Ravel compôs um concerto
para a mão esquerda,
dona das oitavas
sem pensar duas vezes,
perolando sobre as teclas negras,
se desmanchando em trinados,
namorando os arpejos,
soberana finalmente,
ambidestra em sua destreza,
questionando o piano,
o teatro e a cidade
para além deles.
Pra entender o som é preciso
entender a dissonância. Reclusa,
com vergonha de si mesma,
confrontada sempre
até provar sua inocência,
a mão esquerda
de nódulos insuspeitos
parece crispada
em sua altivez
porque é arredia
e não tem amigos
e até se surpreende
com o que é capaz de fazer.
O drama nos afeta a todos
e as mãos refletem isso
naquele grunhido
de um amanhecer sinistro
de onde só pode emergir
a mão esquerda afirmando
melodia estridente
mas límpida, voluntariosa
como há de ser toda vontade,
porém dialética
porque conheceu a negação.
As mãos se equivalem
(no projeto de corpo
do homo sapiens sapiens)
nas tarefas simples.
Mas existem recônditos
de expressão bruta
onde é preciso
cavar embaixo
pra trazer à luz do dia
o que a mão esquerda
sabia desde o início
mas não quis revelar,
talvez por pudor
ou instinto de sobrevivência.
E assim se igualam
nossas duas patas
no marfim do teclado
de um modernista
amante do passado,
um dos que entenderam
que a música só vale
em função de um projeto horizontal
onde a mão esquerda
sabe tanto quanto a outra
no afã deste compasso.
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