(para Karl Amadeus Hartmann,
compositor alemão, 1905-1963)
Violinos crus rasgaram a alma adentro
como se o momento estivesse aquém,
como se tudo o que a humanidade tivesse produzido
fosse febre e indecisão.
Mas nosso amor é nítido:
no céu plúmbeo da ditadura
um homem teve piedade,
uma mulher recitou seu salmo,
as crianças se reuniram em gangues
sob esse orquestrar tão sinistro
que nunca haveremos de esquecer.
Violinos crus sabem o que somos:
formigas que se alimentam de fungos
no backstage que parece confuso,
mas onde uma ou outra voz aponta,
e no saguão das diversidades
um ritmo propulsor se anuncia,
algo talvez como o Messias,
senhor das dissonâncias,
disposto a esquadrinhar as pequenezes
pra no final só restar
um solo de trombone.
Crus, somos cruz, somos carne crua
fabricando mais carne, sons
que se potencializam depressa
num universo tão solitário,
mas algum dia há de emergir um solo
não voluntarioso, só
necessário, com todo o aparato
luxuoso de estarmos juntos
nessa conflagração que se organiza
antes de todo saber,
no desembestar dos violinos.
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