Drummond ensinou
palavras simples,
jogadas ao acaso
como búzios.
As trombetas que esperem.
Se um grão de areia
pode conter o mundo,
temos de viver
anteriormente.
Acordar cedo,
fazer consagrações,
pagar promessas,
subir escadarias de joelhos,
verter o sangue em sacrifício
num século tão pouco pio.
Drummond era católico.
Aleijadinho.
Torto,
pois todo discurso
que vem do coração
é necessariamente tortuoso.
Se um discurso se ajeita,
ganha fluxo,
ganha ouvintes,
vai sobreviver
ao tornado
abalando a cidade.
Drummond foi arquiteto.
Amigo das pedras.
Amigo dos bancos de jardim,
do merceeiro da esquina,
o Alves (cruz
na porta da tabacaria).
"Monde" é "mundo" em francês,
"Mond" é "lua" em alemão.
A lua não está
nem na vitrine,
nem na parede pública.
Antes parece
coisa proibida.
Mas não é proibida.
Está na pedra-sabão
de qualquer Aleijadinho,
no caderno escolar
de um mulatinho,
nos rabiscos
do seminarista,
nos sonhos
da manicurista.
Drummond senhor dos sonhos,
nostalgias.
Sentimento fundo
sem romantismo.
As pedras são
nossa matéria-prima.
Se havemos de fundar
uma cidade
(e uma cidade
se funda todo dia),
que seja desse modo
tão caipira,
pé no chão,
chinfrim.
Os óculos servem
pra gente míope.
A moldura enquadra
o que não foi dito.
Foram dados óbolos
na procissão
desde Antioquia.
Um idioma simples!
Meu Deus, simples!
Sem medo de enigmas.
Sem medo do Demo,
aquele que habita
o casarão
das certezas firmes.
Somos carne
cem vezes febril,
patética,
perecível.
Somos carne
que avança e caminha
aos tombos, como
nos filmes de Carlito.
Somos signos
querendo ser crianças,
mulheres e homens
do nosso Brasil.
Somos sementes
jogadas ao relento
esperando
pra recomeçar.
Então, que Drummond
seja nossa pátria,
que sirva de adubo
e multiplique.
No cômputo
das idas e vindas,
ele dará
o último alvitre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário