Quero escrever tudo atravessado.
Fatiar a poesia em sua carne.
Não pela frescura de dizer algo novo,
mas pela chance de exprimir escárnio.
A poesia é mercadoria ingrata,
coisa que os feirantes jogam na rua.
Na hora da xepa, vale a coisa nua:
o da poesia amargor interminável.
O poeta talvez seja um pária.
Quem se importa com beletrística
num país de fogos de artifício?
Num país de festa e campeonato?
O profundo é confundido com o chato.
Depois não reclamem quando o mato
tomar conta do quintal.
Depois não reclamem quando o bairro
virar terreiro de marginais.
A poesia é justamente isso: um quintal
que, segundo Voltaire, temos de cultivar.
Nosso povo é pacífico.
Nossas mulheres são lindas.
Ninguém discute isso.
Mas as palavras não bastam.
Gramática até parece xingo.
Poesia é negócio da China.
Enquanto me deixarem, sim,
serei feliz poetando,
mesmo sendo o único ouvinte.
Foi assim com Vinicius, Caymmi.
Eles poetavam por aflição,
não por desejo de recompensa.
Diante de um povo tão lindo,
nação brasileira tão garrida,
eu diria até:
poetavam por obrigação.
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