Embalei o tempo
vendo passar o rio na baixada
entre murmúrios e estalos
até surgir ali uma balsa
com seu piloto valente
conhecedor das cabeças d'água
e dos remoinhos onde o tempo atola
sem nunca haver volta.
Depois conversei com ele
num diálogo sem medo
por eu já ter morrido,
acariciando as cartas
naquele perigoso mano a mano,
tentando definir afinal
quem dura mais: a eternidade
encompridada em sua manifestação
aqui física, ou a outra
que só nos cabe sondar?
Sonda, percebi então
que o tempo é sonda, súmula
de uma sequência de irritações
sem importância, antena
feita pra nos medir unicamente,
pra nos testar em nosso percurso
que parece concatenado
em momentos de dor e alegria,
mas do qual, menos o tempo, emergimos
convertidos em alegoria.
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