domingo, 9 de junho de 2013

MASSACRE DE REALENGO

(para Wellington Menezes de Oliveira,
brasileiro imbecil que matou
doze crianças e feriu outras doze
numa escola de Realengo, Rio de Janeiro,
no dia 7 de abril de 2011)


Sou mulato nato.
Não pertenço à nata.
Sou mulato besta,
chegado às drogas.
Podem ser vodca, crack, coca,
ou quem sabe algo mais radical?


Fé xiita...
Artes marciais...
Super-heróis de gibi...
Tudo o que disfarce minha origem,
o cortiço onde moro,
os vizinhos fazendo futrica
e eu sempre apanhando na escola
só por ser mulato órfão,
desengonçado.


Cada mulato feito besta é um
inimigo na próxima esquina.
Vivemos num mundo de pancadaria,
de sequestros-relâmpago,
de arrastões nas melhores cercanias,
motoristas baleados por causa de 100 reais,
nós contra os mulatos em quadrilha,
sendo que mulatos somos também.


Não permitam mendigos nas ruas!
Não permitam crianças nos cruzamentos,
não permitam meninas fazendo aborto,
não permitam violência doméstica,
não permitam trabalho escravo
e sobretudo, na Cidade de Deus,
o Rio de Janeiro de São Salvador,
não permitam trapaça. A corrupção
vem de cima. Não adianta
castigar os de baixo.


E acima de tudo celebremos
o sargento Márcio Alves,
meu amigo mais íntimo,
autor do disparo
que deteve o assassino.

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