O príncipe etíope trouxe seus babados,
trouxe suas miçangas, suas poções,
suas defumações para o ritual.
Trouxe sobretudo o mestre dos tambores,
sentado entre os totens dos mortos
que ele faz reviver machucando.
São só três sacerdotes
na arena de cem mil seguidores
tentando invocar a grande deusa,
verter o sangue estancado nas veias,
aprender com o jaguar
no místico fervor de suas patas.
Sempre admirei a nonchalance
do príncipe premeditando
o solo animal, compenetrado
no fine-tuning de seu equipamento,
a guitarra como um cetro
desafiando a ordem do universo.
Primeiro vem o statement
grave e rouco, mas pausado, fazendo
tremer o chão das abstinências,
na verdade solapando
qualquer vestígio de antes
no silêncio da congregação.
É uma limpeza necessária
pontuada pelo baixo nervoso
e pelos tambores em êxtase
de um rapazinho suado
e todos com seus trajes estampados
pra saudar o sol
no último dia de todos
os últimos, na consagração
de Woodstock (a fazenda de Yasgur).*
Quando encontra uma brecha,
o príncipe solta o solo
percutindo cordas que ele
faz doer uma a uma,
numa suspensão em sendo breve
até outra onda que nos leve.
E ataca de novo
e de repente parece que a guitarra
fala sozinha, e são dois
amantes ali no palco,
um só incitando
enquanto o outro parece finalmente
ter encontrado sua razão de ser,
a guitarra dizendo a vida com
seus desvãos e suas maravilhas,
tudo no ritmo bem demarcado
de um orixá que sabe mais.
* Max Yasgur (1919-1973)
era o dono da fazenda onde aconteceu
o festival de Woodstock em 1969
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