


Gosto de falar
sobre coisas se movimentando
na cerração. Não têm contornos,
mas talvez sirvam de lição.

PRIMEIRO AMOR

Só o primeiro amor é verdadeiro.
Só o primeiro verde deixa marca.
Ele nos condena eternamente
a enxergar o vazio que nos abarca.


O passado nos fatia como faca.
O futuro é só contrafação.
O presente é a flecha do arqueiro
tentando definir a direção.


Somos passageiros desta barca
impulsionada pela maré cega.
A fé se dá no meio da refrega,
em nosso dia de alegria parca.

SOMOS SETE BILHÕES

Somos sete bilhões
que comem primeiro,
depois sentem o gosto.
Nosso destino
é enquadrar o mundo
pra nele vermos nosso rosto.


Somos sete bilhões
de tanto vigor,
tanta sede de conquista
mas sempre à deriva,
à espera de que o mar
nos traga notícias.


Somos sete bilhões
interconectados,
percorrendo pampas
até onde nos foi dado,
um pedindo ao outro
um dizer mais claro.

A MULHER PASSOU DEPRESSA

A mulher passou depressa
com seu carrinho de bebê.
O homem consultou ponteiros,
depressa também.


A mulher vê no bebê
a verdade do que vê.
O homem vê no quadrante
o futuro do que crê.


Na baldeação,
mulher e homem se afastam
de um lado cada.
Depressa, pra variar.

CADA UM POR SI, DEUS CONTRA TODOS

No meu terreiro só caibo eu.
Acionei a matemática
pra que ninguém me desvendasse
sob os óculos.


Qualquer coisa que ocorra
para além deste perímetro
nunca poderá ser minha.
Nem meu será qualquer ditame.


Deus, quando criou, separou.
Temos sido diferentes
desde a aurora das gerações
em nosso cerne mais cru.


A memória não nos ajuda.
Do outro lado da colina
vive uma desconhecida tribo.
E é tanto mais desconhecida
porque a mirar-nos nos obriga.

ANJOS ANÔNIMOS

(para Juvenal de Souza Neto,
"flagrado pela vida em abandono,
porque nossa vida não tem dono")


Os anjos não se sabem.
Também, como haveriam
de se saber se são anteriores
a toda representação,
sílabas balbuciadas,
gestos toscos
dos quais nos arrependemos depois?


Anônimos, eles vagueiam
quase sem sentir por onde andam
e ao cruzar com eles
você poderia achar
ter sido bafejado.


Pobres anjos,
aqui na Terra são só
vítimas de sequestro,
esquecidos de sua origem.


Por mais que tenham vindo
de uma instância mais nítida,
não podem quase nada
contra nossa obstinação,
e por isso se eclipsam.

HOJE EU SONHEI COM ANTES

Hoje eu sonhei com antes
e materializei depois.
Sou eu, não te espantes.
Somos um, somos dois.


É uma trama de instantes.
Foi aqui, depois foi-se.
Sou eu, não te espantes.
Um é igual a dois.


Quem vier com grilo
dizendo isto ou aquilo
se engana no já.


Sou precário, sou frila,
mas continuo na fila
em direção ao AH.

NA RESSACA, A ALMA SE ESPRAIA

Na ressaca, a alma se espraia
sinuosamente, como arraia.
É a alma, meu Deus, e onde caia
vai tecer uma nova cambraia.


É a alma, meu Deus, e seu signo
se revelou a mim, que sou indigno.
O vaticínio pode ser benigno
ou pode ser coisa do Maligno.


Não tenho medo do Demo, nem de Deus.
São metades da mesma laranja.
O que houve antes vai haver depois.


Melhor meia resposta, meio adeus,
ainda que no limite desta franja.
E o resto vai valer entre nós dois.

A RASPA DO TACHO

Só me reconheço pela raspa.
Improvável de no tempo cápsula.
A poça reflete a galáxia.
O silêncio tem grande eficácia.


Será que preciso de um aviso?
Não conheço sentido, nem siso.
Só conheço o avesso teimoso
cavando seu túnel pouco a pouco.


Tudo isso é quinquilharia.
Vocês vão dizer que estou louco.
Confundi o fim com o começo.


Toda sabedoria tem seu preço.
Sobretudo neste informe oco,
na esperança de ganhar corpo.

NÃO ACEITE O OURO

Não aceite o ouro: crie o seu.
Cada ser carrega seu tesouro.
Qualquer pólvora leva ao estouro.
Qualquer semente brota e já cresceu.


Você é santo só por ser você.
Um respiro basta pra sentir.
A alegria mora no porvir.
E não é necessário um porquê.


Uma rosa é uma rosa é uma rosa
(dizia Gertrude) e a poesia
pode ou não se converter em prosa.


Basta abrir o braço do compasso
agora, neste átimo, no espaço
de uma antemanhã maravilhosa.

ALQUIMISTAS

Os alquimistas depuram
pra chegar ao mínimo.
As feridas supuram
por efeito químico.


Nosso ouro é falho.
Só a dor separa
o joio do trigo,
silêncio e barulho,
riqueza e bagulho.


Os alquimistas sabem
que a vida é esteira
de sendas estreitas.


Nesta confusão,
há que sancionar
o sim e o não.

NEM TUDO FOI DITO

Nem tudo foi dito,
mas tudo foi falado.
O dizer do infinito
é silêncio ao quadrado.


