quinta-feira, 26 de setembro de 2013

BOLSO PROVEDOR

No meu bolso provedor guardo tanta coisa:
a agenda das reminiscências que se mascam,
a chave do portão de dobras rudes,
a caixinha de música alemã,
partituras espalhadas pelo chão,
a poeira de longas caminhadas,
eu turrão, insistente, inquisitivo,
invisível aos que não cultivam álibis,
bem temperado o cravo que Rimbaud
dedilhou no fundo do lago, *
lenço encharcado de chuva plangente,
coleira de cadelinha vira-lata,
relógios derretidos de Dalí **
e dali me esparramei, desci ravinas,
colecionei sedimentos,
varei noites em claro ruminando,
estrelas inquiri, ora direis, ***
sempre cavando no meu bolso provedor:
gilete pra lascar sem piedade,
bola de tênis que ninguém enxerga, ****
caixa de fósforos comprada na Rússia,
flores secas de um livro de meu tio,
eu entretido com meu cachimbo
vendo a lua pulsar com estridor
e desabar sobre mim arrepiado,
um retrato de avós sobre a lareira,
um terço para o sétimo dia,
garranchos que eu fazia antes mesmo
de a manhã acinzentar o pátio,
colírio pra ver tudo colorido,
trava-línguas do mano Caetano,
saudades da mulher de franja,
perfume de contrabando,
eu contente como um bugio,
cada vez mais nu e mais ladino,
sempre buscando por GPS
a encruzilhada onde os carros colidem
e onde verei meu fim. Mas antes
há tanta coisa ainda a ser palpada
nas pregas do meu bolso provedor!

* Arthur Rimbaud: "Je voyais très franchement une mosquée
à la place d'une usine, une école de tambours faite par des anges,
des calèches sur les routes du ciel, un salon au fond d'un lac".

** "La persistencia de la memoria", de Salvador Dalí (1931).
*** Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!"
**** O filme "Blow-up", de Antonioni, termina com uma cena intrigante
em que duas pessoas jogam tênis com uma bola invisível.

Nenhum comentário:

Postar um comentário