Viver é extremamente perigoso.
Quem nos patrocinou? Foram duendes
dos bosques, ou arraias das águas,
foram deusas-mãe sem saber o que faziam
e assim nos ofertaram, nós nus
sob essa redoma de tantos raios
aonde aponta a montanha mais árdua
e além? Viver é perigoso.
A descrição cabal de nossos corpos
é só tentativa. Nos raios X
das eras viemos tateando,
apagando os rastros de nossa passagem,
como se não gostássemos de nós! Origem,
se existe, está bem longe. Argonautas
em nosso translúcido umbigo teremos
um dia a mais pra contemplar e meditar,
dizer o que importa: família,
nossos filhos crescendo sem piolhos,
nosso eterno quefazer. Irados
porque a realidade é tão rugosa
e nos avassala em seu galope
e depois ficamos velhos e indecisos
e tudo o que aprendemos se evapora,
mas pelo menos construímos a cidade
que de novo parece ofuscar
com suas ladeiras tão solitárias,
suas avenidas terminais. Não adianta.
Por tentarmos mil vezes mil vezes
não nos dirá a Sorte aonde vamos,
nem se ainda é necessário ir.
Viver é extremamente perigoso.
E todos os filósofos fizeram
o mesmo indagar: de onde viemos?
Aonde vamos? E é gratuita
a ida conturbada entre suores
e também todas as maravilhas,
nossa capacidade de assimilação
e que o último grão do celeiro seja
o da esperança? Só resistimos
porque esperávamos. E nossa foi
esta célula: acreditar no belo,
numa floresta ainda mais tenra,
o Novo Mundo com suas pradarias,
o amor garantido. Amor, sobretudo.
Rasgamos as deliberações
por algo que acima nos inflasse,
o habitar perfeito no tempo
junto com todas as crianças
e todos os monges. O habitar perfeito
que cabe num único dizer.
Mas nosso idioma é tão precário!
É a matriz de todos os impasses.
Quanto mais se acumula, mais se perde.
Mas temos de apostar na natureza
búdica: a perda há de ser nossa bênção.
Resgataremos nossos irmãos,
orgulhosos de nossa linhagem,
e no mais tardar das esferas
saberemos se um soluço nos basta.
Sim... até onde vai o senso do perigo?
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