sexta-feira, 20 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE VIVO

Ainda bem que vivo
num país de jovens, Pão de Açúcar
comandando a fermentação,
e na rebentação do dia
mais um moleque aprendeu o ritmo
e uma garotinha concebeu a resposta
que muitos velhos procuraram em vão.
Uma garotinha do Recife
gerou todo um vocabulário novo
não por inflexão escolástica,
mas a partir de seus intestinos,
seus membros franzinos,
seus olhos de íris branca,
sua aposta firme na esperança.

Nosso maior investimento
é ter filhos. E cuidar
pra que herdem um mundo melhor:
com menos corrupção e trapaça,
menos coerção e ameaça,
menos poluição e fumaça,
mas também sem cooptar:
somos filhos de nossos filhos.
Cada bebê é cartaz
a dizer impiedosamente
onde foi que erramos,
nosso medo, nossa amargura
diante de tudo o que sonhamos
nos tempos da ditadura.

Vida dura décadas dura,
mas estamos em boas mãos:
e elas não se coadunam por nós,
mas através das redes sociais:
e tudo o que parecia hoje
virou ontem. Como
colossos avultam esses seres
tão frágeis e alegres,
com a legitimidade da infância,
a clarividência da adolescência,
o tesão da juventude
que em tudo encontra amplitude
e reativação e revolta
num futuro sem volta.

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