quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AINDA BEM QUE SINTO

Ainda bem que sinto
a vida com assombro.
Poesia tem de ser religião.
Onde tudo parecia hipótese,
a engrenagem recomeça.
Temos de catar os cacos,
varrer a casa, pôr
a mesa para o almoço,
pois chegarão com fome
os que não se ajeitam
num mundo tão estreito.

Só num sussurro
o amor pode ser dito.
Só pé ante pé
se chega ao infinito.
A vida é curta
pra ser desperdiçada
nessa espécie de tráfico.
Os cachorros latiram.
As cortinas de renda
sacudiram com força
pra não esquecermos.

Ainda bem que sinto
o soprar do vento
em minhas veias,
mesmo nesse corpo
opaco. Poesia
deve ser cantochão e carrilhão
enchendo a aldeia de esperança,
e ao cair da noite
cada um deve se recolher
e celebrar alianças
e pedir perdão por seus erros.

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