"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui."
-- Fernando Pessoa
Pra ser feliz,
seja infeliz. Abra
as janelas para o infortúnio.
O mal desdobra serpentinas
e tatua nossos corpos
atados à roda (segundo Dylan Thomas).
Mas a alma sobrevive.
A roda gira sem sabermos
o lote que nos coube:
se farto ou suficiente
como sopa morna,
se amargo ou fatal
quando o raio despenca no quintal.
Ao invés de horizontalizar a vida,
melhor deixar que seja vertical.
Pra ser rico,
seja pobre. Abra
a porta para os catadores de latinhas.
Jejue, seja sincero,
aposte no nhoque da sorte.
A porta é estreita, e mil sonhos
passarão pelo buraco da agulha
antes que qualquer coisa se anuncie.
É cedo. Os subúrbios
se mexem com estridência
(e os cúmulos parecem corroborar isso)
gerando mais um dia, mesmo
as florestas sendo dizimadas.
Ao invés de erguer galo dos ventos,
tente cavar embaixo.
Pra ser sábio,
seja idiota. Abra
os olhos para o que existe
em potência, magnificência:
a higiene básica
de nada saber. Higiene
deve ser o mais alto anseio.
Idiota é aquele que abarca
toda a realidade em sua arca.
Enquanto isso, na cidade
outras pessoas fincaram
raízes e, nos anos
que lhes cabem, tentarão formular
(guirlandas de uma janela a outra) *
sua vocação de felicidade.
* Arthur Rimbaud:
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher;
des guirlandes de fenêtre à fenêtre;
des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse".
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