Não será toda poesia
um jeito de encher linguiça
com as partes do porco,
sua banha fremente,
seu sangue quente,
seu focinho abelhudo
fuçando onde não é chamado,
suas patas bifurcadas
que ignoram o terreiro
e pisam no barro
de onde Deus fez Adão
como um espelho pra nos mirarmos?
Não será toda poesia
barbante amarrado no dedo,
beliscão no braço,
lembrete do tempo
em que podíamos brincar
no amplo da várzea,
sem camisa, entre camaradas,
com um "gol" que eram só duas pedras
postas de cada lado,
sem esperança pro dia seguinte
que depois se revelou
um jogo de cartas marcadas?
Não será toda poesia
mera protelação,
rastejar no cano pra encontrar outro cano,
depois um respiradouro
como se a vida fosse só sobrevivência,
como se fôssemos, justamente,
porcos num cercado,
nos reconhecendo implicitamente
mas sem visualizar
o que haja do outro lado,
independente de ser simples
ou complicado?
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