domingo, 9 de junho de 2013

NOSFERATU

(para Werner Herzog)

Não por mim faço vítimas
mesmerizadas pelo bafo
de minhas narinas,
paralisadas no aperto
de minhas unhas compridas,
sem chão abaixo,
percebendo num calafrio
que existem coisas bem piores
do que a morte. A morte acaba,
mas o horror não tem fim.


Não por mim vivo.
Sinto nojo de meu rosto, e agradeço
ao Demo por eu
inexistir no espelho.
Acho incongruente esse castelo de ogivas
e corredores que se multiplicam
e candelabros que sussurram
e assoalhos que rangem
e batentes que batem.
Onde se faz uma curva, volta-se
para o mesmo lugar. Paredes
parecem suar por suas frestas,
ratos arranham, aranhas
se emaranham, relógios
retrocedem, porque minha danação
é estar suspenso.


Em passo de caranguejo
tomei aldeias de assalto,
sempre em busca da virgem. Sim,
virgem há de ser minha vítima
pela simbiose dos contrários,
pois só num breve suspiro
pode se afogar minha eternidade.


O sangue doado na menstruação
é sangue como ingrediente da poção,
é sangue do soldado em nome da nação,
é sangue conspurcado pela corrupção,
é sangue fresco pra minha refeição.


Virgem será meu repasto
como virgem foi a mãe de Deus,
como virgens fomos ao nascer
e virgens seremos no caixão.
Benditos os que morrem,
porque ao menos se despedem
e os outros se despedem deles. Mas eu
não conheço despedida.
Meu destino é espera, agonia, destruição.


E quando me matarem
pelo baque seco da estaca
em meu peito de mármore
até o coração gelado,
será um favor que me fazem.

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