sábado, 8 de junho de 2013

MÃOS

(para Alfredo Bosi)

Mãos humanas são coisa difícil
de entender. Por estarem ocupadas
em atividades diferentes,
medindo ou pedindo, espremendo,
fabricando o que todos julgam útil,
arando, orando, erguendo velas,
sacudindo colchas, abrindo janelas,
colhendo o que mais se consubstancia,
nunca se pode decifrá-las. Mesmo
em repouso estão ativas. Ossos
pequenos, engenhosamente
ajeitados entre cartilagens
e sobretudo nervos, porque o cérebro
faz viver o coração, que faz viver
as vísceras, que fazem viver
as mãos. E os dedos
não parecem coordenados,
cada um parece ter vida própria,
o mínimo apontando pra cima,
o anular que fez valer o si bemol,
o médio guerreiro, desafiando,
o indicador dono de saberes eruditos
e o polegar que nos permite pegar
e nos fez sapiens. De outras eras
vieram os dedos contando tudo isso
e ali onde mais se exercitam,
fabricando amor e torturando,
escalavrando portas e tumbas,
tocando tocatas, construindo bombas,
acusando, colando-se à testa,
pedindo um pouco mais de carinho,
articulando-se como patas de aranha,
sim. Das aranhas viemos
por sermos seres inclusivos,
porque as mãos nos incluem
no universo talvez possível de apalpar
mas que também nos apalpa,
e a mão espalmada talvez seja isso:
busca de outra mão pra continuar.

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