(para Chico Buarque de Hollanda)
Chico desatinou
com seu cancioneiro
escavando a memória.
Nossos sambas e amores.
Nossas valsas, temores.
Chico sambou.
Foi beleza ver.
Veio com chapéu branco
e uma ginga de malandro
que ninguém esqueceu.
Por que falam de militares,
empresários, beldades?
Chico sabia de antemão.
A banda vai passar,
esquentando o chão.
A banda vai passar
polindo as pratas,
renovando as juras
que fizemos nos tempos
da ditadura.
Chico vai passar.
Vai sondar desejos,
confissões,
e o que não se admite
ou o que mais se oculte.
Isso é reportagem.
É invasão de
domicílio. Chico sabia
que ânsia se esconde
no coração ambíguo.
Chico conhecia
sobretudo a mulher.
Pode ser Bárbara
ou Carolina,
talvez Iracema,
aquela que falou comigo
no orelhão,
ou outra de lenda,
ou outra bem física,
ou uma ex.
Chico é guru.
Não se enganem, não.
Em sua ribalta
ele soca o bumbo,
arfando muito.
Ele orquestra o abrupto,
no samba oculto.
O dia raiou
e o sol revelou
o que Chico tramou.
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