(para Stanley Kubrick)
O estrondo é oblíquo
porque fez tudo convergir
para um único ponto de dor,
uma única ferida.
As árvores agora se soldaram
numa cortina de chamas
chorando fumaça como sangue
e pedindo socorro.
Os caminhos se enlamearam.
O mundo se calou
como um homem no patíbulo
esperando pelo sacrifício.
Como pode só um jato
varrer terrenos vastos
onde crescia o mato
e as crianças brincavam?
A guerra é a assinatura
de deuses ciumentos
de nossa felicidade na terra,
nossa soberba,
achando que o mundo nos pertence
quando nos é que pertencemos
a um hálito
nos varrendo.
Napalm é algo que derrete
e gruda na alma da gente,
algo que nos denuncia,
nos presentifica.
Amanhã não haverá mais
nem memória de rios,
nem qualquer tipo de navegação
entre vizinhos.
Amigos, inimigos, que importa
agora que soou o apito
e veremos a morte
no meio dos fogos de artifício?
Talvez só o que valha
no momento do fim
seja uma lembrança de cores
e ritmos conhecidos.
Isso que aconteceu
solapou tudo o que sabíamos.
Mas parece que sobrou alguém
pra filmar o aftermath.
Parece que sobrou Stanley
cuja lente se manchou de sangue,
e a mente, buscando outra
vertente, se manchou também.
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