terça-feira, 4 de junho de 2013

CADA CONTEÚDO

(para Pessoa, sempre)

Cada conteúdo pede
sua forma. Como cada dia
pede sua resposta.
Como cada amante
pede a voz da amada,
ainda que distante,
e cada canção renova
nossa fé posta à prova
de um bem independente
de haver mundo ou gente.


O conteúdo é forma
em potência, agindo
pelo vulcão de dentro
que se casa com as
escarpas do lá fora.
O amor é estalactite
de uma destilação anterior
que carece de prova,
pois todo conteúdo verdadeiro
existe onde se renova.


Nas cavernas da forma
grunhiu um conteúdo.
Moléculas se uniram
por assimilação intempestiva
e mais onde não haveria
voz pra conteúdo tão ínfimo,
vez pra existência tão tímida,
mas o conteúdo logo se destila
e por séculos carrega
ecos de forma indefinida.


A voz começou com um grito.
Conteúdo começou pelo sentido.
Mas qual a diferença
entre sentenciar e sentir?
O que se pode registrar aqui?
Nossa existência é obséquio.
Se existe conteúdo,
é por graça de alguém
que nos deu sopro e abastança
onde a forma parecia antes.


Antes da forma houve conteúdo.
Mas a forma é o fim de tudo.
Fim, graças a Deus. Pois
só onde se cristaliza
uma instância baliza
podemos de novo e sempre
tudo destruir. A vantagem
de conteúdo e forma juntos
é a aposta, ainda que no limite,
de nossa viagem específica.

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