domingo, 9 de junho de 2013

SAÚDE PRA DAR E VENDER

(para meu falecido avô Arnaldo)

Na minha infância havia
um Natal de bolas cheias,
bolas de vermelho e verde
que eu nunca tinha visto.
Foram embalagens
com brilhos que me deslumbraram
e aquela mesa de iguarias,
mais do que se pode comer.


O presente era a fome
celebrada como presente,
como doação de tantos parentes
cheirando alegremente a sabonete.
Formávamos ali uma redoma
desafiando qualquer convulsão,
eflúvios que a noite exalasse
e outras demandas cruciais.


Nosso quefazer era simples:
o peru criado no terreiro,
leite de vaca, milho em pencas,
sendeiros suburbanos, pomar
circundando o campo de bocha,
piadas de salão, as tias
gargalhando na dança das cadeiras,
pois uma em pé sempre restava.


O presente era o tempo
que se detinha na curva do riacho
e parecia indagar: quem sou?
Por que devo correr? Hoje é festa,
só a primeira garrafa foi aberta,
temos nozes e cerejas importadas
e nos limiares do sítio
um vizinho soltou fogos de artifício.


Morteiros, rojões, buscapés,
girândolas pra nos lembrar
que a morte não há de ter domínio.
Eu triste-alegre, enchendo
a boca de bolo confeitado,
tão bem acolhido naquele seio,
mas na verdade perscrutando a estrela
que me fez portador de seu anseio.

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