sábado, 8 de junho de 2013

DEUS DESCONHECIDO

(para Gilberto Gil)

Quem conhece o quê?
Não podemos invocar Deus.
Ele não existiria se o conhecêssemos.
O primeiro hominídeo entendeu
que havia um deus na linha do horizonte
soprando nuvens como manchas na memória,
despedindo raios como talhos sem perdão,
determinando nossa fertilidade,
se amanhã haverá comida pra nossos filhos
e que outras chances teremos no limite.
Mas com esse deus não podemos conversar.

Aprendemos lutando
contra o tigre-dentes-de-sabre.

Macacos medrosos eretos,
já intuíamos o grande mistério,
o universo sem previsão,
o espaço-tempo sempre em expansão.
Então, inventamos deuses mais amenos,
mais parecidos conosco,
deuses que trafegam
entre transações e desejos.

Mas no longe de incompreensível breu
não há desejo, e Deus provavelmente se sujeita
a outros deuses maiores,
tendo nós como coadjuvantes
em busca de calor, comida, abrigo,
chão onde pisar. Talvez Deus
precise de mais calor do que nós.
Talvez ele nem mesmo se conheça.
Não há o invocarmos.
Nos resta sermos nosso próprio Deus.

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