terça-feira, 4 de junho de 2013

CRIANDO VERSOS

(para José Maria Cançado)

Sinto por meus versos
o amor um pouco ansioso,
orgulhoso também, e verdadeiro,
de uma mãe pelos filhos pequenos:
que estejam sempre limpos e escovados
e não passem vergonha,
unhas aparadas, as meninas
de cabelos presos em tranças ou
faixas de cabeça ou maria-chiquinhas,
os meninos sóbrios, de cavanhaque
feito e gel no cabelo, e todos
sabiamente vestidos até onde deu
o dinheiro, munidos de beijos,
conselhos e admoestações.


Da mesma forma o poeta
escova bem seus versos
antes de mandá-los para o mundo,
alinhados na página
com nada que sobre ou que falte,
com o pudor do parágrafo
e a superação do efeito fácil,
às vezes mansos, às vezes agitados,
mas livres de paixões vis,
inveja, mentira,
adulação, mesmice.


A mãe vive agora o que seus filhos
vão viver depois. A surpresa,
maravilha ou decepção,
tudo o que faz rir ou chorar,
o fato de termos um corpo
dono de tantos prazeres,
tantas descobertas insuspeitas,
mas sujeito ao tombo,
o zero de repente,
a suspensão seca
diante de um mundo que não compreendemos.


Assim o poeta se inquieta
quando o verso parece estancar
num lúgrube pantanal
habitado por mortos que
impiedosamente refletem nossa cara.
Como amar um filho que transgrediu?
Como amar um filho que
se revelou autônomo,
independente de tantos cuidados?


Num momento de vácuo, a mãe percebe
que ela é só coadjuvante,
é só testemunha,
de seu ventre dolorido não houve
mais do que tateio.
O anseio ancestral de sermos outros
e porejar beleza
acaba justamente ao vermos
nossos filhos escovados
donos de um vocabulário próprio,
prontos para o bem ou o mal.


E assim o poeta, atônito,
diz adeus à sua cria
e no último instante
ainda tenta ensinar boas maneiras
ou algum tipo de métrica,
mas de repente vê
que ele é apenas carne
soluçante, ao passo que os versos
já se ambientaram nos quarteirões
de uma cidade sem pecado,
compulsoriamente avançando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário