(para o sambista Wilson das Neves)
Samba como profissão
não é coisa pra branco.
Mas será?
Ainda lembro a euforia que senti,
mais ao menos aos dez anos de idade,
quando descobri a síncope.
O breque do bumbo! O cavaquinho
solitário chorando,
pedindo esmola ao pandeiro
luxuoso, e a cuíca
subvertendo tudo, e os tamborins
e tantãs anunciando
a deixa do cantor (ou da cantora)
pra falar sobre desilusão
(e com razão).
Samba é roda.
É essencialmente rede social.
Quando o surdo me deixou surdo,
descobri minha tribo.
É difícil definir:
um país de mulatos inzoneiros
em eterna infância,
mas a infância não é a melhor fase da vida?
Deixa de ser branco, rapaz!
Vem brincar com a gente, meu partido
é alto, temos sopros
pra levar a tristeza pra longe
e iluminar a noite
sob as copas frondosas
do terreiro da escola.
Artimanha de maluco ou de malandro,
aposta no jogo do bicho,
sobretudo romance,
requebros de homem e mulher,
pessoal ficou mal falado,
vizinhos reclamaram,
Deus acuda! Mas quem segura
o groove não se cansa nunca:
ter o samba como profissão
é coisa de preto de alma branca
ou branco de alma preta...
Tanto faz como fez...
E se entrar não sai
(já vou avisando) nem a pau
até acabar o carnaval!
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