Falar é tão fácil.
Dizer é complicado.
O balbucio é ágil,
mas o discurso empaca.


Somos só protótipos.
Esses tolos tópicos
não enganam, não.


Falem quanto queiram.
A fala corriqueira
não tapa o clarão.

MEÇO MEU TEMPO

Meço meu tempo por poemas ditos.
Dito meus versos no escoar dos dias.
Conto o que sei na véspera do grito.
E a deadline se inscreve nos escritos.


Pauto meus textos por momentos idos.
Avanço devagar, sílaba a sílaba.
Fabrico coração de minhas tripas.
Dói lá no fundo o versejar aflito.


Conto meus dias por poemas lidos.
Lido com o tempo no tecer das linhas.
Os anos se emaranham em suspiros.
Os versos não respondem aos avisos.

SOBRE A TORÁ

Da Torá não me arredo,
por mais que no céu se armem grossos cúmulos.
Boeings explodem em pleno ar.
Nenhuma caixa-preta há de explicar.


Da Torá não me afasto,
mesmo quando o vento sopra contra nos subúrbios.
Adamastores se alevantam
contra nós que só temos camisas gastas.


Da Torá não abro mão
sob a poeira que os tornados armaram.
Racionar não é solução.
O que se poupa só diminui.


O que se cala faz inchar os gânglios.
O tsunami pode engrossar de súbito.
Mas a Torá é meu pilar.
Aqui, acolá e em qualquer lugar.


Da Torá não desisto,
embora o câncer se acrisole no intestino.
Os inimigos agem de dentro,
tentando desvirtuar nosso destino.


A Torá é couraça
pra quem não tem noção de aonde irá.
Existem marcos
na estrada que leva à redenção no já.


A Torá é amuleto
para os presos num congestionamento,
como no filme Weekend de Godard.
Me dá enjoo só de lembrar.


Nossa arrogância é pasto para os corvos.
Suspiraremos no batalhão dos mortos.
E o corpo dos que morrem é só isso:
lembrete, murmúrio, oxalá.

ESTOU DORMINDO

"Please don't wake me,
no, don't shake me,
leave me where I am.
I'm only sleeping."
-- Lennon/McCartney


Estou dormindo, mas meu peito vela
no piche da noite,
tentando decifrar
percepções borradas,
cálculos infinitesimais
se repetindo em
loops
que não dão em nada.
O Inferno é a repetição.


O Pé-de-Pato se diverte
nos fazendo andar em círculo.
O Demônio fatura
em cima de nosso atraso.
Podemos abrir a janela,
mas o ar que respiramos
é impregnado de salitre
e metais pesados.


Estou dormindo, mas minha boca arde
como se o amargor de outras bocas
ali se concentrasse. Não adianta
dar o alarme, acordar os vizinhos,
publicar anúncios nos jornais.
A cidade tem muros eletrificados.
Os donos do pedaço já se adiantaram.


O Pé-de-Pato se diverte nos fazendo
comer pão amanhecido,
desdobrar coisas sabidas.
Mas não adianta.
Por trás da cortina
do chuveiro gritaremos
como no filme Psicose.


E assim azeitamos a engrenagem,
correndo atrás.
Estou dormindo, mas meu peito vela
no piche da noite,
tentando decifrar.

SALMO PARA WALT WHITMAN

Walt usava versos bem compridos, versos que vêm do coração.
Versos que irrompem de uma bolha da qual não se tem noção.


Walt foi um homem democrático, irracionalista, pé no chão.
Mas também há racionalidade no amor de irmão para outro irmão.


Walt era barbudo... meu parente, meu espelho, meu profeta!
Quem me dera ter barba e cabeleira... num século tão careca.


Walt foi um desbravador, um subversivo, um pioneiro.
Talvez tenha nascido nos EUA, mas no fundo era brasileiro.


Sua voz tinha a potência das ervas e rebentos,
tudo o que o mundo é, toda a natureza e seus eventos.


Se é pra explicar alguma coisa, melhor explicar tudo.
Por mais que seja estranho, ou rude, ou feio, ou cabeludo.


Walt não tinha medo de nada: era argonauta!
Era um homem chão, ignorante, incrédulo, sem mancha e sem falta.


Walt foi um alto-falante, mas sem tecnologia.
Era a voz que vem da fonte, da veia, da dor, da alegria!


Walt Whitman, és meu filho, meu pai e meu vizinho.
Todos os dias te digo alô com respeito e carinho.


Walt, aqui estás em carne e osso, até que enfim.
Te esperei desde antes de nascer, e agora sim.


Diante de Walt, sou apenas testemunha, sou cronista...
Mas a vida recomeça de fato a cada nova entrevista...

JARDINS SOB A CHUVA

(para Vincent van Gogh)

O pé-d'água fez borrar a aleia,
com seu cheiro impregnando a veia.
A chuva nos congrega netse bojo,
destilando um fermento outro.


O vento penteia este quintal.
É um vento caprichoso, em espiral.
Talvez Vincent soubesse
interpretar a cor deste sinal.


Dá-me campos de tulipas, dá-me
aleias a perder de vista, dá-me
o bulbo da esperança como nuvem,
desvendando-se sob a penugem.


Sou ave (todos somos), sou pomba
mais reles arrulhando pronto
pra esse ardor nunca perder de vista,
minha origem aqui, nesta visita.