Deus vela enquanto estamos esquecidos,
perseguindo objetivos,
brincando ou errando.
Deus vela faça sol ou chuva
sobre caminhos, descaminhos
e a lâmpada do novo dia.
Ontem foi ayer. Ele nos interroga
em todas as línguas,
inclusive suaíli
(ou sobretudo suaíli).
A linguagem de Deus é enigmática,
cálculo integral,
sondagem abissal.
A linguagem de Deus é matemática.
Não explica, mas desvenda.
Não alivia, mas acende.
Somos homens ocos, como dizia T. S. Eliot.
"Headpiece filled with straw."
(Ou seja, palha recheando o chapéu.)
A palavra de Deus não é ouvida.
Nem no branco desta página,
nem no acolá que não se devassa.
Nos shopping centers da fé
é tantas vezes invocada,
como se fôssemos palhaços.
Mas a porta é estreita.
A larga de nada vale.
É só um jeito de adiar.
Deus fala em monossílabos.
Os escribas tentaram registrar
em pergaminhos.
É estranho uma fala tão parca
para uma realidade tão presente,
tão no tutano dentro.
É estranho um silêncio tão vasto
para um dia a dia tão intenso,
na base do vai ou racha.
Deus vela sobre nossa ignorância,
hierático, egípcio,
sem atentar no precipício.
Deus vela sobre nossa espera
e talvez até se divirta,
divisando nossa queda.
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