(para René Lenard e Viviana Bosi)
O amor é núcleo, é noz, é nós, é norte.
É como aquelas forquilhas radiestésicas
capazes de encontrar água no deserto.
As pupilas de meu amor parecem nada
para os pobres coitados que não amam,
mas, pra mim, elas nadam em água,
numa bolsa amniótica-hipnótica
de onde eu miro o mundo lá fora,
pupilas prenhes, cheias, nítidas
como se sempre tivessem existido,
como se o amor fosse predestinação.
Teu olhar velava sobre mim, meu anjo,
antes de eu nascer, e tua boca
soprou sobre mim aquele bafo
que fulminou pra sempre o abandono.
De ti, meu amor, não me separo
como um cão não se arreda de seu dono.
A substância do amor nunca se estraga
por mais que seja luxo escasso
como a dobrada à moda do Porto,
que, segundo Fernando, não se come fria.
Amor é mendicância. Todo amante
é um cego pedindo esmola na esquina.
Hoje eu alimentei as rolinhas,
lavei minha roupa e a estendi no varal,
ouvi o quarteto de Brahms orquestrado por Schoenberg
e em toda parte eu via teu rosto,
meu amor. Ele era meu búzio,
tão pequeno mas capaz de brilhar no escuro,
porque vem do mar, que de novo
é fonte de toda água, que de novo
é fonte de todo amor. Meu bem,
se ainda precisas de mais uma jura,
juro te amar na graça ou na desgraça.
A verdade é que a verdade não cabe em poesia.
Sem ti o sentir é impossível, sem ti
a vida não tem mais sentido.
Nossos fígados conversam na sala de estar.
Um homem me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ele,
ele parecia meio arredio,
meio anguloso nas suas falas,
comia meio de lado, mas então
conheci que ele me conhecia
desde antes de qualquer noção,
e disse a ele: se quiseres,
podes me conhecer, e eu serei tua.
Néscia, neutra, inútil, núbil, nua.
Uma mulher me enlouqueceu. No começo
eu não dava muita bola pra ela,
estranhava seu corte de cabelo,
sua mania de não responder às perguntas,
mas ela me fez pagar caro por esse erro
porque seu olhar se injetou em minha veia.
Sou um junkie. Sou abjeto. Sou dejeto.
Que sufoco, meu Deus!
Sua imagem vejo no trem, no travesseiro.
Pulei o muro do bosque proibido
e subi por um trapo de opereta
até o balcão de minha Julieta.
Eu sei, eu sei.
Todos os poetas tentaram dizer.
Quem sou eu pra dizer alguma coisa a mais?
O amor é polvo de olhar sedoso
como queria Lautréamont, sugando
nossos corpos com dezenas de ventosas.
E aí está, justamente neste dia de festa,
na celebração do corpo esplêndido,
o corpo se esvaiu, foi flechado
como o de São Sebastião, foi sacrificado
num tabernáculo. Duas pessoas
se olham no rosto como se o rosto não existisse,
como se a raça humana fosse inventada agora,
e, pela graça de Javé ou de Jesus, dizem:
estamos juntos, e perdoai nossos pecados. Amém.
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