Ainda bem que escrevo
neste idioma críptico que é
a língua portuguesa,
com suas conturbações barrocas
e seus subentendidos sacanas,
suas deficiências cândidas
como quem diz: puxa,
vim aqui pra dizer, mas
o que encontrei são penas de arara
junto com inflexões de brasões
e imponências de bacharel
e todo tipo de fofoca
e glossário de futebol,
conforme Nelson Rodrigues.
Quem escreve em português
nunca será traduzido.
Toda poesia é cifrada.
O enigma nos mirou fixamente
e esfaqueou nosso ventre,
nos fez entregar intestinos.
Afinal, o que é traduzir?
Talvez dormir com a mulher do vizinho,
a excitação de trair,
se imiscuir com a tribo alheia,
sendo que em princípio
todos somos alheios. Nascemos
na floresta do alheamento,
conforme Fernando Pessoa.
Que idioma mais lindo
em leito mais reles!
Os últimos serão os primeiros.
Vocês se enganam ao imaginar
que tenho algo a dizer. Quem sou?
Essa algaravia é garapa
de uma cana amassada
por muitas mãos, quase sempre
morenas, altivas
e teimosas ao extremo,
mas com senso de humor.
Sem esquecer a brisa
que nos acalma e batiza,
conforme (São) Vinicius.
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